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Relato

Fui figurante no filme mais estranho de David Lynch

Analisamos um dos trabalhos menos vistos do realizador e o último que fez para cinema.

Por Rick Paulas
16 Maio 2017, 4:24pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Lembro-me bem. Passava pouco do meio-dia quando o meu chefe recebeu o telefonema. Pouco depois, entrou na sala de edição da Video Monitoring Services - uma empresa que gravava televisão e rádio 24 horas por dia para usar as imagens em "compilações educativas", dirigidas a curiosos que queriam saber o que as suas estrelas favoritas diziam na Oprah e outros programas de entrevistas - e perguntou se alguém estava livre naquela noite. Um amigo seu estava a trabalhar num filme e precisavam de um figurante. O trabalho rendia 60 dólares por algumas horas e eu disse que aceitava.

A cena passava-se num prédio abandonado, no então quase deserto centro de Los Angeles. No primeiro andar havia um bar, não sei se um bar verdadeiro, ou apenas construído para o cenário. Éramos uns 10 figurantes espalhados pelo espaço. Havia néons, uma pequena luz estroboscópica, uma máquina de fumo e uma equipa de três ou quatro pessoas. Como fundo da cena, fiquei sentado numa mesa a fingir que estava a conversar com uma rapariga, tal como instruído pelo assistente de realização. "Falem bastante baixinho", recomendou.

"Acção!", disse o realizador, David Lynch.

Com aquele característico cabelo branco e um cigarro nos lábios ou entre os dedos, Lynch passava pelo set com a sua câmera digital, a olhar para um polaco mais velho, claramente o foco da cena. O actor falava com uma mulher para quem a câmera nunca apontava, o que sugeria que ela era a substituta de alguém.



Entre as gravações de cenas, Lynch ditava algumas notas vagas para um gajo careca que andava sempre perto dele e que, depois, as traduzia para o actor. A minha parceira de cena e eu estávamos demasiado longe para ouvir o que eram exactamente aquelas notas, mas quando gritaram novamente "Acção!", os olhos do polaco arregalaram-se e ele começou a debitar uma espécie de feitiço feroz, os seus dedos parecidos com salsichas a traçarem o encantamento no ar, em direcção à a mulher sentada à sua frente.

"Corta", disse Lynch e dessa vez dispensou o serviço do tradutor. "Não queres fazer com que ela saia a correr do bar", explicou, com aquela pronúncia lenta do Oeste. "Se ela te vir agir assim, vai fugir. Um pouco menos". Uma coisa estranha de se ouvir vinda do realizador de Eraserhead.

Depois de uma dúzia de gravações - não lhes chamaria "tomadas", porque cada uma tinha uma montagem diferente - acabámos por aquela noite e fomos para casa. No total, ficámos naquele armazém a ver David Lynch trabalhar durante quase três horas.

Meio segundo da minha "actuação" naquela noite aparece a meio da última longa de Lynch, Inland Empire. Lançado em Setembro de 2006, foi o último projecto narrativo (além de alguns videoclips e um punhado de anúncios comerciais) que levou a cabo atrás das câmeras, até ao regresso de Twin Peaks para a Showtime. O filme é um caos perfeito e, criminosamente, pouco visto pelo público.

A história - não te preocupes, é impossível passar spoilers deste - pode ser resumida pela sinopse oblíqua que Lynch deu em entrevistas antes do lançamento: "Uma mulher com problemas". Essa mulher é interpretada por Laura Dern, que está em quase todas as cenas (a substituta na noite em que fui figurante era dela) e entrega uma actuação singular, que faz com que se perceba porque é que David Lynch fez campanha por ela para o Oscar de Melhor Actriz, andando pelo Hollywood Boulevard com uma vaca.

Dern move-se pelos estranhos contornos do filme entre um grupo excêntricos de actores - Jeremy Irons, Justin Theroux, Mary Steenburgen, William H. Macy, Harry Dean Stanton e Julia Ormond. Foda-se, até Terry Crews faz uma aparição. Um punhado de cenas passa-se na Polónia. Há alguma coisa a acontecer sobre "a peça de rádio mais longa da história". Ah, e uma sitcom onde pessoas vestidas com máscaras de coelho (Scott Coffey, Laura Elena Harring e Naomi Watts) dizem falas afectadas, ao som de risos enlatados distorcidos. É o tipo de filme que só vale a pena se passares um dia ou dois a ruminar sobre ele. O tipo de filme que adoras, mas não podes recomendar a ninguém.

