Desporto

Brazica, Ep. 1: A ostentação das camisas de várzea nas quebradas de SP

Nesse vídeo, mostramos que fardamento do time do bairro não é só artigo de moda: é sinônimo de status, pertencimento e representatividade.
12.7.18

Este é o primeiro episódio em vídeo da série Brazica, a nossa busca pelo lado mais inusitado do futebol nacional. Acesse todas as matérias aqui.

Os uniformes da várzea são um capítulo à parte no futebol das quebradas do país. Só em São Paulo, estima-se mais de oito mil clubes com as mais variadas características de uniforme. É só colar na beirada do gramado para ver as equipes de cores que vão do azul e branco ao preto e laranja — por um gosto pessoal do finado Neguin, imortalizado em uma música do Racionais MC’s e fundador do Vila Fundão, time forte do Capão Redondo, zona sul de São Paulo.

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O futebol de várzea, como o nome bem diz, começou nas regiões varzeanas da capital paulista. Os primeiros times eram formados por operários de grandes empresas, que há décadas ficavam nos leitos dos rios. Depois de muitos anos e muita contaminação da água, as coisas mudaram, se fortaleceram nas periferias e ganharam muitas histórias. Os clubes nasceram na rua, na empresa, na reunião de amigos, entre outras variações que só o acaso é capaz de explicar.

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Há todo um universo construído no futebol de várzea e ele vai muito além dos mascotes do Hulk, Papa Léguas, Coringa ou Bin Laden. A camisa do time do bairro é sinônimo de status, de representatividade. De uns anos pra cá, as peças começaram a ser usadas pela galera também no trampo, no baile e, claro, no bairro.

Renato Bezerra, proprietário da Uniex, umas das principais empresas de fardamento esportivo no futebol amador, aprendeu a oferecer o melhor produto com o melhor material para as pessoas que vieram das periferias. Os modelos em sua loja variam e se inspiram nos uniformes profissionais: o corte, o tecido, o formato, tudo é feito para que o boleiro de fim de semana se sinta o Mbappé ou o Salah. “Qual a importância de um preto, pobre e marginalizado andar com um produto de qualidade?”, questiona. “A mesma de um branco, rico e privilegiado.”

A várzea é comumente associada a algo que deu errado, que não é organizado. Mas é só chegar num campeonato de quebrada para notar o erro brutal do jargão popular. “Não posso classificar o futebol de várzea a partir do futebol profissional. A ideia não é essa, não é uma coisa que não atingiu o status ou o nível do futebol profissional. É uma coisa com uma cultura, interesses e torcida diferentes”, afirma Eduardo Brechó, vocalista do Aláfia, torcedor e narrador de jogos de várzea pelas quebradas de São Paulo. “O futebol é o mesmo, a diferença é a questão da identidade, a relação mais íntima, o acesso que você tem aos jogadores, à diretoria, à torcida, às comunidades e a partir disso a gente faz um intercâmbio.”

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No gramado sintético do campo do Palmeirinha do Paraisópolis dois times de preto e amarelo disputam a Copa da Paz, torneio criado, entre outras pessoas, pela inquieta Tati Ivanovici, que deixou o rap e as comunidades em luto há três anos. Eles ostentam belos fardamentos e do no alambrado uma belíssima festa. Bandeirão, sinalizador, máscara do Bin Laden, rojão, lanche de pernil, banda na disciplina e em campo dois times aguerridos, que não devem em nada para uma partida profissional de futebol.

Ajax 2 x 0 Sedex no placar. Os dois times da zona leste saíram respectivamente da Vila Rica e da Vila Prudente com centenas de torcedores uniformizados com camisas, agasalhos passeando a cultura de várzea pela capital paulista. Do alto de uma laje dá para ver uma mensagem na linha de fundo do campo do Palmeirinha explicar o sentimento de milhares de pessoas que passam os finais de semana dentro ou à beira dos gramados da várzea: “Só quem ama entende”.

Mas se você não ama, dá pra pelo menos ter empatia ou curtir um rolê.

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