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Drogas

Tudo o que é preciso evitar antes de tomar ayahuasca

A verdade por detrás de todas aquelas restrições habitualmente impostas antes de consagrar um cházinho.

Por Suzannah Weiss; Traduzido por Madalena Maltez
16 Agosto 2018, 8:05am

Laura Austin / Stocksy

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Tonic.

Antes de participar no meu primeiro retiro de ayahuasca no México, no ano passado, o organizador do evento enviou-nos uma lista de alimentos e afins que todos deveríamos evitar: nada de drogas durante três semanas, nada de álcool ou porco durante duas semanas, nem lacticínios, fritos, cafeína ou açúcar durante dois dias.

Os argumentos por detrás de algumas das orientações pareciam, no mínimo, meio dúbios - “nada de sal, porque plantas como a ayahuasca gostam de água doce e não salgada”-, enquanto outros eram mais convincentes. Como “nada de alimentos com um aminoácido chamado tiramina, porque isso pode aumentar a frequência cardíaca, assim como a ayahuasca”). Aparentemente, algumas orientações pretendiam servir como guia para se ter uma experiência melhor, enquanto outras se voltavam para a prevenção de quaisquer problemas de saúde. Devo comentar que, mesmo a seguir tudo à risca, duas das minhas três trips foram bem fraquinhas.


Vê: "No interior de um retiro espiritual de Ayahuasca em Espanha"


Após me ter inscrito para o meu segundo retiro, desta vez na Holanda, vieram algumas instruções simples: evitar alimentos ricos em tiramina no dia anterior e parar de tomar quaisquer remédios com dois dias de antecedência. Comi nuggets de frango e batatas fritas na noite antes da cerimónia, bebi dois cafés com leite naquela manhã e correu tudo bem: a experiência foi intensa e eufórica. Os cogumelos que tinha comido uma semana antes (afinal de contas, estava na Holanda) não parecem ter atrapalhado em nada a minha cena com a ayahuasca, então dei por mim a questionar se tantas restrições seriam mesmo necessárias – ou até se qualquer uma destas restrições valeria de alguma coisa.

As alterações na alimentação preescritas por xamãs e organizadores de retiros como estes, são muitas vezes chamadas de “dieta da ayahuasca” mas, de acordo com Alex Gearin, antropólogo especialista em medicina e investigador honorário da Universidade de Queensland, na Austrália, tal dieta parece mudar de cultura para cultura. “Há muitas crenças e recomendações na altura de se tomar ayahuasca no meio da Amazónia, por exemplo”, afirma. E acrescenta: “A restrição alimentar mais comum nesses casos é em relação à carne de porco; a dieta purifica a mente e o corpo para a recepção de trabalhos xamânicos como cura, caça, magia ou divindade”.

Há poucas investigações científicas que sustentem tais práticas, de acordo com Luís Fernando Tófoli, professor de psicologia médica e psiquiatria da UNICAMP. De facto, algumas das culturas que consomem ayahuasca contam com costumes que contradizem estas recomendações; a tradição brasileira do Santo Daime, por exemplo, envolve, em algumas ocasiões, o consumo de canábis durante as cerimónias. Já a União do Vegetal, não apresenta nenhuma restrição alimentar e os seus membros não apresentaram nenhum problema em especial, de acordo com Tófoli. “Há alguns relatos de indivíduos que afirmam ter tido uma experiência mais ‘clara’ com a ayahuasca depois de seguirem uma dieta compatível com a tradição vegetariana”, complementa Tófoli. E conclui: “Infelizmente, não dispomos de estudos que tenham examinado tais questões”.

Ainda assim, há dados em relação à tiramina, encontrada em queijos maturados, carnes curadas e alimentos em conserva, que sugerem que o seu consumo em conjunto com inibidores de monoamina oxidase (IMAOs), como aqueles presentes na ayahuasca, pode ser perigoso. “Tanto a ayahuasca como a tiramina podem aumentar a pressão sanguínea”, afirma Scott Keatley, nutricionista nova-iorquino. E justifica: “Caso a pressão sanguínea aumente muito e de forma súbita, a crise hipertensiva pode levar a enfartes, problemas cardíacos generalizados, perda de função renal, dores de cabeça e ansiedade”.

