Fomos lá e vimos: You Can't Win, Charlie Brown

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Música

Fomos lá e vimos: You Can't Win, Charlie Brown

Quando a bonança vem a meio da tempestade.

Normalmente diz-se que depois da tempestade vem a bonança. Ora ontem foi um dia excepcional, um dia em que a bonança veio no meio da tempestade. Dentro do Grande Auditório do CCB, os espectadores despojavam-se de casacos, cachecóis, guarda-chuvas e impermeáveis ainda sem saber que iriam assistir a uma solarenga tarde de música. Mas indo um pouco atrás. À primeira vez que liguei o computador em 2014, ainda com a mente nublada de euforias e ressacas, tropecei numa canção que antecipava o lançamento do segundo álbum dos You Can’t Win Charlie Brown, depois de Chromatic de 2011, estaria a chegar Diffraction/Refraction. O que senti ao ouvir "Be my world" foi sobretudo estremecimento e assombro, seguido por uma serena sensação de remanso, como se pudesse relaxar o resto do ano, pois estava ali no primeiro dia a melhor canção de 2014 (posso ou não estar a exagerar, o futuro o dirá). Voltando à noite de sábado, o concerto começou com "After December", segunda canção a ser revelada antes do álbum sair para as lojas. As vozes bonitas do costume entraram despidas como pedra basilar da banda dos seis cantores, crescendo depois como trepadeiras agarradas a um piano de cauda e libertando-se na polifonia que se esperava, na familiar ligação entre a folk, o rock e a electrónica a que vamos sendo habituados desde o EP de estreia de 2010. É certo que se sentiu na banda uma certa ânsia de dar estas novas canções à luz, que fez com que passassem todas muito depressa, sem as respirar fundo. "I wanna be your fog", "Heart", "Natural habit" e outras que nem soubemos o nome passaram por nós como peças maravilhosas que ainda estão por vir e que são enormes e belas canções mas que não nos envolveram ainda pois precisamos ouvi-las tantas mais vezes. Pelo contrário nas canções conhecidas de Chromatic e até na menos conhecida "Sort Of" do primeiro EP, notou-se um domínio confiante e orgulhoso que ainda falta para com os novos rebentos. Como momento alto da noite, acima de todas as suspeitas, "Be My World", antecedida por aplausos expectantes. Se todo o concerto foi uma tarde solarenga passada no parque com o nosso “xuxu”, iluminada magicamente pelas luzes de João Paulo Feliciano (o chefe orgulhoso da Pataca Discos), esta canção foi a pausa para um beijo longo e apaixonado, do qual saímos arrepiados e com o coração aos pulos. Para tudo o mais poderia referir que a simpatia destes Charlie Browns é muito natural e que se leu sempre nas entrelinhas aquele enorme privilégio de quem está a ser o que queria quando fosse grande. Poderia dizer que os seus avôs musicais Beach Boys, Beatles, Velvet Underground e Talking Heads ficariam muito orgulhosos dos seus netinhos, pois conseguem a cada minuto de cada canção surpreender a malta com algo inesperadamente necessário, nunca deixando de ser uma das bandas mais inovadoras do nosso panorama musical. Ao sair do concerto esquivei-me da chuva de que já me esquecera e fui para casa, porque a única solução era dormir até segunda-feira, dia em que Diffraction/Refraction estará disponível para quem o queira comprar. Fotografia por Vera Marmelo

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