Opinião

Bruno de Carvalho: o início do fim dos seus “15 minutos de fama”?

É absurdo as horas que as televisões dedicam à recente crise no Sporting. O actor Albano Jerónimo é crítico, as audiências do “pão e circo” agradecem.
9.4.18
O “presidente-adepto” adora aparecer. Por estar a mexer com o mais sagrado de um clube (os atletas da equipa principal de futebol), há associados que desejam fazê-lo “desaparecer”.

Dispensa apresentações. Bruno de Carvalho (BdC) é o enfant terrible do nosso dirigismo desportivo e tem merecido críticas de todo o lado. Algumas são de teor humorístico, caso de um sketch com Eduardo Madeira no 5 Para a Meia-Noite/RTP (ver vídeo abaixo), mas a maior parte são corrosivas e oriundas da imprensa escrita e falada.

Com os acontecimentos que se desenvolveram após o jogo com o Atlético de Madrid (na quinta-feira, 5 de Abril), as segundas atingiram níveis nunca vistos na história de um presidente sportinguista.

Nos últimos dias, a longuíssima atenção dada à crise leonina pela comunicação social foi bastante exagerada - nomeadamente nos canais de informação na cabo. Ok, o homem “passou-se” ao comentar no Facebook as exibições de alguns atletas na partida na capital espanhola; e piorou quando em resposta à resposta dos jogadores, lhes chamou “meninos mimados” e, no mesmo comunicado, garantiu que estavam suspensos. No entanto, estar horas intermináveis na emissão diurna a dizer o mesmo (que BdC é um péssimo exemplo como líder), a pedir o mesmo (que abandone a instituição que preside) e a esperar o mesmo (que os sócios o destituam), é de loucos.

O cúmulo do ridículo: chegar ao ponto de um jornalista perguntar a opinião ao Presidente da República. Como?! Para quê?! Pois, questionar sobre os eternos empréstimos sem retorno do Estado aos bancos, ou como activar mecanismos imediatos para responsabilizar os autores das imparidades, é “pouco interessante” e o melhor é não chatear o “Sr. Popularidade”.

Bruno de Carvalho faz imensas birras - algumas com lógica, como o apelo à utilização do vídeo-árbitro e a legalização das claques - e barafusta com todos os que lhe apontam o dedo (nem a associação feminista Capazes e a socialite Pimpinha Jardim escapam). Mas, se a maior parte dos sócios o apoiaram de forma incondicional, concedendo carta-branca para se mover à vontade, e a Liga e a Federação não sabem controlar (e multar com “M grande”) as intervenções despropositadas dos dirigentes dos “três grandes”, o que fazer?

Quem não gosta, ignora-o, quem o quer criticar corre o risco de ser insultado gratuitamente na praça pública (o jornalista Rui Santosque o diga). Neste jogo de baixo nível, não é original. Continua no mesmo diapasão de Pinto da Costa, quando este tinha mais sangue na guelra, ou de Luís Filipe Vieira quando não ganhava (se bem que há cerca de um ano esticou a corda ao chamar “Vale Azevedo” a BdC em Alvalade). A diferença é que esses dois trocavam “gardalhetes” entre si, ou com personalidades exclusivas do futebol.

O tempo em que o Sporting deixou de ser o “corno manso” no futebol, mas o presidente” fez questão” de perder o plantel, dividir os adeptos e transformar Jorge Jesus num psicólogo/relações públicas improvisado

A forma unida como os jogadores leoninos festejaram os golos frente ao Paços, no jogo de domingo, 8 de Abril, revela o acentuar do mal-estar com o presidente. (Imagem pelo autor)

Por incrível que pareça, não é chocante que a maioria dos sócios sportinguistas possa ainda estar com o líder. Why? Além da construção do Pavilhão João Rocha, de ter posto a gestão financeira em ordem (dentro do que é possível), a permanência de BdC veio a solidificar-se pelo facto de rivalizar com os dois maiores adversários no capítulo das tricas e farpas. Para os que estão do seu lado, o estilo impulsivo de responder ferozmente às incidências do momento, é a prova de que o clube já não é o “corno manso” do passado. Apesar da conquista de títulos da Liga NOS ser um deserto (e contabilizar apenas um troféu em cada uma das outras três competições do futebol sénior), é o seu “hipertactivismo facebokiano” que alimenta determinada falange verde e branca que se revê nas suas acções e palavreado.

A indignação dele e de quem o acompanha é, sobretudo, por causa dos resultados no futebol português terem sido alegadamente adulterados em prejuízo, entre outros, do Sporting. A seu ver, isso aconteceu através da ajuda de supostos “padres” (a empurrar o Benfica durante o tetra), ou pela “fruta” escutada no Apito Dourado (para beneficiar o FC Porto). Agora, ao entrar em confronto com as verdadeiras estrelas leoninas (diz-se que sob a liderança dos capitães Rui Patrício e William de Carvalho), pisa terrenos perigosos e imprevisíveis.

Se tal, eventualmente, piorar, os associados podem mudar-lhe a vida… Vendo a reacção do público, no domingo, durante o encontro com o Paços de Ferreira (com muitas assobiadelas para Bruno), os ânimos andam exaltados e os adeptos estão mais do que nunca divididos. A ver o que os próximos dias reservam em termos do feedback de vários intervenientes ligados ao clube, a começar pelos accionistas que não devem estar satisfeitos com a possível desvalorização dos activos – entenda-se o valor dos futebolistas no mercado de transferências. É o que dá confundir autoridade, disciplina e liderança, com posts desnecessários de um fã descontente. Como se sabe, há assuntos que devem ser discutidos entre portas. O profissionalismo assim o pede.