Alimentos que contenham triptofano, como é o caso de laticínios e carnes como o peru, também podem causar problemas. Pelo menos, é o que afirma James Giordano, professor de neurologia e bioquímica do Centro Médico da Universidade de Georgetown, nos EUA; o triptofano aumenta a disponibilidade do neurotransmissor serotonina no cérebro e como a ayahuasca já estimula a liberação do mesmo, o resultado pode ser um excesso de serotonina que pode levar a tremores, batimentos cardíacos acelerados, ansiedade, febre e até mesmo danos cerebrais em casos mais graves.

Evitar o consumo de álcool e outras drogas também é recomendável, de acordo com Tófoli, tendo em conta alguns relatos de pessoas que tiveram experiências complicadas com ayahuasca após o uso de álcool e de cocaína. "Qualquer estimulante, como é o caso da cocaína, pode aumentar as tuas hipóteses de sofreres uma arritmia cardíaca sob o efeito da ayahuasca", diz Giordano. O MDMA é considerada uma droga especialmente problemática, porque aumenta os níveis de serotonina e, consequentemente, os riscos advindos do excesso da mesma; Giordano recomenda que se evite o uso de drogas recreativas pelo menos um dia antes e um dia depois de se tomar ayahuasca. O mesmo pode ser dito sobre o álcool, que pode acabar por aumentar os efeitos do DMT presente na ayahuasca, fazendo com que as alucinações, a náusea e o aumento de batimentos cardíacos possam ser mais intensos ou duradouros, complementa Giordano.

Certos medicamentos ingeridos antes da cerimónia podem causar problemas por causa dos seus efeitos na serotonina. Inibidores selectivos de recaptação de serotonina (ISRS), como o Prozac e o Zoloft por exemplo, podem pôr-te em maus lençóis, aumentando a possibilidade de sofreres os efeitos de um síndrome serotoninérgico. Um caso de estudo, descreve a experiência de um homem que sofreu com “tremores, suores, calafrios e confusão mental” depois de ter ingerido ayahuasca juntamente com o uso de Prozac. A situação é semelhante quando se tomam medicamentos que funcionam como IMAOs, o que inclui remédios para o tratamento de depressão e Parkinson; Tófoli afirma que não se deve consumir nenhum destes antes da ingestão de ayahuasca, que também contém IMAOs. O consumo exacerbado destas substâncias de uma só vez pode aumentar os riscos de hipertensão e, mais uma vez, da ocorrência de um síndrome serotoninérgico. Opióides também entram na lista de drogas a serem evitadas, visto que aumentam os níveis de serotonina no cérebro.

Já no campo das restrições alimentares que as pessoas dizem melhorar a experiência, resta-nos especular. Segundo Keatley, abdicar de substâncias como a cafeína, o álcool e o açúcar pode reduzir os níveis de serotonina, o que por sua vez levaria a um maior aumento deste neurotransmissor ao ingerir ayahuasca, proporcionando uma experiência de maior intensidade. No caso da carne de porco, Giordano comenta que talvez o consumo da carne seja proibido, porque o porco cria ácido aconítico no corpo que, em combinação com a ayahuasca (que contém ácido endólico), pode levar à libertação de metabólitos que pesam nos rins – contudo, nada confirmado.

Sendo assim, não há muitas provas científicas por detrás destas restrições que me foram impostas antes de tomar ayahuasca no México, mas pelo menos a malta da Holanda parecia ter na mira algo mais certeiro. Por muito que não haja consenso quanto à proibição do consumo de carne e de açúcar, é pelo menos recomendável evitar tiramina, drogas recreativas, bebidas alcóolicas e certos medicamentos antes de te adentrares a fundo na coisa. Talvez a tua viagem não seja tão potente, mas pelo menos será mais segura.


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