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Os super momentos do Super Bock Super Rock

Calor abrasador, belíssimos concertos e um recinto surpreendentemente apropriado para o festival urbano que há 21 anos atrás deu o pontapé de saída nesta coisa dos festivais modernos.

Por Pedro Miguel; fotos por Bruno Lisita
19 Julho 2016, 4:00pm

Um festival que usa duas vezes a palavra "super" no nome, tem de ser mesmo super... e foi. A começar pela super sombra que existia em frente ao palco EDP, tudo graças à Pala do Siza, um ex-libris arquitectónico de Siza Vieira, para a malta se abrigar do super calor. Como numa espécie de experiência em rede, também a VICE Portugal decidiu - por diversos motivos - andar a água nestes três dias, apesar do sponsor ser uma conhecida marca de cerveja.

O Super Bock Super Bock começou a tórrida maratona com o projecto Surma, nome celestial de Débora Umbelino, jovem talento leiriense que deixou indicações para voos mais altos. Na onda do flash mob, as marcas gritavam por atenção, enquanto Benjamim contava no Palco da Antena 3 - não se chamasse o disco "Auto Rádio" (perceberam?) - a estória do Quinito que foi para a Guiné, uma latitude também quente em diversas frentes.

Aos pés do MEO Arena, assim se chama o antigo Pavilhão Atlântico, o palco da rádio pública convidava a sentar nas escadas da sala mãe, embora a briga fosse difícil, já que o sol teimava em queimar.

Surma.

Lá dentro, no salão nobre, os Temper Trap provaram que são muito mais do que o tema Sweet Disposition, dado o entusiasmo que o público mostrava no início de muitas músicas. Embora tenha ficado a sensação que ainda era cedo e se fosse mais tarde uma moldura humana maior teria contribuído para um espectáculo mais marcante, estes australianos cumpriram. (Sentado cá fora a escrever estas linhas para não me esquecer mais tarde, ao longe estão a tocar os peixe : avião e, pela audição, estão a ser excelentes como sempre).

À pala do Siza, o Kurt Vile entrou em palco ainda com o anúncio da Ucal de fundo. Isto de haver publicidade em todo o lado possível dá nestes apontamentos. Assim que abriu a goela, fez um agudo a lembrar o Neil Young, e imediatamente à frente deste escriba estava um tipo com uma t-shirt do Old Man, Young. Coincidência? Sei lá. Depois desfilou as canções ao seu ritmo, que parecem mais americanizadas ao vivo do que em estúdio, mas who cares? Soou bem à brava.

De volta à arena, os The National provaram que se estão em território nacional é porque são bons e não desiludiram. Com uns temas mais clássicos do que outros, o recinto agora muito bem composto, reagiu como quem mata saudades de um velho amigo. Com um final à cappella e tudo, tiveram ainda mais encanto na hora da despedida.

The National.

De novo à sombra, embora não fosse preciso, pois era de noite, Jamie XX "giradiscou" aquilo que habitualmente "giradisca" naquelas discotecas onde normalmente não nos deixam entrar, acabando o set a driblar sons tropicais do Brasil. Mas, no fim do tempo regulamentar, o grande vencedor da noite acabou por ser o Éder (o tal que os fodeu), assim ditou e cantou o público em uníssono.

No dia seguinte, já com os atentados de Nice a ensombrar mais um capítulo desta porcaria toda, os tugas Pás de Problème (ele há ironias duma filha da mãe...) deram um pontapé simbólico nos colhões dos aspirantes a terroristas e fizeram a festa como que a dizer que não nos vergam assim tão facilmente.

Pás de Problème.

À noite, é preciso dizer que o facto de uma pessoa se poder sentar sabe sempre bem e isso também foi um chamariz para ver tudo de Bloc Party, apesar de já não haver aquela chama. No entanto, Banquet sobreviveu ao tempo e parece que temos clássico.

