análise

Na Lama Com... o Futebol Português

Nove factores que fazem a modalidade rastejar pelas ruas da amargura. Do mundo perigoso das claques ao rumo seguido pelas presidências dos “três grandes”.
21 May 2018, 3:22pm
(Da esq. para a dir.) Bruno de Carvalho, Luís Filipe Vieira e Pinto da Costa. Estilos diferentes, mas o mesmo "modus operandi" para vencer a qualquer custo? (Fotos via Wikipedia, Wikimedia Commons e Facebook do FC Porto, respectivamente)

Antes de leres este texto, fecha os olhos e contempla os heróis dos relvados ao longo dos tempos (Rui Patrício, João Pinto, Celso, Ricardo Gomes, Branco, Rui Costa, Deco, Figo, Futre, Eusébio ou Ronaldo). Fora deles, a porcaria segue a todo o vapor.

Há um ano um adepto foi assassinado à frente de um Estádio e, na semana passada, um grupo de cinquenta vândalos (de cara tapada) deslocou-se a uma Academia para intimidar e agredir atletas dentro do balneário - ver vídeo abaixo.

Estes crimes são uma das faces visíveis de uma modalidade com bastidores obscuros, sendo a corrupção desportiva umas das que faz maior mossa. Afinal, o que deu cabo do futebol português? A seguir, conhece nove factores que o arrastaram para a lama.

9. O palco televisivo, as audiências e os insultos gratuitos

aqui foi defendido que pelo facto de dois comentadores se agredirem verbalmente numa estação televisiva, não significa que o espectador tenha de ser influenciado e replique o mesmo no quotidiano (a não ser que seja mentalmente desequilibrado). No entanto, olhando para as horas que os canais da cabo concedem a programas com tom agressivo, tornaram-se banais as constantes berrarias e insultos gratuitos.

Os únicos culpados deste género de debate são os participantes? Ou isto tem relevo porque há uma linha editorial que lhes dá palco e existem milhares de pessoas - para não dizer milhões - que lhes dão audiência? O Prolongamento, na TVI, é um exemplo flagrante das constantes diatribes entre os residentes. Numa cena escaldante (ver vídeo acima), José Pina chama “animal” a Pedro Guerra (benfiquista) e este, indignado, exige explicações tocando no corpo do apoiante leonino. Depois deste episódio, Pina comunicou a saída definitiva do painel, esclarecendo que a convivência com o ex-director de conteúdos da BTV é “impossível”.

8. A inexistente cultura desportiva

Esta malta não parece estar muito aberta a conversas saudáveis. (Foto do filme "Green Street Hooligans" (2005)/Cortesia Universal Pictures)

Quantas vezes deste por ti a assistir a discussões sobre uma partida, em que o respeito é zero e o fanatismo é 101%? Umas quantas, não? Na verdade, a inexistente cultura desportiva em Portugal (quando é o futebol que está em causa) reflecte a clubite levada ao extremo em que, muitas vezes, há mais alegria com o desaire dos adversários do que propriamente com a vitória dos ídolos.

É o espelho do que se passa noutros espaços da vida em comunidade, em que se vê uma celebração pela queda dos outros e não propriamente pelo sucesso pessoal. Quando os adeptos não sabem reconhecer que o outro foi superior; quando não se importam de ganhar por caminhos dúbios; quando arranjam desculpas incoerentes para justificar graves infracções cometidas pelo seu clube; e quando o importante é defender os seus e não o desporto em si, pouco há a acrescentar a esta indecente forma de estar.

7. A falta de escrutínio a quem se candidata a cargos de poder

O refrão “Daqui não saio, daqui ninguém me tira” parece ser o lema escolhido pelo presidente-adepto-fanático, Bruno de Carvalho. (Foto via Wikipedia)

Como na política (veja-se Sócrates e o PS), qualquer entidade com peso significativo na sociedade deve redobrar a fiscalização aos seus membros. Sendo Portugal uma aldeia de cuscos, é incrível como o passado lívido de personalidades que atingem o topo de uma instituição, não seja posto em causa antes da subida das mesmas ao poder. Pior é quando, após a sua eleição, as patifarias estão em andamento e quem os rodeia se mantém cego, surdo e mudo.

No caso dos “leões” - que estão a ser passados a pente fino pela comunicação social e justiça - , Bruno Carvalho e André Geraldes (seu braço-direito) têm um antes e um presente de ligação umbilical às claques. Sendo assim, é razoável deduzir que o "terror de Alcochete" possa ter sido concertado inicialmente a partir dos dois - mesmo que fosse para dar um simples “apertãozinho”? É esperar pelos próximos episódios desta triste saga.

