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Vivi um mês como um rei na Venezuela com apenas 100 euros

Diego Urdaneta

Diego Urdaneta

A lista de tarefas e desejos incluía dormir num hotel de luxo, comprar cenas, conduzir um descapotável e encher o depósito dos carros de todos os meus vizinhos.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Colômbia.


A crise financeira global e um mercado negro saudável transformaram a Venezuela numa economia muito especial. De acordo com o Governo, um euro vale 8,3 bolívares (BsF). Mas se venderes esse mesmo euro no mercado negro, terás direito a 812 BsF.

Isto acontece por causa dos sucessivos e tortuosos controlos das taxas de câmbio do Governo, que agora não vou explicar, porque: a) eu próprio não os entendo muito bem; b) há uma série de artigos sobre este tema, escritos por pessoas que sabem realmente do que estão a falar.

O que eu quero fazer é ajudar a indústria do turismo do meu País, demonstrando que, na Venezuela, por causa do que expliquei antes, podes viver como um rei durante um mês, com apenas 100 euros no banco. Se és um local, que ganha dinheiro local, a vida pode ser dura. As coisas básicas, como o papel higiénico, não abundam por aqui e podes ter de estar numa fila longa para conseguires arranjar uns quantos rolos. Mas, se és um estrangeiro, que traz moeda estrangeira, a coisa muda de figura.

Presidente da Venezuela, Nicolas Maduro (Fotografia: o Kremlin via)

Antes de embarcar na minha viagem ao mundo do luxo fiz uma lista de todas as coisas que queria fazer, para além de viver a minha vida normal, na Venezuela. Aqui está a lista:

- Alugar um quarto numa zona central e cara de Maracaibo (que é onde eu moro) durante um mês.

- Passar uma noite num quarto de hotel de cinco estrelas.

- Comprar um bilhete de avião para Caracas, a capital da Venezuela.

- Alugar um descapotável e andar com ele durante um dia.

- Comprar montes de cerveja.

- Comprar drogas.

- Jantar em cinco dos melhores restaurantes da cidade.

- Usufruir de massagens e acupuntura no salão de massagens mais luxuoso que encontrasse.

- Dar a todas as pessoas do meu prédio dinheiro suficiente para encherem o depósito do carro.

Depois de ter a minha lista pronta, vendi os meus 100 euros no "mercado negro". Talvez estejas a imaginar que fui ter com um tipo desonesto, com bigode, mal vestido e sujo, que me passa uma mala falsa da Givenchy cheia de notas. Mas, na Venezuela vender dinheiro é tão simples como escreveres no mural do teu Facebook: "Vendo 100 euros". A única coisa que tens de fazer é esperar. Eventualmente alguém comentará a tua mensagem e, depois, essa será a pessoa que comprará o teu dinheiro.

Isto é o equivalente a 100 € em bolívares.

O único problema é que recebes tanto dinheiro em notas, que pode ser bastante perigoso fazer a troca em guita da vida real. Por isso, quase toda a gente prefere uma transferência bancária. Transferi os 100 euros para a conta do meu comprador e fui ao banco buscar o meu dinheiro.

A primeira coisa que fiz foi alugar este quarto aqui em cima, por 9.600 BsF (ou 12 euros) por mês. O tipo que o alugou era, obviamente, uma alma caridosa, porque hoje em dia é praticamente impossível alugar um quarto na Venezuela. Ao longo das duas últimas décadas, com as políticas implementadas (tais como congelar as rendas, ou emitir ordens de expropriação através das quais o Governo fica com a propriedade privada para benefício público), os senhorios preferem ter um apartamento vazio em vez de perderem o controlo sobre ele. Já tenho alojamento em Maracaibo e, embora não vá lá passar muito tempo, é bom pensar que poderia fazê-lo, se quisesse.

O próximo passo tinha de ser mais emocionante do que pagar a renda de um mês, por isso decidi viver a minha experiência de hotel de cinco estrelas. Escolhi um dos hotéis mais luxuosos de Maracaibo – que por acaso é subsidiado pelo Governo da Venezuela – e pedi um quarto, com pequeno almoço e acesso à piscina durante todo o dia. Uma noite custou-me 7.000 BsF (ou 8,70 euros). Fui para a cama a sentir que tinha cometido um crime. Mas não tinha.

