Uma breve história dos 'cartazes de mártir' palestinos
Todas as fotos por Alaa Daraghme.
Entretenimento

Uma breve história dos 'cartazes de mártir' palestinos

Desde os anos 1970, as ruas da Palestina são cobertas de cartazes em homenagem àqueles que morreram no conflito com Israel.
5.12.17

Matéria originalmente publicada na VICE Arábia.

Horas depois que Mohammed Atta Lafi morreu em julho de 2015, cartazes com o retrato dele foram pendurados nos arredores de sua casa no acampamento de refugiados Qalandiya, perto de Jerusalém. O rapaz de 19 anos era um combatente palestino de uma das Brigadas dos Mártires de al-Aqsa — a mídia local afirma que ele foi espancado e morto durante uma batida israelense no acampamento.

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Andando por qualquer rua ou beco das cidades palestinas, é fácil encontrá-los — cartazes celebrando palestinos (combatentes ou civis) que morreram como resultado do conflito ainda em andamento com Israel. Os chamados “cartazes de mártir” estão por todo lado, em vitrines de lojas, nas portas das casas, em monumentos e em prédios públicos.

O cartaz de Mohammed Atta Lafi.

A prática começou em algum momento dos anos 1970. Na época, os cartazes eram desenhados à mão e mostravam os falecidos e outros símbolos da luta — a bandeira palestina e slogans militares como “Revolução até a vitória” e “Os mártires do povo estão abrindo caminho para a libertação”.

No final dos anos 80, enquanto a Palestina lançava sua primeira grande insurgência contra a presença das forças israelenses na Cisjordânia e Gaza, os cartazes começaram a ser impressos em grande escala por negócios locais, e de repente começaram a aparecer em todo lugar na região. O governo israelense considera esses cartazes ferramentas de recrutamento e propaganda, então proibiu a produção e circulação deles. Mas mesmo que os designers possam acabar presos por criá-los, essa medida não teve grande impacto na produção.

“Depois da assinatura do Acordo de Paz de Oslo em 1993, os palestinos tiveram permissão para abrir negócios de impressão particulares sem supervisão de Israel”, diz Muhammad Abu Latifa, membro do corpo de governo do acampamento Qalandiya. “Sem terem que se preocupar com os israelenses rastreando a fonte, mais cartazes que nunca começaram a ser produzidos.”

Um cartaz no acampamento de refugiados Jalazone, norte de Ramala.

Segundo um designer que trabalhava com impressão desses cartazes — que concordou em falar comigo sob a condição de permanecer anônimo —, o processo de criação mudou consideravelmente nas últimas décadas. Gradualmente, a bandeira palestina foi substituída por imagens políticas mais específicas, como o ex-presidente da região Yasser Arafat ou trechos do Corão.

Os cartazes também começaram a contar com o logotipo ou as cores dos movimentos políticos aos quais os combatentes pertenciam. “Por exemplo, as imagens nos cartazes de membros do Hamas podem incluir os fundadores do grupo, Ahmed Yassin e Abdel Aziz al Rantisi, além do verde, que é a cor marca registrada deles”, ele disse.

Os cartazes são colados em frente a lojas e casas em muitas cidades palestinas.

Mas nem todo mundo na Palestina concorda com a mensagem que os cartazes mandam. “Durante os primeiros estágios da revolução palestina, as pessoas viam os cartazes como um jeito de imortalizar o indivíduo e suas ações”, explica o Dr. Walid Al Shurafa, professor de mídia e jornalismo da Universidade Berzeit na Cisjordânia.

“Mas hoje em dia, algumas comunidades usam a tradição para romantizar o conflito. Um exemplo disso é que boa parte dos cartazes mais recentes mostram armas.” O Dr. Al Shurafa também acredita que alguns movimentos políticos os usam para beneficiar a própria agenda. “Algumas facções que perderam influência nacional pagam por esses cartazes e os cobrem com suas próprias imagens, só para continuar relevantes.”

Os cartazes muitas vezes mostram imagens de armas, junto ao logo e cores da aliança política da pessoa.

No começo do segundo levante palestino em setembro de 2000, combatentes palestinos começaram o hábito de criar seus próprios cartazes — escolhendo o retrato, o texto e o esquema de cores antes de morrer. Mahdi Abu Ghazele, ex-líder das Brigadas dos Mártires de al-Aqsa, lembra o dia em que seu amigo Fadi mostrou a ele o design que tinha escolhido — uma foto dele ao lado de uma variedade de bombas caseiras. Depois da morte de Fadi em junho de 2006, aos 30 anos, Mahdi mandou imprimir os cartazes.

Ghazi Bin Ode, que trabalha para o MADA, o Centro de Desenvolvimento e Liberdade de Imprensa da Palestina, afirma que as forças israelenses ainda fecham serviços de impressão desses cartazes na Cisjordânia, confiscando equipamentos e material. Em 2016, o MADA informou que sete serviços de impressão na Palestina foram investigados e quatro foram fechados permanentemente.

Mas parece que a principal razão para esses cartazes desaparecerem das ruas palestinas um dia não será a ofensiva israelense, mas as redes sociais. Os jovens combatentes palestinos querem cada vez mais serem lembrados online, em vez de em paredes e vitrines de lojas. Então é difícil saber como será o futuro, mas acho que podemos dizer que esses cartazes online serão ainda mais difíceis de proibir ou eliminar.

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