No meio desta turbulência “bruniana”, Jorge Jesus é igualmente psicólogo e relações públicas ao tentar remediar e colar os cacos do caos. Levantar a moral das “tropas”, perceber/entender os próximos passos do seu superior e, quem sabe, evitar alguma “armadilha” que levasse à sua demissão por justa causa, não deve ser tarefa fácil. Devido a este alvoroço, nesta manhã de segunda-feira, dia 9, é noticiado que o presidente da mesa da Assembleia Geral do Sporting, Jaime Marta Soares, pede a demissão de BdC. Prevêem-se dias tórridos na vida do actual terceiro classificado do campeonato.

Entre as muitas marcas de água desde que é “presidente-adepto” - venceu duas eleições, a primeira em 2013 -, Bruno de Carvalho é alguém conhecido pelo discurso “bardamerda"; que pediu aos adeptos e simpatizantes dos "leões" para se fixarem na informação veiculada pelo clube e ignorassem os restantes media; que pediu aos comentadores afectos a Alvalade o abandono dos programas onde são residentes; que teve Jesus quase a bater com a porta; que esteve envolvido no caso do túnel (e do propalado “cuspo ou vapor de cigarro?”) com o congénere de Arouca; que exigiu que os sócios votassem em três alíneas dos estatutos ou demitir-se-ia; que tentou ser comediante num programa na Sporting TV, fazendo do jornalista um autêntico “puppet” (ver vídeo abaixo); e que arranjou, aparentemente, uma desculpa esfarrapada para dispensar o treinador Marco Silva.

BdC tem sido nocivo para ele, para a instituição que representa e para o ambiente que se respira no futebol português. Em sua defesa, os amantes do futebol de cor imparcial podem sublinhar que ao menos não tem “fantasmas judiciais” no currículo, como acontece com os presidentes do FC Porto e Benfica.

Porém, será que é preciso dar-lhe tanto palco mediático? Retirando os habituais fóruns desportivos - aí a linha editorial é compreensiva -, a opacidade de excesso de foco já tinha acontecido no último 5 de Fevereiro. Nesse dia, a SIC Notícias, por exemplo, transmitiu, a meio da tarde, uma conferência de imprensa quase de uma hora (!?; ou terá sido mais?), na segunda-feira que se seguiu à atribulada Assembleia Geral abandonada pelo próprio. O que se ouviu de relevante? Duas mãos cheias de futilidades. Não havia mesmo necessidade…

Como não havia a urgência do presidente dos “leões” em fazer o que fez no dia do jogo com o Paços. Antes, lançar um comunicado a informar o processo disciplinar aos jogadores (deixando cair a suspensão); depois, numa mini-conferência improvisada, destratar alguma da massa adepta. Até quando os “15 minutos de fama” e a sede insaciável de protagonismo de Bruno de Carvalho - que já contempla cinco anos à frente dos destinos do Sporting - vão durar?

Se souberes a resposta, por favor deixa uma mensagem no Facebook do verbo desestabilizar…

As audiências e os “menos” importantes Lula “galinheiro” e Albano “revoltado” Jerónimo

Albano Jerónimo foi à RTP para falar da cultura e do escasso apoio financeiro à mesma por parte do Estado, mas ficou pendurado. Preferiram dar prioridade à crise no Sporting. (Foto via Facebook oficial do actor)

Neste primeiro fim-de-semana de Abril, que teve o espectáculo das multidões em redor de Lula “vai não vai (e foi mesmo) para o galinheiro”, ou que merecia que se reflectisse mais sobre a trapalhada governamental no que concerne aos apoios financeiros concedidos à cultura, as audiências falaram mais alto. Já agora, um à parte. Como se deve sentir José Sócrates ao ver o antigo presidente do Brasil ter o apoio incondicional do Partido dos Trabalhadores, mas, no seu caso, as altas figuras do PS menosprezarem-no, mesmo estando longe de ser condenado?

Relativamente ao “sussuru” das artes, o actor Albano Jerónimo mostrou natural perturbação por ter ficado “apeado” na RTP, na passada sexta-feira, dia 6. Quando convidado para revelar o que pensa sobre o actual estado da criação artística, Albano é "trocado", à última hora, por uma matéria relacionada com a bola (adivinha lá qual foi…). Durante a compreensível mensagem de revolta deixada nas redes sociais - ao deslocar-se à estação pública ficou impedido de marcar presença na manifestação a favor de mais apoios -, chuta a certa altura que “O Futebol ganhou à Cultura”.

Há muito isso é elementar, meu caro Albano. Em 2007, houve um episódio em que Santana Lopes ficou atónito ao ser interrompido em directo, durante alguns minutos, porque José Mourinho tinha chegado ao aeroporto e a SIC Notícias quis obter umas declarações do técnico. Resultado? Quando a emissão regressou ao estúdio, o político mostrou o seu desagrado e abandonou a conversa com a pivô Ana Lourenço. “Acho que o país está doido”, disse o antigo autarca (ver vídeo abaixo).

O futebol tem uma importância tremenda por cá e nem sempre pela beleza do jogo em si. O Governo agradece, Zuckerberg pode contar com a eterna fidelidade de Bruno de Carvalho e este “pão e circo” continua, alegremente, a dar colorido à vida dos portugueses.


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