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Milhões de Festa

Deixem a Raquel Louçã da Vodafone FM trabalhar em paz

Não é um posto de informações, é um estúdio de rádio no Milhões.

Por Manuel Santos
28 Julho 2013, 5:45pm


Fotografia por Ana Rodrigues

Por esta altura já devem ter reparado que a Vodafone FM está acompanhar o Milhões de Festa este ano. Talvez não andem com um rádio de pilhas com vocês, mas é difícil não notar no paralelepípedo transparente e cheio de luz junto ao palco Milhões. Não, não é uma barraca de cachorros — é a redacção da Vodafone FM. Lembrem-se: eles não estão lá para que vocês lhes peçam informações sobre a programação (“podem dizer-me o que é vai tocar a seguir?”, ou “como é que se chama esta banda?”) ou sobre o paradeiro dos vossos amigos (“viram o Fua?” ou “podem apresentar-me a Austra?”), por isso deixem a malta trabalhar. Também ninguém vos vai chatear ao emprego, certo? Ok, quanto muito usem aquilo como ponto de encontro, mesmo quando as luzes apagam é impossível não passar por lá umas mil vezes durante a noite.

Não há ninguém que trabalhe na rádio que nunca tenha feito um directo. E olhem que aquilo é difícil. Mas como quase toda as pessoas ignoram as dificuldades dos directos (o chavão “é a magia do directo” só se aplica à televisão), decidimos falar com uma das vozes da Vodafone FM, a Raquel Louçã, para que ela nos explicasse o quão atormentada é pelos imprevistos e pelo pessoal que está a curtir do lado de fora e que tenta interagir com a malta que está a trabalhar do lado de dentro — ninguém merece aturar as bebedeiras alheias, mas aturar bêbados enquanto se trabalha é castigo. À temática dos imprevistos ficava bem adicionar a minha experiência, por isso também passei pela vergonha de deixar a Raquel falar quase cinco minutos para um telemóvel que, na realidade, não estava a gravar (acontece a todos). Felizmente, a Raquel é uma profissional e conseguiu contar-me a mesma história duas vezes com o mesmo entusiasmo.

VICE: Pronto, vamos lá recomeçar.
Raquel Louçã:
Vai ser bué fixe, Manuel [risos]. Bué espontâneo, contar outra vez.

Vai correr bem, vais ver.
Achas que sim?

Não tenho dúvidas. E como estamos numa de imprevistos, fala-me de um episódio que te tenha marcado particularmente.
Foi na nossa primeira saída de estúdio normal, quando fomos fazer a cobertura do Vodafone Mexefest no Porto, em Março do ano passado. Na altura fomos para o Porto e o palco Garagem Vodafone FM era numa garagem em frente ao Coliseu. Montámos o nosso estúdio naquela parte da entrada, onde está o senhor que controla as entradas e as saídas dos carros e estivemos a transmitir em directo a partir daí.

Foi a vossa primeira grande experiência fora, certo?
Sim. Basicamente transmitíamos concertos, fazíamos entrevistas com bandas que por ali passavam (muitas delas disponibilizavam-se para fazer showcases lá) e tínhamos a particularidade de termos colunas e de a transmissão estar a ser passada na rua. Como os nossos estúdios são sempre transparentes, havia montes de gente que percebia que estavam a acontecer coisas e então paravam por ali, para assistir, e ficavam lá montes de tempo. Houve uma altura em que estávamos a transmitir um concerto qualquer, os Joaquins [Albergaria e Quadros] tinham saído e eu estava sozinha no estúdio para o caso de haver alguma falha na transmissão do concerto. Às tantas, no meio da malta que estava lá fora a acompanhar a emissão, há um casal de cotas que estava muito entusiasmado — faziam adeus, faziam fixes — e, de repente, batem à porta do estúdio e pedem-me para lhes tirar uma fotografia. E eu “ya, está-se bem”. Eles falavam pouco inglês, eu não falo francês, portanto…

Nesses casos, o melhor mesmo é também dizer adeus.
Ah sim, pois é. Eles estavam na onda pacífica, era só dizer adeus.

Mas também tens pessoal mais agitado, imagino.
Quando o pessoal é mais extrovertido e bate [nas paredes do estúdio] tem de ser mais: “Então man, qual é? Vai fazer isso na tua casa.” Nesses casos não cumprimento, nem vou lá fora. A não ser que seja para dizer “já chega!”. Tivemos destes casos no Porto. No Porto aconteceu tudo de bom.

Mas voltando ao casal de franceses da terceira idade…
Ah, depois os franceses entraram e comunicámos na base do improviso. Basicamente eram turistas, estavam no Porto a curtir, acharam imensa graça e tenho a certeza de que foram para França mostrar as fotografias a achar que tinham estado com a maior estrela de rádio em Portugal. Depois ficaram imenso tempo ali. Apontavam para mim, apontavam para a máquina fotográfica. Às tantas, já estava com um bocado de medo. Foi assim uma cena um bocado bizarra.