Poucos dias depois, comprei um bilhete de avião para Caracas, a capital do País, e, até há pouco tempo, a capital mundial de assassinatos. O voo demorou 50 minutos e custou-me cerca de 8 euros. Aí percebi que tinha estoirado cerca de um terço do meu orçamento e ainda tinha muitas coisas para fazer.

Tipo: realizar o meu sonho de conduzir um descapotável - um Cadillac '59 vermelho, para ser mais exacto. O aluguer do carro, durante 12 horas, tirou-me mais 3 euros do bolso, mas valeu a pena. Conduzir esta beleza pela cidade fez-me sentir como um rei.

Durante esse dia, mais de 30 pessoas quiseram tirar uma fotografia comigo. Se, como eu, também medes o sucesso pela quantidade de estranhos que querem tirar uma fotografia contigo e com o teu carro de 3 euros, então tens de concordar que a coisa não estava a correr nada mal.

O combustível é o tema do momento na Venezuela. Um litro de gasolina 95 custa 0,097 bolívares, enquanto o gasóleo - o combustível mais utilizado para o transporte público – tem um preço de 0,048 bolívares por litro. Uses um ou outro, não pagas mais que 0,30 cêntimos.

No entanto, na fronteira com a Colômbia, o preço por litro de combustível sobe para 83 BsF. Isto acontece por causa do contrabando, mas essa é outra história, que agora não vou contar. Com três bolívares enchi o depósito do Cadillac. São cerca 0,40 cêntimos para encher o depósito de um carro com quase 60 anos.

Para comemorar, fui até uma garrafeira para comprar sete caixas de 34 cervejas - uma para cada dia da semana. Cada caixa custou-me apenas 10 BsF (cerca de 1,50 euros), ou seja, gastei um total de 10 euros, em 238 cervejas.

Queres sentir-te ainda pior por viveres num país de Primeiro Mundo? Na Venezuela podes comprar três gramas de coca da boa por cerca de 5 euros e 20 gramas de erva por cerca de 7 euros. Estás preocupado com a possibilidade de levares a banhada? Não te preocupes, que a mossa não é grande.

Esta erva toda abriu-me o apetite, por isso, assim que voltei a Maracaibo, passei ao meu próximo passatempo preferido: comer. Escolhi cinco dos meus restaurantes favoritos e, no espaço de cinco dias, a minha dieta incluiu: Pasta, uma salada César, pizza, peixe, hambúrgueres e risotto.

O preço médio de cada refeição, incluindo a bebida, foi de 1,80 euro. Os cinco jantares custaram-me uns exorbitantes 9 euros.

Já tinha gasto a maior parte do dinheiro e comecei a sentir-me um pouco triste por ter de voltar à minha vida normal na Venezuela, com um salário local, por isso decidi afugentar o mau humor com uma sessão de acupunctura.

Liguei para um amigo que trabalha num salão de massagens e, algumas horas depois, estava deitado de barriga para baixo, enquanto me esfregavam as costas com as mãos cheias de cristais de ervas, para "purificar e melhorar a experiência".

O preço desta massagem com acupunctura foi de 2,5 euros. Fiz contas à vida e percebi que ainda me sobrava algum dinheiro, por isso voltei a este sítio nos dois dias seguintes. Mais 7,5 euros.

Depois de tanta abundância, quis retribuir. No prédio onde vivo normalmente (não estou a falar do meu alojamento de luxo), habitam mais 45 pessoas com as quais praticamente não interajo. Queria fazer as pazes. Entrei em contacto com o administrador do prédio e perguntei-lhe se não se importava que enchesse o depósito dos carros de todos os vizinhos. Ele aceitou, obviamente. O custo total, por encher os depósitos de 32 carros, foi de 120 bolívares, ou seja, menos de 3 euros.

E pronto, tinha gasto o dinheiro todo. Viver na Venezuela pode ser duríssimo para mim, com o meu salário local, mas não tem porque ser assim para toda a gente. Para ti a Venezuela pode ser um destino de férias de sonho.

Finalmente, depois de ter passado mil e 400 palavras a tentar explicar-te o que se pode fazer com uma nota de 100 euros na Venezuela, deixa-me explicar-te o que se pode comprar com 100 bolívares – a nota mais alta que o meu país emite.

ISTO:

Para aqueles que não estão familiarizados com esta bisnaga cor-de-laranja, é o equivalente venezuelano da Nutella.

Vemo-nos nas férias!