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Desporto

"Brazica", Ep. 1: A ostentação das camisolas das equipas de bairro de São Paulo

O equipamento das equipas de futebol do bairro não é só um artigo de moda. É sinónimo de estatuto, pertença e representatividade.

Por Peu Araújo
05 Dezembro 2018, 10:54am

Este é o primeiro episódio em vídeo da série Brazica, da VICE Brasil, uma busca pelo lado mais inusitado do futebol brasileiro. Podes ver todos os artigos (não adaptados ao português europeu, ao contrário do que podes ler abaixo) e docs aqui.

Os equipamentos "da várzea" são um capítulo à parte no futebol das "quebradas" [nome dado a zonas consideradas perigosas] do Brasil. Só em São Paulo, estima-se que existam mais de oito mil clubes com as mais variadas características de equipamento. Basta olhar para o que se passa dentro dos relvados para ver as equipas com cores que vão do azul e branco ao preto e laranja - devido ao gosto pessoal do finado Neguin, imortalizado numa música do colectivo Racionais MC’s e fundador do Vila Fundão, clube forte do Capão Redondo, zona sul de São Paulo.

O futebol de várzea, como o nome sugere, começou nas regiões varzeanas da capital paulista. Os primeiros clubes eram formados por operários de grandes empresas, há décadas instaladas em zonas junto aos leitos dos rios [daí o nome várzeas]. Depois de muitos anos e muita contaminação da água, as coisas mudaram, fortaleceram-se nas periferias e ganharam muitas histórias. Os clubes nasceram na rua, na empresa, na reunião de amigos, entre outras variações que só o acaso é capaz de explicar.

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Há todo um universo construído no futebol de várzea, que vai muito além das mascotes do Hulk, Papa Léguas, Joker ou Bin Laden. A camisola do clube do bairro é sinónimo de status, de representatividade. De há uns anos a esta parte, as peças começaram a ser usadas também no trabalho, noas festas e, claro, nos bairros.

Renato Bezerra, proprietário da Uniex, umas das principais empresas de equipamento desportivo no futebol amador, aprendeu a oferecer o melhor produto com o melhor material para as pessoas que vêm das periferias. Os modelos na sua loja variam e inspiram-se nos equipamentos profissionais: o corte, o tecido, o formato, tudo é feito para que o jogador de fim-de-semana se sinta o Mbappé ou o Salah. “Qual é a importância de um preto, pobre e marginalizado andar com um produto de qualidade?”, questiona Bezerra. E responde: “A mesma de um branco, rico e privilegiado”.

A várzea é normalmente associada a algo que não resultou, que não é organizado. Mas, basta olhar para um campeonato de bairro para se ver o erro brutal da crença popular. “Não posso classificar o futebol de várzea a partir do futebol profissional. A ideia não é essa, não é uma coisa que não atingiu o estatuto ou o nível do futebol profissional. É uma coisa com uma cultura, interesses e adeptos diferentes”, afirma Eduardo Brechó, vocalista da banda Aláfia, adepto e narrador de jogos de várzea nas quebradas de São Paulo. “O futebol é o mesmo, a diferença é a questão da identidade, a relação mais íntima, o acesso que tens aos jogadores, à direcção, à claque, às comunidades e, a partir disso, fazemos um intercâmbio”.

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No relvado sintético do campo do Palmeirinha do Paraisópolis, dois clubes de preto e amarelo disputam a "Copa da Paz", torneio criado, entre outras pessoas, pela inquieta Tati Ivanovici, que deixou o rap e as comunidades em luto há três anos. Eles ostentam belos equipamentos e proporcionam uma belíssima festa. Bandeiras, sinalizadores, máscaras de Bin Laden, foguetes, sandes de pernil, banda disciplinada e, em campo, duas equipas aguerridas, que não ficam a dever nada a uma partida profissional de futebol.

Ajax 2 x 0 Sedex no marcador. Os dois clubes da zona leste saíram respectivamente da Vila Rica e da Vila Prudente com centenas de adeptos vestidos com camisolas e agasalhos a passearem a cultura de várzea pela capital paulista. Do alto de um muro é possível ver uma mensagem na linha de fundo do campo do Palmeirinha que explica o sentimento de milhares de pessoas que passam os fins-de-semana dentro ou à beira dos relvados da várzea: “Só quem ama entende”.

Mas, se não amas, podes, pelo menos, sentir empatia ou curtir um bocado.


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