Fora esse episódio, recordas-te de algum momento que tenha influenciado os directos?
Há imensas coisas que têm influência. Por exemplo, uma situação que acontece repetidamente: estás para transmitir um concerto e tens autorização da banda para transmitir àquela hora e… Imagina, isso aconteceu ontem [anteontem] aqui com os Papir. Era para começar às oito e aquilo atrasou um bocadinho. Daqui do nosso estúdio tu consegues ver as escadinhas de acesso ao palco principal, por isso sabíamos que iriam entrar a qualquer momento. Já tínhamos dito tudo sobre a banda, já tínhamos feito a antevisão do dia não sei quantas vezes, já tínhamos dito quais eram os concertos que íamos transmitir e não podíamos estar a repetir mais, estávamos só ali naquela expectativa.

Qual é o último recurso?
O último recurso é fazermo-nos valer do facto de termos um estúdio completamente aberto para o recinto, com paredes de vidro e começar a descrever aquilo que se vê: como é que o pessoal está vestido, qual é a onda do que está a acontecer, falar do porco que está ali no espeto e que, se calhar, vai ser o meu jantar a seguir. Sei lá, não ter medo de sair do universo da música e mostrar um bocado do ambiente que está aqui e mostrar que somos humanos, não é? Toda a gente pergunta: “Então, como é? Há pessoal giro e tal?” — sabes como é, quando vais a algum sítio fazem-te essas perguntas, não fazem?

Sim, mais ou menos.
[Risos] Mais ou menos. “Qual era o ambiente”, é?

É mais isso.
Pronto. A partir daí podes falar das pessoas, podes falar da paisagem, da comida, do merchandising, esse tipo de coisas todas. Tem de ser. Ah, e depois ainda há a parte em que estás com som de palco e vêm os falsos alarmes. Tu não estás a ver o palco, dizem-te que vai começar e não vai. No Warm-Up do Vodafone Paredes de Coura, este ano, em Abril, aconteceu isso duas ou três vezes com uma banda de que não me lembro agora qual era.

Já que falaste de ambiente, diz-me o que estás a achar do Milhões. É a primeira vez da Vodafone, também é a tua?
Não. Já conhecia o festival e já não é grande surpresa para mim. É um festival com muito boa música e com coisas muito variadas da electrónica ao doom e ao stoner. Acho incrível. Os gajos da programação são altamente audazes. E acho que a Vodafone FM este ano está a fazer história, porque no fundo somos o primeiro projecto de comunicação rádio a marcar presença aqui. É histórico. Quando se falar disto daqui para frente, quando outra rádio pensar nisto (imagina…), já não vão ser os primeiros: fomos nós. De resto, é um festival incrível, a cidade é linda, andas à vontade, não há confusão, consegues ver os concertos todos na boa, portanto está-se muito bem. Apesar de não ser a primeira vez que cá venho, só desta vez é que descobri o que é uma tainada. O próprio conceito é maravilhoso. Porque assim é que é, com o pessoal todo de cerveja na mão, e esses concertos [os do palco Taina] são gratuitos ainda por cima. Podes estar aqui na cidade e a curtir na boa. É altamente.

Já houve alguma banda que te tenha tirado do sério?
Adorei a noite de ontem [anteontem] em geral. Papir foi uma boa surpresa. Foi um pontapé de saída que fez golo directo.

Voltado um bocado atrás na conversa: já tiveste alguma daquelas cenas típicas que acontecem nos directos quando tens chamadas do público?
Pá, estou à espera disso. Estou à espera do primeiro gajo que me mande não sei para onde. Estou mesmo à espera do dia em que isso vai acontecer.

Nem uma proposta indecente?
Já houve coisas assim do género: “Ainda bem que é contigo que estou a falar, Raquel, e não é com o homem dos bilhetes”, “a tua voz é muito mais sexy”. E eu respondo: “Não sabes, não é? Não conheces o homem dos bilhetes.” Até aqui tem sido tudo com muito requinte, com muita classe. Nada de brejeirices. Mas vou adorar o dia em que isso acontecer! Ainda bem que fizeste essa pergunta.

Estás mesmo a habilitar-te.
Ai não, não! Vou retirar. Não digas isso. Todo o locutor que se preze tem de ter um episódio destes na sua história profissional. Portanto, pode acontecer agora, por que não?

Vou ser simpático. Olha, e tens alguma espécie de preparativos para as tuas emissões?
Tenho um guia mental e algumas notas, mas quando estás a fazer a cobertura de um festival tens de ir, acima de tudo, tranquilo. De repente a organização traz-te uma banda que se calhar não está muito dentro da tua rádio e tens de fazer a entrevista. É natural que não tenhas a coisa tão bem preparada, mas tens de estar pronto para isso, ser altamente descontraído. Em vez de te aventurares por questões técnicas (nas quais podes passar por otário), ir para a pergunta geral e procurar que a pessoa se sinta bem e que a própria banda comece a falar contigo e chegue onde tu queres chegar.

Tem tudo para correr mal, mas vai correr tudo bem.
É mesmo isso. E acho que é uma bela maneira de acabar, tem tudo para correr mal, mas vai correr tudo bem. É mesmo isso [risos]!