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Drogas

Como as pessoas fumam erva para lidar com o luto

O papel que a canábis pode ter na forma como lidamos com o processo de perda.

Por Jessie Gill; Traduzido por Madalena Maltez
23 Abril 2019, 2:24pm

Ilustração por Elizabeth Renstrom, Kitron Neuschatz e Lia Kantrowitz.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Tonic.

A morte é uma merda. Não há outra palavra. Da próxima vez que estiveres num enterro, à procura de palavras profundas de consolo, pára e, simplesmente, reconhece que a morte é uma merda para as pessoas que ficam e que o luto pode ser uma tortura.

A verdade é que o luto é um processo natural da experiência humana que a maioria de nós é obrigado a encarar. Luto, o processo de passar pelas fases da perda, pode durar o resto da vida. Mas, o que podemos fazer para aliviar a dor? A literatura especializada recomenda geralmente tempo, apoio da comunidade, conexão espiritual e um pouco de esforço para investir em fazer coisas que te façam sentir melhor. No entanto, pessoas de luto argumentam que a erva, especificamente, deveria ser acrescentada à lista.


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Dan Wolfson, um psicólogo de Nova Iorque que trabalha com crianças e adultos que perderam alguém, descreve o luto imediatamente depois da morte como “algo muito cru. Abala as tuas estruturas e é uma experiência muito tensa e profunda”. Ele aponta que “o luto severo tem, geralmente, um limite de tempo... não ficamos nesse estado para sempre”, mas também reconhece que “o luto é algo que nunca desaparece por completo. O nosso luto é parte de quem somos e não há uma linha de tempo para o processo”.

Essa dor torna-se evidente quando Jessi Cox, uma mulher de 36 anos de Portland, Oregon, EUA, descreve a morte da mãe, que sucumbiu a um cancro cerebral há três anos. “A minha família inteira ficou abalada com a morte da minha mãe. Foi horrível”, diz. Ela conta-me os desafios de equilibrar o seu luto com as responsabilidades como mãe de quatro filhos e o trabalho a tempo inteiro numa startup de tecnologia: “Desatava a chorar entre chamadas... Mas, não ia perder o meu emprego para além de perder a minha mãe. Ainda tinha que atingir metas e lembro-me de sentir que era tudo horrível. Só queria chorar pela minha mãe”.

Habitualmente, antidepressivos tradicionais não são recomendados para o luto. Wolfson explica que o luto e a depressão podem ocorrer ao mesmo tempo, mas são questões distintas. “Podemos esperar algumas sensações que se podem parecer com a depressão, a pessoa pode experimentar tristeza, um afastamento”, diz. E acrescenta: “Todavia, ela ainda está num processo de adaptação à perda. Por isso, eu não prescreveria antidepressivos durante esse período, nem medicamentos ansiolíticos”.

Alguns sugerem que a canábis pode servir como medicação para ajudar pacientes a aliviar e processar o luto. Na verdade, o especialista em medicina paliativa de Seattle, Sunil Kumar Aggarwal, realça que “o falecido Tod Mikuriya, um dos pioneiros da canábis medicinal do século XX, que tinha uma experiência extensiva com canábis, propunha uma categoria especial para a droga – um facilitador. Ele escreveu que o uso de canábis pode relaxar padrões cognitivos obsessivos e comandados pelo humor e colocá-los numa perspectiva emocional”.

Essa é uma das razões para Cox ter escolhido usar canábis para aliviar o seu luto. Ela ilustra as maneiras como a erva a ajudou a adaptar-se à sua vida sem a mãe. “O que mais gosto na canábis é que me mantém positiva, focada na parte boa e não na má”, conta. E justifica: “É um equilíbrio, em vez de te fazer 'não sentir'. Acho que a erva te ajuda a identificar o que são esses sentimentos e pensar neles de uma maneira diferente”.

Ela prefere canábis a álcool. “Fumar erva ajudou-me a lidar com as emoções de uma forma construtiva. Quando bebo sou mais destrutiva, penso em como fui roubada da presença da minha mãe, como foi toda a indústria do tabaco que levou a minha mãe e começo a ficar com raiva”, diz Cox. “Mas, quando fumo erva, penso 'bem, a minha mãe tinha livre arbítrio. Ela era uma mulher com estudos e provavelmente demasiado boa para este Mundo'. Tenho pensamentos mais construtivos, mais equilibrados para o lado bom”.

