Sexo

Guia para casais curiosos que querem curtir sexo a três sem stress

Casais que fazem ménage juntos ficam juntos? Fui em busca da resposta.
25 June 2018, 10:33am
"Love", filme de Gaspar Noé. Imagem: Reprodução.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Canadá.

A julgar pela multiplicação de novas aplicações destinadas a juntar aos casais um par extra de mãos ou pés, ou o que for o seu desejo, esse “terceiro elemento” está a desfrutar de um certo, digamos, momento cultural. Se estiveres de olho nos perfis do Tinder, provavelmente já te deves ter deparado com o perfil de um casal feliz que na bio diz estar “à procura de se divertir”.

Estaria a mentir se dissesse que o meu interesse pessoal no assunto não cresceu nos últimos anos. Já cheguei até a, brevemente, namorar a ideia de um ménage com a minha namorada e um amigo em comum quando estávamos bêbadas num Uber. Esse momento deixou-me a pensar: se precisas de três pernas para uma mesa ficar de pé, significa que precisas de três bocas para que um relacionamento funcione bem?


Vê: "O que é que se passa com o amor?"


Acontece que, ter um terceiro elemento, envolve qualquer outro aspecto da vida de um casal e envolve também conversar, controlar e colher informação. E, claro, tal como em qualquer relacionamento existem muitas formas diferentes de levar isto a cabo. Pelo interesse da ciência (será que isto é ciência?) pensei em ir em busca de informações para tentar descobrir se existe uma estratégia perfeita para a formação de uma trindade do sexo. Abordei quatro casais que têm terceiros elementos em vários aspectos das suas vidas, para ver se conseguia alguns insights sobre as suas aventuras.

O meu primeiro passo nesta tentativa de desvendar a dinâmica desse terceiro elemento de uma relação foi conversar com dois cavalheiros que, às vezes, partilham a cama com um amigo. Encontraram-no no Grindr. Joe e Samir estão juntos há quatro anos e começaram a receber terceiros na relação assim que se sentiram seguros a respeito disso. “Sempre gostei de jogos cooperativos, com vários jogadores”, conta-me Joe (suponho que, ao mesmo tempo, está a piscar-me o olho pelo telefone). E acrescenta: “É como comer duas coisas diferentes no buffet, porque são servidas ao mesmo tempo”. Que atrevidos.

Joe e Samir afirmam que um parceiro a mais costuma ser alguém decente o suficiente a ponto de que, em outra situação menos, digamos, nua, eles possam ser amigos. “Também ajuda se for alguém com quem um de nós já fez sexo”, refere Samir ao lembrar a sua primeira vez. E sublinha: “Torna-se ainda mais fácil se eu puder dar boas referências sobre a pessoa”. Pergunto a Joe se é verdade. “Bem, eu gosto de alguém que venha com referências”, responde. Faz sentido. Se alguém me recomendasse para um ménage excelente e nem minimamente esquisito, eu atirava-me de cabeça.

Joe e Samir são categóricos a respeito de só quererem sexo com este tipo de "arranjo", porque, explicam, não vão querer sair com o terceiro como parte da relação. “Sinto tanto amor e companheirismo no nosso relacionamento, que procurar isso noutro lugar não está na minha lista”, garante Joe.

Quando questionados sobre possíveis contratempos, os dois salientam que a comunicação é a chave para evitar más energias. “Já tive um terceiro elemento numa relação anterior, mas não acabou bem, principalmente porque as pessoas não estavam a falar sobre o assunto”, recorda Samir. E sublinha: “Tem de haver sempre uma estratégia de fuga, algo que não faça com que o terceiro elemento se sinta constrangido”.

Joe e Samir contam-me que isso se aplica a todas as situações - não só ao sexo. “Acho que o motivo porque acaba por ser uma situação de 'pegar ou largar' se deve ao facto de que, se alguém está incomodado e fala sobre isso, então paramos imediatamente”, explica Joe. E Samir acrescenta: “Sim, não podes antecipar a forma como os teus sentimentos vão mudar, por isso é melhor que estejas também preparado para alguns sentimentos maus”. E as palavras finais do casal são: conversem, conversem, conversem.

Foto via Flickr: Christine Rondeau.

Contudo, se não consegues encontrar o teu terceiro nas aplicações, onde mais podes tentar? De seguida, contactei Rob e Roxy, que são casados e já envolvem amigos na sua relação desde o início. Roxy é bissexual e conta-me que, para ela, foi muito importante ter essa conversa desde cedo em todas as relações. “Amo a forma humana”, salienta.