Como sequência do seu universalmente aclamado Mulholland Drive, a obra tem uma não-existência virtual desde o seu lançamento. Inland Empire não está em nenhuma plataforma de streaming, fora quando alguma versão pirata aparece no YouTube, portanto, para alguns é mesmo como se não existisse. É um filme de mais de três horas, o que, compreensivelmente, desanima muita gente. É diferente das outros longas de Lynch, não é particularmente bonito, tendo em conta que foi gravado com definição de vídeo digital padrão. Mas, o formato é a razão para o filme ser uma experiência interessante e o porquê de merecer uma atenção que não tem recebido.

Não tive que servir de figurante de última hora naquela noite, porque alguém desistiu. Aquilo era parte do processo criativo. Em vez de escrever um guião, storyboard, atrair investidores, definir o elenco e assinar contratos, em Inland Empire, Lynch basicamente filmou um monte de coisas com o seu novo brinquedo - uma SONY PD-150, uma câmera amadora, que podes comprar hoje por 350 dólares - e foi juntando as ideias enquanto gravava.

"Nunca vou voltar a usar película", disse Lynch ao público no San Rafael Film Center, em 2007. "Película é um meio belo, muito belo, mas é um dinossauro. É pesado. É lento. Rasga-se. Tem marcas d'água. As cores não combinam na impressão". Sem as restrições desse árduo processo, Lynch fez o que fez: meditou e bebeu muito café e pensou em imagens e cenas que gostava. Depois ligou ao seu produtor, convocou as tropas (chamando figurantes quando precisava) e filmou o que lhe vinha à cabeça. Como disse numa entrevista de 2011 à Parallex View:

"No início tive uma ideia, que aconteceu ser como uma cena, então em vez de escrever e esperar a próxima para também a escrever e assim por diante até construir um guião, comecei a filmar essas cenas e, enquanto filmava, comprometi-me, mais ou menos, com um visual e uma sensação, mas continuei fiel à ideia e nem pensava numa longa naquela época".

Fez isto durante dois anos, até se sentar à frente daquela colecção de cenas, encontrar algo parecido com uma história, escrever e filmar peças para ligar as cenas e editar a versão final. Esse método, como era de se esperar, levou a momentos bastante estranhos no set.

Masuimi Max, a modelo/actriz que aparece brevemente no final do filme, recebeu um telefonema numa quarta-feira para filmar na sexta. "Disse 'Claro que aceito, é um filme de David Lynch, não quero sequer saber o que ele quer que eu faça'", disse-me Max ao telefone. Lynch perguntou-lhe se conhecia alguma rapariga perneta e se ela tinha um macaco. "Respondi-lhe 'raios, se não tiver, nada feito?'".

Mas, eles encontraram um macaco e Max revela que o bicho causou problemas consideráveis no set. "Quando [David] disse 'acção', eles tinham luzes estroboscópicas e um monte de gente a dançar muito rápido, o que assustou muito o macaco. O bicho passou-se e começou a dar-me murros na cara e a tentar arrancar-me a peruca. Eles disseram 'corta' e 'Tens que lhe dar umas gomas'. E eu disse 'Acho que ele está assustado'. E uma rapariga dispara 'Tragam o outro macaco!', e eu pensei 'Ah, não'. No entanto, o segundo macaco ficava calmo desde que lhe desse gomas".

O resultado final deste processo é algo que parece mais lynchiano, seja lá o que isso significa, que os outros projectos do realizador. Na verdade, talvez seja a única vez em que Lynch foi Lynch à séria. Lynch começou a carreira como pintor, uma qualidade que tentou incorporar nas suas primeiras curtas, primeiro com stop motion, depois com cenas laboriosamente compostas nas suas longas. As séries de TV e os filmes seguiram o processo padrão dos estúdios – ou seja, muita coisa reescrita e explicações do que estava a acontecer.

Esse processo abriu-se durante o trabalho anterior, Mullholand Drive, com uma natureza quase de improviso incorporada à versão final. A história foi filmada originalmente como um piloto de TV para a ABC, até que as duas partes acharam melhor deixar o projecto fora da televisão. Lynch chamou então a produtora francesa StudioCanal para investir sete milhões de dólares e preencher os vazios para completar o filme. Não é difícil encontrar uma ligação directa entre este estranho método de montagem e Inland Empire; parecia o próximo passo lógico. E atirando fora a narrativa em nome da expressão emocional - com ajuda da sua fiel câmera digital - Lynch tropeçou em algo realmente único. Tive sorte de ver isso de perto. Bem, ver o que pude, enquanto falava bastante baixinho.


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