Mas a malta não estava lá para enganar ninguém e foi Iggy Pop que chegou para partir aquilo tudo. Com uma entrada de rompante, onde desfilou clássico atrás de clássico. Temas que habitualmente ficam reservados para o fim, mas que ali foi logo a abrir. A grande iguana benzeu-nos a todos. Mas foi mesmo. Com gestos para a multidão, lançou o braço em direcção às pessoas, o que parecia um momento litúrgico, qual missa na Praça de São Pedro, no Vaticano, só que em tronco nu, o que é muito mais fixe. Uma benção de coolness, portanto.

Iggy Pop.

Os Massive Attack têm sido muito interventivos politicamente. O início do sucesso coincidiu com a Guerra do Golfo (1991), precisamente no ano de lançamento do seminal Blue Lines. Assim, para evitarem serem banidos da generalidade das rádios, adoptaram temporariamente o nome Massive. A banda de Bristol - e pioneira do género trip-hop - tem vindo a criar uma reputação nesta coisa da intervenção política e este espectáculo não foi excepção.

Dos atentados de Nice, ao Brexit, ao campeonato europeu de futebol, ou até a Carolina Patricínio, nada escapou à mira dos snipers Massive Attack, que, já agora, musicalmente, deram um concerto formidável.

Massive Attack.

O último dia foi o primeiro para o resto da vida de muita gente. Havia uma sensação de se fazer história, já que o hip-hop foi rei e senhor. De facto, o dia em que Kendrick Lamar, nos píncaros do sucesso, foi o cabeça de cartaz indiscutível, muitos outros rappers desfilaram, tal como o emergente Mike El Nite.

Mas antes disso, ainda o rock deu cartas, com os espanhóis The Parrots a deixarem vontade de os ver numa outra vinda a solo, pois deram boas indicações entre mosh e confraternização com o público. Também o já citado Mike El Nite se entregou ao público com os seus convidados e citou o bom momento desportivo da Nação com a denominação #doismileéder. Tal como o jogador, nasceu uma estrela? Se calhar, e a avaliar pela receptividade do público, sim.

Mike El Nite.

Os Salto tocaram no palco Antena 3 e garantimos que estavam uns pokemons a saltar para quem os quisesse apanhar por aquelas bandas. Já os Salto, a banda, meteu a malta a saltar, o que pode fazer parecer que não há mais nada a dizer, mas, efectivamente, foi o que aconteceu.

O momento Kendrick Lamar aproximava-se, mas antes ainda os lendários De la Soul subiram ao Palco Super Bock, na MEO Arena, para desfilarem uma dose de coolness old school. Como que a avaliar a faixa etária da audiência, perguntaram logo no início se curtiam o lendário disco 3 Feet High and Rising e a festa começou.

De la Soul.

Subitamente, houve a necessidade de revisitar uma outra história e, no palco EDP, os GNR atiravam-se ao seu clássico com 30 anos, Psicopátria. Como que a constatar o ambiente, Rui Reininho cantava "ninguém comparece ao meu rendez-vous" e era um pouco verdade. Perante a festa frenética do pavilhão, ali parecia que se estava numa soirée só para algumas pessoas e num ambiente seleccionado.

Do cheiro perfumado a erva na arena, para o cheiro a perfume dos espectadores dos GNR, parecia que os habitantes locais ali da zona se deslocaram para ir ver o conjunto musical que tinham ouvido algures na sua juventude. A fauna era outra e flora nem vê-la. Nada disso abalou as canções que se tornaram clássicos, a começar pelo já citado Bellevue, se calhar, e assim a arriscar, talvez uma das músicas mais perfeitas de todos os tempos da banda do Porto. Pronto, está dito.

O festão de Kendrick Lamar.

Finalmente, Kendrick Lamar mostrou ao que vinha. Com a casa à pinha, milhares de pessoas renderam-se à celebração da estrela do momento. Com um público conhecedor da obra, aquilo foi digno de se ver.

Tudo na mesma onda, em sintonia, tema atrás de tema... uma honra ao momento de se estar vivo. Há aqueles concertos clássicos que uma pessoa nunca mais se esquece passados 20 anos. Para muita gente, esta noite, será esse dia.

Mac de Marco