reportagem

Uma noite com "las ochenta", as venezuelanas que se prostituem em Boa Vista, no Brasil

Assim conhecidas por cobrarem 80 reais (as brasileiras cobram 100), imigrantes muito jovens encontram na prostituição uma forma de sustentarem a família.

Por Débora Lopes
29 Agosto 2018, 9:43am

Foto: Tommaso Protti/Angustia.Photo

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

Está muito calor em Boa Vista, capital de Roraima, Brasil. Na maioria das esquinas do bairro Caimbé, três ou quatro jovens reúnem-se e é comum vê-las a puxarem o cabelo para o alto da cabeça e a abanarem-se O clima é húmido e abafado. Estas jovens mulheres venezuelanas, entre os 18 e os 25 anos, encontram na prostituição uma forma de conseguir dinheiro para se alimentarem e pagarem o aluguer de uma pensão. Ao tomarem as ruas do bairro, ficaram conhecidas como “las ochenta”, já que as brasileiras cobram 100 reais [cerca de 20 euros] por programa e as venezuelanas, 80 reais [pouco mais de 16 euros].

O Exército e a Polícia Federal estimam que 500 imigrantes cruzam a fronteira diariamente. No Brasil, fazem tudo o que é possível para sobreviver. Enquanto não conseguem um emprego formal, vendem doces e limpam vidros de carros nos semáforos - e boa parte afirma ser alvo de ofensas e até mesmo de ameaças com armas de fogo por condutores já enfurecidos com a proliferação de venezuelanos pela cidade.

Na noite de terça-feira, 21 de Agosto, conversei com José Oliveira, professor voluntário da Associação de Bem com a Vida, que, além de dar aulas de português a imigrantes em situação de vulnerabilidade, distribui preservativos concedidos pelo governo entre as jovens profissionais do sexo. Ele explica que, co contrário do que acontece no Brasil, não há distribuição de "camisinhas" na Venezuela. Por ter muitas alunas que estão na prostituição, José inclui também aulas sobre prevenção de DSTs na sua grelha de ensino.

Descemos do carro com uma quantidade generosa de pacotes de preservativos e gel lubrificante dentro de sacolas. O professor improvisa um "portunhol": “Hola, somos de la salud. Temos camisinhas”. As meninas não hesitam e vêm na nossa direcção. Entregamos cerca de 15 preservativos a cada uma. Quando vêem o gel lubrificante, parecem ficar animadas. “Gel, yo quiero gel”, dizem.

Logo na primeira ronda de raparigas, converso com Daniela*, de 21 anos. Na Venezuela, estava na faculdade de comunicação social, mas explica que o ensino foi decaindo com a crise. Não havia professores, aulas, transporte e a falta de comida dos últimos tempos piorou tudo. Por isso, deixou o país e veio para o Brasil com a mãe.

Daniela tem um cabelo preto comprido e levemente ondulado. Usa uns calções de ganga curtos e uma blusinha cor-de-rosa. É extremamente comunicativa e inteligente. Conta que não se prostituía na Venezuela, mas que a situação também não está boa no Brasil. A mãe sabe da vida profissional da filha, mas não gosta nada da ideia. “Mas, hoje, não tenho outra opção”, desabafa, segurando os pacotes de preservativos e de gel. “Como aqui pagamos renda, ainda não conseguimos juntar dinheiro para enviar para a nossa família na Venezuela”.

Foto: Tommaso Protti/Angustia.Photo

Daniela reforça que, além de a distribuição de preservativos pelo governo não existir, é raro encontrar o produto nas prateleiras das farmácia no seu país natal. E, quando há, é caro, tal como a maioria dos produtos perante a hiper-inflação de 82.000 por cento sob o governo de Nicolás Maduro.

Daniela diz que sabe falar um pouco de inglês, mas que gostaria de aprender outras línguas e que queria ser jornalista. O professor José aproveita o gancho e convida-a para frequentar as aulas de idiomas da associação em que actua. Daniela empolga-se e diz que pela manhã irá encontrar-se com o professor na sala de aulas para fazer a inscrição. Despedimo-nos e seguimos pelo bairro. Em todo o trajecto, não vejo clientes, apenas alguns homens de bicicleta que param para conversar e acabam por ir embora. Parecem amigos, não clientes. José conta-me que muitos deles são traficantes.

Noutra esquina, uma venezuelana revela-me que, apesar de serem conhecidas como “las ochenta”, têm cobrado 100 reais pelo programa e que muitos clientes se dispõem a pagar somente 50 reais [ cerca de 10 euros]. “Não vale a pena”, menciona. Pergunto se o movimento está bom e ela diz que não. O professor diz que algumas mulheres acabam por aceitar um valor mais alto para fazer sexo sem camisinha. “Sugeri a estratégia de que, nesses casos, elas pelo menos usem o preservativo feminino”.

Quando reparei nuns preservativos femininos nas sacolas, passei a distribui-los às raparigas enquanto perguntava: “Usas destes?”. A maioria disse que sim, mas muitas nem conheciam. "Obrigada, mi amor", respondeu-me uma delas.

Caimbé é um bairro residencial e José relata que os moradores não gostam da transformação da região em zona de prostituição. "Funciona 24 horas. Se vieres de manhã, vais encontrar várias meninas. Umas viram a noite, outras trabalham de dia". Questiono se já havia algum sítio destes na cidade antes da chegada das venezuelanas. "Existiam alguns pontos, mas não uma concentração. E as brasileiras não gostam das venezuelanas. Tanto que não se misturam. Brasileiras, travestis e venezuelanas ficam em lugares separados", refere.

Continuamos a dar voltas voltas pelo bairro de Caimbé até que os preservativos se esgotem. Antes de ir embora, pergunto quantas camisinhas José costuma entregar. “Quatorze mil por mês. Mais que os postos de saúde de Boa Vista”, responde. No dia seguinte, encontro-me novamente com o professor e pergunto-lhe se Daniela se foi inscrever nos cursos de idioma. Ele responde que não.

*O nome foi alterado a pedido da entrevistada.


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