Como sobrevivi a um cancro na prisão

Primeiro lutei pelos meus direitos, depois pela minha vida.

Por Heather Hodges; ilustração por Cornelia Li; Traduzido por Madalena Maltez
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23 Agosto 2018, 4:27pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Comecei a sangrar em Abril de 2013 e já não parei. Quando cheguei à Unidade Woodman no ano anterior, passei por uma série de exames durante o processo de registo: análises ao sangue, avaliação psicológica e um exame pélvico. Após as actividades iniciais, as coisas foram avançando mais lentamente. Fiz outro exame pélvico dois meses depois. Quando este mostrou células com crescimento anormal, disseram-me que seria informada de qualquer novo passo que fosse preciso dar – ou seja, caso precisasse de mais tratamento.

Pensei que o Departamento de Justiça do Texas* seria responsável pelo meu tratamento médico. Confiei que o sistema iria cuidar da minha vida, uma tarefa em que, obviamente, eu tinha falhado. Quando fui transferida para a Unidade San Saba, acabei por me esquecer da minha saúde ginecológica, como tinha feito durante anos.


Vê: "Matar o Cancro"


Até que o sangue começou. E continuou durante um mês, até requerer uma consulta com o assistente médico, a coisa mais próxima de um médico real entre a equipa técnica da prisão. Ele fez-me outro exame pélvico e disse-me: “Estou a ver que a hemorragia está a ser causada por uma grande lesão no teu cérvix”. De repente, lembrei-me daquelas células anormais de há nove meses atrás.

“O quê?”, disse ele, surpreendido. E acrescentou: “Porque é que não te trataram quando descobriram?”. “Diz-me tu”, respondi. Ele garantiu-me que eu seria transportada com outras prisioneiras doentes para o hospital em Galveston nos próximos dias. “Estas coisas demoram tempo para se transformarem num cancro”, garantiu-me o assistente. “A menos que tu estejas livre”. O humor dele desarmou-me e ri-me em voz alta. Adiantou-me que, provavelmente, entraria e sairia do hospital no mesmo dia. Isso fez-me sentir melhor naquele momento. Mas, não era verdade.

Cada dia que passava em que não era chamada para a transferência médica, sentia-me mais e mais ansiosa. Duas semanas depois, pedi outra consulta. Mais duas semanas passaram, antes de me sentar na mesa de exames coberta de papel da unidade médica da prisão. Afinal, o quase-médico nem sabia da minha requisição - tinha-me chamado para falar sobre os resultados do meu exame de laboratório. “Os teus exames mostram HSIL”, disse. Quando perguntei o que é que isso significava, respondeu “Lesão intraepitelial escamosa de alto grau”. Não era exactamente uma explicação, mas entendi que era uma má notícia. Com uma expressão sombria e sem oferecer nenhum alívio cómico, disse-me que devia ir para Galveston o mais rapidamente possível. Fez um pedido para agilizar o meu transporte e, segundo ele, deveria ser transferida nos dias seguintes.

“Já estou à espera há um mês!”, implorei. “Só mais alguns dias”, prometeu-me. Passaram mais uns dias e, depois, ainda mais algumas semanas. Entre a espera, a hemorragia e a incerteza, o stress atacou-me o estômago. Tudo o que comia deixava-me enjoada. Tentei acalmar-me através de visualizações de cura. Tentei aceitar o que não podia mudar.

Mas, estava determinada a conseguir tratamento para a minha condição. Voltei ao médico várias vezes no mês seguinte. De todas as vezes tive esperança de, finalmente, conseguir tratamento. No entanto, nunca chamavam o meu nome para a transferência.

Exactamente quatro meses depois do assistente médico me dizer “dias”, pela primeira vez, fui não para o hospital em Galveston, mas para a Unidade Crain em Gatesville, para ver um ginecologista da prisão. Esperei que o choque que vi no rosto da enfermeira e dos médicos durante o meu exame pélvico gerasse alguma acção. Ouvi o que eles comentaram ao guarda fora da minúscula sala de exame. “Os exames dela indicam uma condição séria que precisa de ser abordada imediatamente”, disse o jovem médico. E acrescentou: “Não podemos fazer uma biópsia, porque o tumor está a sangrar muito. Podem colocá-la num autocarro daqui para Galveston?”. “Logisticamente pode não ser possível”, foi a resposta do guarda. “Vou verificar”.

Fui mandada de volta para San Saba sem qualquer comentário. Dessa vez tive a certeza de que estaria no próximo transporte para Galveston. O meu estômago estava revirado enquanto esperava pelo anúncio dos nomes às 10 da manhã daquele dia.