6. Um povo pobre nos bolsos... e na mentalidade?

Qualquer dia o futebol luso compara-se a uma sessão combinada de Wrestling. (Foto do filme "The Wrestler" (2008)/Cortesia Fox Searchlight Pictures)

É de reter a seguinte declaração de Luís Vilar (director da Faculdade de Ciências da Saúde e do Desporto da Universidade Europeia) sobre os motivos que levam jogadores e árbitros a aceitar subornos: “A primeira razão é cultural/educacional. Nós vivemos num País onde o jeitinho é bem visto. Quando vamos para as culturas nórdicas, é um ultraje, um atentado à boa honra. Em Portugal, continua alguma permeabilidade. Contacto com muitas pessoas que me dizem 'se fosse eu no lugar dele, então não iria aceitar? São tantos milhões!'. Muitos portugueses dizem isso, é inacreditável”. ( SIC Notícias, a 16 de Maio)

Os baixos salários servem para minimizar os remorsos (para quem os tem) de todos os que se sujeitam a artimanhas. E, por ser regra um “favorzinho” aqui, ou um “empurrãozinho” ali, as pessoas não se tocam quanto à ética profissional que devem assumir. As desculpas passam ainda por desgastadas expressões de que “os outros também o fazem”, “em todo o lado é assim” e “se eu não aceitar, haverá quem aceite”. O clímax da desculpabilização é solidificado pelos maus exemplos vindos de cima, isso mesmo, dos políticos (ver as alíneas 4 e 2).

5. A conivência dos sócios para com acções reprováveis do líder

Lideranças há muitas, com a pinta das que estão inseridas no argumento de Game of Thrones, pouquíssimas. (Foto cortesia Warner Bros Television)

Apesar do respeito que se deve ter pela presunção da inocência até prova em contrário, a liberdade de questionar certas atitudes e decisões é, do mesmo modo, compreensível. Nessa linha de raciocínio, quando há evidências claras de acções moralmente reprováveis, não se percebe que os associados prefiram interpretá-las de olhos fechados. Como se as informações pertencessem ao universo da fantasia, tivessem sido propositadamente fabricadas nos jornais, ou fosse tudo um mero filme sobre teorias da conspiração.

Se os ferrenhos do maior clube da Invicta, ficam estranhamente aliviados pelo facto de os “dragões” terem sofrido pouco com o Apito Dourado (como se isso apagasse o lixo que se ouve nas escutas), os benfiquistas sentem que o cabo das tormentas ainda não foi ultrapassado - com o arrastar de vários processos judiciais desde Outubro de 2017. Do outro lado da segunda circular, parece que o tapete ao líder sportinguista está prestes a ser retirado. Mas, atenção. O seu feitio populista ainda tem um número considerável de seguidores e, se houver eleições antecipadas, não é impossível que vença novamente.

4. A promiscuidade entre políticos e dirigentes desportivos

É um clássico intemporal. A troca de favores entre políticos, os homens da bola e (para que não falte nada no “baile da batucada” com alto prejuízo para os contribuintes) os empreiteiros. Das terras recônditas ao centralismo litoral, é assim que as coisas se fazem. É um win win a triplicar, em que o Euro 2004 e a construção de 10 estádios são um dos maiores “carnavais” deste milénio. Um evento que foi claramente despesista (com a enxurrada de derrapagens) e uma lotaria para quem beneficiou financeiramente - a começar pela construção civil.

A promiscuidade entre os representantes do Estado e os dirigentes desportivos passa, decisivamente, pelo medo dos primeiros. O pavor de perder votos se forem contra instituições com uma enorme quantidade de simpatizantes (com benesses no capítulo da cedência de terrenos ou a benevolência em assuntos ligados à banca, como o recente perdão de dívida, de 94.5 milhões de euros, do BCP e do Novo Banco ao Sporting); o receio em perder uns “bilhetinhos” para a tribuna e umas “viagens todas catitas”; e o mais caricato e ridículo de todos os medos: o de trair o clube do coração.

3. O perigoso mundo das claques

(Era bom que este tópico um dia nos desse motivos para rir - acima um sketch dos Gato Fedorento).

O evento hediondo na tarde de 15 de Maio, em Alcochete, está longe de ser um acto isolado. É, no entanto, um dos mais dramáticos e de uma originalidade lancinante. Quem o praticou é useiro e vezeiro em situações de puro hooliganismo, que só não tem maior repercussão porque não atinge a dimensão do que se passou com os pupilos de Jorge Jesus (com a excepção da morte por atropelamento de um adepto italiano).

As principais claques problemáticas parecem funcionar com leis próprias e a complacência das direcções do Benfica (No Name Boys), FC Porto (Super Dragões) e Sporting (Juventude Leonina). Não é chocante, portanto, que ao longo das décadas, haja estórias envolvendo a violência física, o tráfico de estupefacientes e de armas, o controlo da segurança em estabelecimentos nocturnos, os cânticos nauseabundos, as pressões a árbitros e a atletas da equipa que idolatram.

Nesta maléfica dinâmica de grupo, também é usual a infiltração de skinheads que, a par de outros desmiolados, procuram ocasiões em que possam, basicamente, distribuir porrada. No fundo, estamos perante uma cambada de frustrados, que adora ser “carneirada” para tumultos de toda a espécie e constantemente preparada para soltar a testosterona da estupidez.

