​Made in Rocinha: O Carteiro Amigo e o Mapa que Deu Inveja ao Google
Crédito: Matias Maxx

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​Made in Rocinha: O Carteiro Amigo e o Mapa que Deu Inveja ao Google

A jornada para entender, criar um algoritmo e mapear as ruas da favela da Rocinha.
7.10.14

Estou com Pedro, numa trilha de terra um quilômetro acima da Estrada da Gávea em Vila Verde, na favela da Rocinha. Ao nosso lado corre um riacho sujo de esgoto e escadas precárias sobem aos três lados. Em cima do córrego, uma casa de tijolo de dois andares fica suspensa em pilares de concreto. "Cai não", Pedro fala. "A maioria dos moradores que fundou a Rocinha eram pedreiros nordestinos. Cada favela tem uma característica diferente, e a Rocinha é conhecida pela qualidade de suas construções. Mas me diga uma coisa: onde nós estamos? Qual e o nome desta rua? Será que é uma rua? Nosso mapa resolve todas estas questões."

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Carlos Pedro era um campeão amador de bodysurf nascido e criado dentro da favela da Rocinha. Em 2000, junto com seus amigos Eliane Ramos e Silas Viera, Pedro arrumou um emprego no Censo. Era frustrante porque, nesta comunidade, com mais de 60 mil habitantes, quase ninguém podia explicar onde eles moravam – ou seja, ninguém tinha um endereço. Isso é um problema típico nas milhares de favelas brasileiras porque o governo não é obrigado por lei a gerar um logradouro para residências construídas em terras sem titulo de posse, e os Correios não são obrigados a entregar cartas em residências que não têm um endereço legal.

Carlos Pedro, o homem por trás do Carteiro Amigo. Crédito: Matias Maxx

Sem um endereço, fica muito difícil receber cartas, e isso causa uma série de problemas. As soluções para estes problemas eram, por exemplo, guardar correspondências nas associações de moradores, ou em um comércio de rua, mas claro que isso não funciona muito bem. Pode não parecer tão importante, mais imagine receber o aviso que seu filho conseguiu vaga numa escola tarde demais para matriculá-lo. Imagine você tentando comprar qualquer coisa pela internet sem saber se ela realmente vai chegar, ou mesmo esperar seu novo cartão de crédito.

Os três se juntaram com a ideia de tentar resolver o problema e ganhar um dinheiro no processo. O primeiro passo era mapear a comunidade e gerar endereços virtuais que eles poderiam usar para montar uma empresa de entrega de correio.

Essa tarefa era mais complicada do que eles imaginavam. Se você digitasse Rocinha no Google Maps até alguns meses atrás, só surgia a Estrada da Gávea enquanto, na verdade, existem centenas de ruas, travessas, becos e escadas na comunidade. Um dos problemas de mapear as favelas por satélite é que muitos prédios fecham os becos e escadas por cima, criando túneis. Outro problema é que, às vezes, as lajes viram ruas.

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Eles abandonaram a idéia de um mapa visual, e partiram para um mapa lógico através da geração de sequências de algoritmos. Algoritmos são conjuntos de instruções para operações específicas. Um exemplo de um algoritmo simples é uma receita de lasanha.

Os dados, atualizados diariamente, para criar o mapa. Crédito: Matias Maxx

Só que o sistema de mapeamento baseado em algoritmos inventado por Pedro e seus parceiros é muito mais complicado do que uma receita de lasanha. Na ausência de uma imagem visual, eles criaram um pseudocódigo, uma linguagem informal de categorias para explicar cada estrutura fixa, natural ou fabricada, que se encontra em cada rua, escada e beco dentro da enorme comunidade da Rocinha. Por exemplo, um "condomínio" é definido como um beco sem saída com menos de 12 residências.

Como não existem nomes oficiais para a grande maioria das ruas na Rocinha, os moradores inventam. Uma rua normalmente tem pelo menos dois ou três nomes. As ruas não começam nem terminam de uma forma arbitrária – dependendo com quem você esta falando, ela pode começar de cima para baixo, de baixo para cima ou até mesmo no meio. Pedro e seus colegas foram obrigados a criar um início e fim virtual de cada uma delas. O resultado é um algoritmo para cada rua, escada e beco. Juntos, estas centenas de páginas de texto feitas à mão viraram um enorme mapa, cheio de linhas de código, impossível para qualquer pessoa entender sem conhecimento da sua lógica.

