Quem são os bolsonaristas?
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Politică

Quem são os bolsonaristas?

Pesquisadora estudou o perfil dos eleitores do candidato à presidência nas eleições 2018, Jair Bolsonaro.
27.8.18

Na corrida eleitoral, o verdadeiro protagonista é o eleitor. A ele são direcionadas as campanhas, promessas e pesquisas, uma vez que sua decisão final é a que faz diferença.

Entre os mais diversos eleitores, se destacam os bolsonaristas, seguidores fiéis do deputado federal pelo Partido Social Liberal (PSL-RJ) e hoje, candidato à presidente da República das eleições de 2018, Jair Messias Bolsonaro. São eles que querem a liberação do porte de arma, criminalização do aborto e militarização do Governo e escolas.

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Foi entre 2015 e 2016, durante os protestos pró e contra o impeachment da presidente Dilma Rousself, que a professora doutora Esther Solano, da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), começou a estudar o discurso antipetista e antipolitico de quem já não acreditava mais nos políticos tradicionais e se apresentava como apoiador de Bolsonaro.

Destrinchamos o estudo sobre a Crise da Democracia e extremismos, publicado pela doutora junto com a Fundação Friedrich-Ebert-Stiftung (FES) Brasil, para compreender o perfil do eleitorado do candidato, atualmente em segundo lugar nas pesquisas.

Contexto histórico e atual cenário social e político

Segundo o estudo da professora, as principais heranças do Brasil oriundas da colonização são autoritarismo e racismo. A partir deste contexto, decisões foram tomadas criando um viés autoritário na sociabilidade brasileira, que geram problemas democráticos, tanto na ordem política quanto na econômica. Esses problemas, então, refletiriam diretamente na base da sociedade.

“A democracia representativa, o modelo, está muito em crise; produz muita insatisfação”, explica Solano. Os mais recentes casos como o mensalão, Lava Jato e o impeachment são os principais reflexos dessa atual conjuntura, derivando traumas no cidadão. Não há credibilidade nos três poderes, nas representações partidárias, muito menos na segurança pública, segundo ela.

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O pobre cidadão de bem

Desses preceitos, surgiria a condição do "cidadão de bem", propagada pelo candidato e seus seguidores. Durante a pesquisa, Esther diz ter percebido que essas pessoas estão em condições psicológicas de se sentirem desprotegidas, abandonadas e desamparadas pelo Estado. "Sempre digo que são pessoas que têm muita incapacidades cognitivas, emocional de lidar com esse mundo", completa.

"Num país que tem 70 mil mortes por ano, é compreensível esse medo. Mas o que é mais interessante que é essas pessoas veem o mundo como se fosse uma dualidade. O cidadão de bem e o bandido", elucida a professora. Daí vem os discursos de que "bandido bom é bandido morto" e o anseio pelo aumento das punições, justiça coletiva, até os linchamentos.

"É uma visão muito moralista do mundo, porque o cidadão de bem seria aquela pessoa que cumpre, que ordena, que tem valor, da família, a coisa da disciplina, do trabalho, dos valores que já sabendo. E o bandido, qualquer um. Pode ser um jovem negro da periferia, mas também pode ser o político corrupto, o professor que na teoria não ensina os alunos corretamente."

O outro lado da força: o inimigo

Em seu estudo, a professora Esther pontualiza a necessidade do cidadão de bem em querer aniquilar tudo o que é oposto a ele. "Muitas vezes, não é aquele lado do inimigo abstrato, eles sentem que é um inimigo para vida deles. O inimigo é uma dialética muito de guerra, bélica. É aquela pessoa que você quer que desapareça. Quer aniquilar, tirar fora da sua vida. Por isso vale tudo contra o inimigo".

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Um exemplo bem claro dessa aniquilação apresentada na pesquisa é a ideia do "kit gay". Em 2011, quando o então ministro da Educação Fernando Haddad tentou implementar o projeto Escola Sem Homofobia na rede pública de ensino, o intuito era debater e diminuir o preconceito contra a comunidade LGBTQ. A bancada evangélica e o próprio Bolsonaro surtaram com a proposta.

A interpretação tomada por eles é de que os professores ensinariam os alunos a ter a sexualidade diferente na escola, a sexualidade não heterossexual, segundo a professora. "Eles acreditam nisso, não é uma piada. Eles sentem que isso é uma ameaça para o filho, para essa ordem do mundo. Sentem que o inimigo está diretamente ameaçando a vida dele. Não consegue lidar com isso", complementa.