Quando não fui chamada, fiquei confusa, indignada e desanimada. Como é que me podiam deixar continuar assim? Fiz outra requisição médica. Sabia que alguma coisa estava desesperadamente errada. Estava com medo e enfurecida. Vou morrer na prisão, devido a uma condição que podia ter sido corrigida por um procedimento ambulatório de 15 minutos há meses atrás? Alguém ia perceber? Esperava que dias melhores ainda estivessem por vir. Esperava uma nova vida sóbria depois de sair. Será que viveria tempo suficiente para isso?

A raiva fez-me agir. Quando não recebi resposta à minha requisição, escrevi uma cronologia temporal detalhada dos meus sintomas, consultas, exames de laboratório e das muitas falsas promessas de que iria receber tratamento “daqui a uns dias”. Incluí os médicos em Gatesville a dizer que eu tinha de ir para o hospital imediatamente. No topo escrevi: “Cópia duplicada para ser incluída num potencial processo jurídico”. Ah, essas palavras conseguiram atenção rapidamente. Processos de dentro da prisão são difíceis de ganhar, mas começava a parecer – pelo menos a mim – que existia um padrão de negligência inegável.

Quatro horas depois de colocar a cronologia temporal na caixa de requisições médicas, estava sentada no pequeno escritório da enfermeira. “Foi bom ter-nos alertado sobre isto”, disse-me ela, com os olhos enrugados de preocupação. E acrescentou: “As instruções do médico estavam escritas no sítio errado, por isso nem estavas na lista de transferência”.

“Estou a sangrar constantemente e as coisas só pioram”, disse-lhe. “Tenho medo que a minha vida esteja em jogo”. Ela olhou-me com compaixão. “Trabalho aqui há bastante tempo e nunca vi ninguém passar despercebida desta forma”, garantiu. Isso era suposto fazer-me sentir melhor? “Não é assim que operamos normalmente”, continuou. “Quer dizer, sei que queres processar e não estou a dizer que não devias. Só quero que saibas que não é esta a norma”. “Não quero processar!”, disse eu, frustrada. “Quero tratamento médico! O meu objectivo é salvar minha vida”.

Quando o gerente da unidade e o capitão entraram no escritório apertado, senti-me exposta e pequena enquanto eles me olhavam de cima, formais e sérios nos seus uniformes engomados. Tive um desejo instintivo de fugir, como se estivesse em maus lençóis. Mas, fiquei colada à minha cadeira de plástico.

O capitão falou primeiro: “Fomos informados da sua questão com a equipa médica e queremos desculpar-nos. Gostaríamos que soubesse que estamos a trabalhar para arranjar transporte”, disse. "Deve partir muito, muito em breve. "O meu queixo caiu. Ele queria pedir desculpas? Nunca tinha ouvido uma coisa destas.

Naquela mesma noite, uma guarda acordou-me de um sono profundo e instruiu-me a levar apenas o essencial: escova de dentes e chinelos de banho. “Outro guarda vai empacotar as tuas coisas”, disse. “Deixa tudo aí. Vamos agora”. Ela fechou a porta aos meus pertences, às minhas amigas e ao meu lar do último ano.

Fui algemada pelas mãos e pés para uma viagem de sete horas até Galveston. As correntes arrastavam-se enquanto caminhava até à carrinha. A cada passo sentia-me mais leve, o meu espírito enchia-se de gratidão por, finalmente, receber atenção médica. Distanciei-me de todo o stress e sofrimento naquele momento.

Três dias depois, fui oficialmente diagnosticada com cancro cervical e comecei outra jornada longa e árdua de quimio e radioterapia. Recebi cuidados excelentes e respondi bem ao tratamento - o tumor dissolveu-se. Tornei-me uma guerreira. Primeiro, lutei pelos meus direitos - depois, pela minha vida. E nunca desisti de lutar.


* Depois de pedidos de comentários, um porta-voz do Departamento de Justiça do Texas disse numa declaração que a instituição “garante que todos os 145 mil detidos no sistema recebam cuidados médicos de alta qualidade. Além de atendimento médico disponível em todas as nossas enfermarias, os detidos também são tratados na nossa Unidade Hospitalar de Galveston, Texas, e em algumas instalações privadas. A nossa Divisão de Serviços de Saúde monitoriza constantemente a entrega de cuidado de qualidade e investiga queixas médicas. Devido ao HIPAA não podemos comentar sobre casos individuais”.

Heather Hodges, 46 anos, foi libertada da Instalação Médica Carole Young em Dickison, Texas, a 27 de julho de 2018, depois de cumprir cinco anos por tráfico de drogas. Está a escrever um livro de memórias sobre a sua luta contra o cancro e planeia criar uma organização para toxicodependentes em recuperação e cães resgatados, para trabalharem juntos em serviços para a comunidade.


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