Wolfson acrescenta que a auto-regulação é imperativa quando se usa qualquer substância, especialmente em tempos de luto. “Não te queres sentir entorpecido. Queremos que abras espaço para a experiência emocional e repares realmente como é que o teu luto se está a desenvolver”.

E, mesmo deixando claro que não aprova a dependência de qualquer substância como uma estratégia para se adaptar à perda, o especialista também reconhece que há coisas que podem ajudar a facilitar o processo. Wolfson encoraja os enlutados a “construirem um espaço para experiências positivas... come uma sobremesa, sai para dar um passeio pelo jardim, brinca com um animal de estimação, visita a tua família”. Ele acrescenta que cuidar de si é importante para a pessoa dar a si própria própria uma pausa da perda pela qual está a passar. “Acho que algumas pessoas cuidam de si mesmas a fumar erva. É algo que essas pessoas fazem por prazer”, sublinha.

Também vale a pena mencionar que a canábis – como o álcool – tem um potencial de vício, mesmo que o risco seja comparativamente muito menor do que com o álcool. Mas, é uma questão a ter em conta, porque o luto pode aumentar o risco de vício em qualquer substância. Os adultos que escolhem usar a canábis durante o luto devem ter cautela. Andar mocado deve melhorar-te a vida, não ser uma fuga da mesma.

Se queres fumar erva durante o luto, fuma com responsabilidade. Especialmente os novos utilizadores de canábis devem saber que ansiedade e ataques de pânicos induzidos por THC são riscos reais do consumo exagerado. Se possível, fala com um profissional de saúde imparcial sobre todo o processo de luto.


Vê: "Mães e Canábis: o grande mercado inexplorado"


Cox diz que depois de implementar a erva no seu ritual de luto, o seu sono e humor melhoraram. Amigos da indústria de canábis também lhe ofereceram apoio e, esse apoio, ajudou-a a aliviar a sua dor. Isto não é surpreendente, já que estudos mostram que o apoio social pode melhorar os resultados do processo de luto. “Não é só uma questão da canábis física. É algo que também vem das pessoas da indústria da canábis”, considera. Além de grande apoio emocional e mental, a comunidade presenteou-a com doações da sua cepa favorita, Tangie. “Às vezes brinco que as melhores flores que recebi quando a minha mãe morreu foram flores de canábis”, afirma.

Wolfson diz que, durante o luto, é importante “experimentar emoções positivas, começar a planear o futuro e ter aspirações com as quais trabalhar para seguir em frente”. No caso de Cox, em vez de se afundar no desespero, ela e o marido optaram por embarcar numa nova oportunidade, começando uma empresa de recrutamento para negócios voltados para a canábis, que agora opera em vários estados norte-americanos.

Além dos muitos benefícios físicos, a canábis também pode aumentar a conexão espiritual dos consumidores. “Um texto antigo religioso do subcontinente indiano – o Atharva Veda – expressa a crença tradicional de que a canábis foi dada à humanidade como um alívio para o sofrimento”, explica Aggarwal. E salienta: “Portanto, essas propriedades podem mesmo ajudar os enlutados, para além do apoio psicológico profissional, da família e da comunidade que devem procurar, assim como participar em rituais de luto”.

Usar canábis para obter uma maior conexão espiritual é exactamente o que Jo (que preferiu não usar o seu apelido por questões profissionais), de Nova Jérsia, fez quando o marido faleceu. Ela tinha 41 anos. “A primeira vez que fumei depois da morte dele foi um dia depois do enterro. Eestava com a minha filha adulta e a minha sogra”, recorda. E acrescenta: “A ideia era que aquele fosse um dia para celebrar. Apesar de ter sentido uma grande ansiedade no começo, depois de um tempo a calma assentou, assim como uma sensibilidade maior sobre o que estava a acontecer, com um foco em estar em paz e celebrar a vida”.


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