Além de conversarem sobre filhos, casamento e quantas casas na praia gostariam de ter, eles também necessitam de tempo para discutir com quantas mulheres a mais se permitiriam pinar. Muito bem. Acho que a minha reacção inicial foi semelhante à de Rob, que ele admite ter sido bem exaltada. “A minha reacção inicial foi típica do machão ‘sou o maior macho alfa, pino duas mulheres ao mesmo tempo blá blá blá’, mas, honestamente, acho que essa reacção surgiu de um lugar de insegurança, no qual eu sentia que não era suficiente ou de que não estava a satisfazer a Rox sexualmente, portanto fiz disso uma prioridade”.

Roxy afirma que a primeira vez que ela levou outra mulher para casa, Rob “deu uma de machão esquisito” na cama. “Foi perturbador”, conta. Ai, querido. Portanto, para Roxy e Rob uma terceira pessoa não serve para ter sexo incrível - porque as investidas de macho não são nem um bocadinho sexys. Para eles, é uma questão de terem um elemento prático no relacionamento, mais ou menos como respeitares a opção da tua mulher de ser vegan e almoçares em restaurantes vegan - parece que eles chegaram a esse ponto através de compromissos, não de um desejo mútuo.

Perguntei a Roxy como é que ela fez para contar a Rob que, no início, o sexo não estava a funcionar. Roxy começou a rir-se e depois ficou em silêncio. Ai meus Deus, isto foi esquisito. “Eu só tinha visto ménages em filmes porno, por isso achava que era isso que devia fazer!”, interrompe Rob. Jogo limpo para Rob. Pelo menos admitiu os seus erros. “Adoro o ponto em que estamos agora”, responde Roxy finalmente.

De seguida, perguntei-lhes a respeito da sua terceira pessoa actual. “Ela é muito querida. Muito receptiva e extremamente confiante, o que acho que é o motivo pelo qual resulta”, afirma Roxy. E salienta: “Estamos todos muito confortáveis e ninguém está com ciúmes”. Ela parece um pouco apaixonada. Amén. “O nossos amigos conhecem-na como 'a nossa namorada'. Temos um grupo de amigos bastante poliamoroso”, diz ainda.

É claro que Roxy e Rob têm cuidados ao revelarem o seu arranjo a pessoas de fora do seu círculo de amigos. “Há alguns anos, tivemos de apresentar uma terceira pessoa como minha ‘prima’ a uma das minhas colegas de trabalho quando nos encontrámos para jantar”, relembra Rob. E acrescenta: “O que foi muito esquisito”. “E muito sexy”, recorda Roxy. “Sim… acho que foi o que deixou tudo isto muito esquisito”, continua Rob. Senti que me estavam a piscar o olho do outro lado do telefone.

E qual é a maior qualidade necessária no terceiro elemento?, pergunto. “É a maturidade, acho eu. Isso é muito importante”, responde Rob. Bem, acho que se fores o recheio apimentado numa sanduíche de casal, tens de destilar uma certa dose de maturidade. Se eles forem do tipo preocupados em conversar e com sentimentos e coisas próprias do casamento, vais precisar de ter a capacidade de os acompanhar. Apenas presenciar as conversas exige uma paciência além daquela de que disponho.

De seguida, converso com Ben e Anna, outro casal em que cada um tinha os seus motivos para querer um terceiro elemento na relação. “Acho que sou uma pessoa muito sexual”, justifica Anna. “E eu sou tipo 75 por cento gay”, acrescenta Ben. “Achas-te 75 por cento gay?”, pergunta Anna, parecendo surpreendida. “Depende da manhã. Depende do tempo. Acho que é hormonal”, diz Ben. Depois do choque inicial, Anna relevou o assunto.

A terceira pessoa actualmente envolvida com o casal é descrita como “heteronormativa, mas com um passado homoerótico”, que é como eu poderia descrever todos os meus amigos. Anna já dormiu com a terceira pessoa e Ben já planeou fazê-lo. Para os dois, tudo bem, contando que cada um se mantenha firme no acordado. E, novamente - para ser honesta -, não consigo deixar de pensar que estes casais se estão a exibir.

Para Ben e Anna, a sua incursão no ménage não tem a ver só com sexo, ao contrário dos outros casais com quem conversei. Eles procuram uma relacção com essas pessoas. “Não queremos apenas ir para a cama com uma pessoa aleatória, quero uma amizade e uma relacção emocional duradoura. Pensa em amizade e química… com sexo”, explica Anna. Portanto, Ben e Anna fazem sexo com a terceira pessoa, mas também saem para jantar, o que pode não ser muito bom.