Uma sequência típica funciona assim: "Muro, pedra, galinheiro, comércio, casa, prédio, condomínio". Cada um destes conceitos tem a definição específica que facilita o trabalho deles. "A Rocinha está em um estado constante de construção", Pedro explica. "Pode ser que daqui a um mês um galinheiro suma e apareça uma casa em seu lugar. Por causa disso precisamos registrar tudo. Fica mais fácil de modificar depois."

A versão cartográfica – e secreta – do mapa do Carteiro Amigo. Crédito: Matias Maxx

Quando eles terminaram com o mapa, a equipe o patenteou. Depois de patentear, eles criarem um serviço de entrega de correios, chamado Carteiro Amigo. Virou sucesso. E então, eles criaram a primeira franquia na historia do Brasil nascida dentro de uma favela. Atualmente, o Carteiro Amigo atua em oito favelas no Rio.

Cada residência que contratou o serviço paga uma taxa – atualmente R$16 por mês na Rocinha –e as casas recebem um endereço em forma de um número baseado na ordem em que o serviço foi contratado. Todo dia os Correios passam no escritório do Carteiro Amigo e deixam todas as correspondências para a comunidade. Os funcionários separam aquelas que pertencem a seus milhares de fregueses. Mais tarde, uma Kombi dos Correios passa para pegar a sobra e estaciona no topo do morro deixando qualquer pessoa olhar dentro das caixas para ver se sua correspondência chegou.

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Voltamos para a trilha na comunidade de Vila Verde. Entramos num buraco no meio de dois prédios e subimos uma longa escada. "Que isso?", Pedro pergunta. "É uma rua? Onde que ela começa?". Ele mostra a página do mapa que se refere a esse trecho da escada. "Veja isso – é um prédio ou uma casa? E isso aqui, é outra rua ou é um condomínio? O mapa explica tudo. Olhe nas portas das casas. Este aqui é freguês do Carteiro Amigo." Ele aponta para um adesivo com a logomarca de Carteiro Amigo e o número 1166. "Você vai ver que os números não aparecem em ordem. Olha essa casa aqui: 8044. É porque eles recebem seus endereços em acordo com a data em que eles assinam o serviço. Ninguém pode localizar estas casas sem nosso mapa. E ninguém vai entender o mapa se a gente não explica como usar. Eu o expliquei em termos gerais, mais existem elementos do mapa que são secretos. E ele muda todo dia. Cada vez que um de nossos carteiros sai na entrega, ele o atualiza. Pode ser que onde tinha um muro semana passada há uma construção. Nós já digitalizamos o mapa e queremos montar um aplicativo para os nossos carteiros fazerem as atualizações através dos seus smartphones."

Crédito: Matias Maxx

"Tem problemas com o tráfico?", perguntei.

"Que nada. Será que traficantes não querem receber suas correspondências? Será que eles não querem comprar tênis pela internet? Todo mundo gosta. Depois do Carteiro Amigo, a venda pela internet explodiu na Rocinha. E como você pode ver, tem muito dinheiro nesta comunidade, muito comércio, a maioria das pessoas que mora aqui é de classe média. Esta é uma característica da Rocinha. Se você vai ao morro de Juramento, por exemplo, não vai ver comércio nenhum. É uma comunidade mais pobre, por causa disso cobramos menos lá. Se você olha para o mundo todo, ele está cheio de favelas. E todo mundo precisa de correios. Então, nós estamos ganhando dinheiro, que é bom, mais também fornecendo um serviço para melhorar a comunidade."

Voltamos para a sede do Carteiro Amigo para tomar café. Há um enorme mapa tradicional na parede que mostra todos os becos da comunidade. "Veja isso", Pedro fala. "Fizemos isso baseado em todo nosso mapeamento. O Google esteve aqui mês passado. Eles perguntaram se poderiam fotografar este mapa. Falei: 'De jeito nenhum'. Eles que se virem."