O jovem conservador

Em 2017, o Instituto Datafolha publicou uma pesquisa que indicava que 60% dos eleitores inclinados a votar no ex-militar tinham entre 16 a 34 anos. Tanto no estudo apresentado pela doutora quanto nas redes sociais, os seguidores mais novos se mostram favoráveis a Escola Sem Partido, intervenção militar e o conservadorismo.

A cientista política explana que esse jovem tem uma memória criada, construída. São jovens que pregam valores do passado, da ordem, tradição e autoridade, mesmo sem viver desse passado. "Nós sabemos que muitos jovens acompanham valores conservadores. Porém, como que o jovem tem essa mentalidade conservadora, de um passado que ele não viveu?", questiona Esther.

Match com o Bolsonaro e seu discurso

Quem é que ganha com toda essa instabilidade emocional, discurso e raiva? Ele mesmo, Jair Bolsonaro. O estudo mostra que a nova direita, extremista, utiliza a mesma mensagem do ódio da direita tradicional. Ela se apresenta como homofóbica, misógina, racista, e que entendeu que é hora de se mexer e utilizar ferramentas novas para precisar se comunicar com população.

Essa sacada foi usar as redes sociais para proliferar o discurso e angariar seguidores. "Com o Bolsonaro, há uma linguagem na rede social muito mais juvenil, leve, um processo da memificação da política. Não é um textão enorme, que ninguém ler. É um vídeo no YouTube, uma postagem, um meme. Uma linguagem pop que seduz muito mais, consegue captar a atenção", detalha Solano.

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Na pesquisa é possível encontrar os relatos de quem é atraído pelo candidato, considerado como uma figura legal, bacana e divertida. A partir disso, surge "o mito Bolsonaro", que penetra entre os jovens. O discurso sem papas na língua se torna interessante. "Os jovens dizem também que ele fala o que pensa, é uma figura que não é roteirizada, que não segue o marketing eleitoral, e eles veem como uma coisa positiva, como valor", pontua.

"Isso que seduz muito, ao mesmo tempo é muito perigoso. Porque esse mesmo jovem acaba assumindo mensagem de ódio", relata Esther, que percebeu entre os jovens entrevistados, em sua maioria, a falta de consciência nas mensagem de ódio por trás do formato divertido, memético, e nisso, a mensagem de ódio se torna banal.

Consequências

O estudo apresenta a dificuldade dos eleitores e seguidores do candidato a presidência pelo PSL a compreender de fato o que é política, democracia e suas derivações. "Ler e entender o plano de governo precisa de uma educação política, crítica, uma formação ideológica, não é qualquer que entende. Não é pouca coisa isso, a gente volta nessa incapacidade cognitiva, política, da pessoa entender esse tipo de ideia, propostas. É muito complicado isso", alerta Esther.

A professora também comenta sobre como a internet tem se tornado um espaço de formação e informação política. Embora seja algo positivo na questão de acesso, há um lado perigoso em relação ao tipo dessa informação. "Nós estamos com uma informação politicamente mais frágil, que funciona melhor como fake news, um pseudo jornalismo, do ataque, das mentiras. O tipo de informação política muito infantilizada, superficial, muitas vezes é mentirosa".

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Solano fala sobre a "bolsonarização" do debate político, que significa uma postura da extrema-direita que não tem mais vergonha de falar publicamente. "A forma e os temas que o Bolsonaro fala se disseminaram. Criou-se uma certa postura, uma percepção na população, que podemos falar sobre isso e está tudo bem ser racista, homofóbico, misógino e isso é muito perigoso", afirma.

Para os bolsonaristas, como caracteriza o estudo, opinar e falar sobre qualquer assunto é liberdade de expressão, independente se o discurso apresenta ser racista, xenofóbico, homofóbico. E caso não seja, é considerado censura por eles.

Por fim, a professora expõe que o Jair Bolsonaro tem essa coisa muito demagógica. "Ele não fala quase nada sobre economia. Quando ele fala, por exemplo, sobre a política, ele se apresenta como candidato honesto, ético, mas como ele vai se virar com a corrupção? Não fala nada. O ponto forte dele é de justamente captar a raiva e essa coisa do desejo de mudança, do desespero, da frustração", finaliza.

Assista ao documentário da VICE Brasil: "O mito de Bolsonaro"

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