Ambos afirmam que enfrentam muita tensão sexual fora da sua relação, portanto ter uma terceira pessoa ajuda-os a “ter uma experiência autêntica juntos”. De acordo com Anna, ter uma terceira pessoa fez com que Ben melhorasse muito o beijo. Perguntei-lhe se isso era verdade. “Sim, recebes feedback e mudas a tua técnica”, diz ele. Ter uma terceira pessoa pode significar não só um sexo maravilhoso, mas, claramente, pode também significar que existe potencial para trabalhar e melhorar partes importantes da relação e contigo próprio. Não acho que necessito de uma terceira pessoa para melhorar os meu beijos, mas quem sabe - também, depois de toda a conversa obrigatória, do acompanhamento e partilha, ter uma terceira pessoa pode redefinir a minha inteligência emocional; por isso que venham as melhorias!

O último casal com quem conversei, Chelsea e Meg, estão juntas há quatro anos e só recentemente começaram a levar terceiras pessoas para a relação, depois de um grande hiato. As duas retraíam-se verbalmente, como me contam. “Estávamos sob a impressão de que tínhamos tudo, como amor e apoio e um relacionamento incrível, mas que talvez estivéssemos a sentir falta de algo”, explica Chelsea. “Sentir falta de algo… como uma pila?”, respondi, fazendo uma careta. “Acho que cogitamos isso. Ugh, eu odeio”, reponde Meg. Elas convidaram um homem para a relação, porque pensaram que sentiam falta de uma pila. O que é uma experiência bastante comum para mulheres bissexuais e lembro-me que eu e a minha ex tivemos uma conversa parecida quando estávamos a aceitar a nossa sexualidade.

Meg e Chelsea não falam sobre esse período da relação com muito carinho e, ao contrário dos outros casais com quem conversei sobre essa estranha jornada de descoberta, elas contam-me que ter um terceiro elemento masculino impactou negativamente o relacionamento - fomentando inseguranças e ciúmes extremos. Depois de quase um ano com Jack, o terceiro elemento, dispensaram-no e optaram por trabalhar na relação sem ele. Mas, desde então tiveram muito êxito a montar um trio com uma amiga. Então, porquê tentar novamente?

Meg conta que as suas inseguranças surgiram por medo de que Chelsea pudesse ser hétero, mas que a ideia de abrir a relação a outra mulher era bastante atraente. “Sempre achámos a ideia de um ménage bastante sexy”, afirma Chelsea. E acrescenta: “Era como ‘ah, outra vagina - isso é tranquilo’”. Para ser honesta, este é, de longe, o sentimento que sinto - o que é mais uma vagina entre amigas? A actual terceira pessoa é uma grande amiga e defensora da relação e é extremamente respeitosa do espaço delas. Meg conta até que ela e Chelsea raramente precisam de iniciar conversas intensas depois de terem feito sexo, porque a terceira pessoa faz isso por elas. Portanto, elas têm uma terapeuta de casais sexy, com quem ainda fazem sexo e talvez eu esteja com muita inveja da situação.

“Mas então, qual é o segredo?”, pergunto-lhes. “O principal é ter uma terceira pessoa que seja um acréscimo para um relacionamento satisfatório, não para preencher algum vazio esquisito”, garante Meg. E refere: “Acho que foi isso que aprendemos com Jack - estávamos a fingir preencher uma lacuna para nós. Enquanto isso, agora somos mais felizes como um casal sem outra pessoa nesses moldes e a nossa terceira pessoa é uma cereja no topo de um bolo delicioso e feliz”. Já estou a gostar da metáfora. “Se o bolo não for delicioso, não é a cereja que o vai salvar”, acrescenta Chelsea.

Talvez tenha sido a conversa sobre as vaginas e os bolos que turvou o meu julgamento, mas, para mim, isto fez todo o sentido e estou até a concordar com tudo, como se as estrelas se tivessem alinhado na minha mente. “Então… essencialmente, vocês estão a fazer o bolo e a comê-lo também?”, pergunto. “Pelo amor da analogia com o bolo, vamos dizer que sim", respondem. Obrigada Chelsea e parabéns ao casal.

Afinal de contas, o que foi que aprendi? Duvido que esteja perto de me sentar com a minha namorada e decidir se desejamos fazer isto, mas é muito bom saber que existem muitas formas de o levar a cabo e que está tudo bem se não der certo. O meu maior conselho deve ser: não faças sexo com terceiras pessoas a não ser que estejas muito feliz e confortável com a tua relação. Mas, se resultar, uma terceira pessoa poderá abrir espaço para todo o tipo de melhorias numa relação, independentemente de esta ser construída com base na confiança e comunicação mútuas. É mais barato e sexy do que um terapeuta de casais, para ser sincera, portanto não é de admirar que muitas pessoas o estejam a fazer.


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