2. A moleza e a cumplicidade do Estado

Sinceramente é preferível falar de outro tipo de cumplicidades. (Foto relativa à obra Shortbus (2006)/Cortesia da THINKFilm)

Ao ouvir-se o álbum Adoro Bolos, de Conan Osiris, podem surgir dúvidas se é de música que se trata ou do repertório de um novo comediante. O mesmo se passa com as declarações dos políticos quando acontece uma tragédia no futebol. Estão a falar a sério quando afirmam que algo tem de mudar, ou têm sempre consigo um dicionário cheio de lugares comuns para agradar a cérebros ocos? João Paulo Rebelo (secretário de Estado da Juventude e do Desporto) é de um cinzentismo tal que, cada vez que abre a boca, até o clima solarengo deve querer vomitar trovoadas. O seu discurso é sistematicamente redondo e o mesmo se aplica às semânticas de Ferro Rodrigues (presidente da Assembleia da República) e Carlos César (líder parlamentar do PS). O terceiro até deve ter "metido” uma cunha aos deuses da paz, para que não aconteça mais nenhuma desgraça no mandato rosa.

O cúmulo da “patetice” - substantivo utilizado pelo comentador Pacheco Pereira - tem a assinatura de António Costa. Quando o primeiro-ministro avança com a possibilidade de ser criada uma Autoridade Nacional Contra a Violência no Desporto, está a passar um atestado de incompetência a agentes policiais e a mostrar que o IPDJ é inútil. Espera lá...Queres ver que o futuro Organismo serve para tacho$ com títulos profissionais pomposos, mas com a inabilidade de tomar medidas com resultados efectivos? E o que dizer da maneira como a Liga e a Federação Portuguesa de Futebol agem para castigar os prevaricadores (incluindo a animosidade entre os vários interlocutores desportivos)? Balelas e mais balelas para calar tolos.

(Nota a fechar esta alínea: Desde que está à frente do PSD, o banho de ética prometido por Rui Rio tem tido múltiplas adversidades na canalização - Barreiras Duarte, alguém? -, mas o antigo autarca vai sendo dos poucos que tem a lucidez de salientar que as instituições desportivas, por maiores que sejam, não têm de ser beneficiadas e devem seguir as regras como qualquer outra corporação)

1. Três presidentes ao ritmo da suspeição

Por esta altura, somente os anjinhos acreditam na total idoneidade dos responsáveis máximos dos três maiores emblemas. Aquilo que tem vindo a lume nos últimos dias/ano/década, é revelador de um trio que, alegadamente, escorregou no ideal “não olhar a meios para atingir os fins”.

O rol de escândalos nas presidências de Jorge Nuno Pinto da Costa, Luís Filipe Vieira e Bruno de Carvalho (este com suspeitas desencadeadas na vigente crise), indicam que o futebol profissional é há muito um caso de polícia. E, mesmo em plantéis de menor dimensão, não têm faltado acontecimentos que embaraçam a indústria do futebol. Veja-se a Operação Jogo Duplo, onde 27 arguidos estão a ser julgados pela suposta viciação de resultados.

Desde que estão à frente dos respectivos clubes, têm existido fortes indícios de uma relação perniciosa com as claques - vista como as suas guardas pretorianas; a aposta em dialéticas inflamadas de hostilidade e demagogia barata (ver vídeo acima); presumíveis esquemas para ter a arbitragem na mão (às vezes, com a prostituição como isco) e eventuais aliciamentos a jogadores adversários. O presidente do Sporting é o que está há menos tempo no cargo, mas o terramoto e o furacão desencadeados ultimamente - o ataque desprezível e “chato” na Academia, mais o pretenso suborno a árbitros de andebol e a atletas na Liga NOS - fizeram a sua credibilidade cair a pique.

Fazendo contas à justiça com ramificações desportivas, Pinto da Costa esteve envolvido no Apito Dourado; Filipe Vieira é arguido na Operação Lex e o assessor jurídico encarnado, Paulo Gonçalves, está indiciado no Caso dos Emails e no E-Toupeira; e Bruno de Carvalho viu há dias o director do futebol, André Geraldes, ser indicado como um dos nomes-chave no processo Cashball e a ser suspenso de exercer funções em Alvalade. Mesmo que os líderes possam não estar directamente envolvidos, é difícil de acreditar que não saibam o que se passa em sua casa. É que estes são reinados que têm como objectivo primordial “secar” tudo à sua volta (as oposições internas que o digam) e justificar a todo o custo a confiança depositada pelos associados.

Questão do momento. Será que para sobreviver como presidente no FCP, SCP e SLB é preciso adoptar o acto ilícito como modus operandi? O melhor é chutar a resposta para canto, não vá aparecer uma mensagem cáustica de um director de comunicação ou alguma irregularidade detectada pelo Vídeo-Árbitro.


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