Usuária de metadona toma a droga (foto via). Certas práticas vitorianas em curso no Reino Unido deveriam ter morrido lá no século 19. OK, por aqui já abandonamos os espartilhos de barbatana de baleia e não mandamos mais os meninos para as minas de carvão, mas certas coisas nunca mudam: escolas de boas maneiras, cólera e, o que é mais preocupante, dopar bebês com opiáceos.Em março deste ano, uma bebê de dois anos morreu por falência de órgãos depois de beber metadona, um substituto da heroína, de uma canequinha infantil em sua casa em Blackpool, Inglaterra. Apesar de não ter sido provado, sem qualquer dúvida, que foi a droga que matou a menina, os policiais continuam investigando essa possibilidade.Suspeitos de terem dado o opiáceo líquido à bebê para fazê-la dormir, os pais Barry, de 41 anos, e Michelle, 29, foram acusados de causar ou permitir a morte da criança. A história logo se tornou notícia nacional, o casal foi mantido em custódia para sua própria segurança e logo depois apareceu gente pedindo a proibição da metadona, um dos tratamentos de maior sucesso para o vício em heroína, amplamente disponível no Reino Unido.Na última década, 17 crianças menores de sete anos morreram por ingestão de metadona, além de nove episódios sérios de envenenamento registrados. Na maioria dos casos, foi provado ou existem grandes suspeitas de que os pais estavam usando metadona, no melhor estilo vitoriano, para acalmar seus filhos.Mês passado na Câmara dos Comuns do Reino Unido, a Adfam, uma organização inglesa que trabalha com famílias afetadas por drogas, apresentou um relatório sobre a questão das mortes de crianças relacionadas à metadona, apontando que isso vem acontecendo com uma “regularidade deprimente”. Em 2009, durante a investigação da morte de uma bebê de um ano e dois meses em Gloucestershire, testes toxicológicos revelaram que a mãe e seu parceiro davam regularmente metadona à menina para acalmá-la. Presos por maus tratos, a mãe contou que essa prática “não era incomum” entre as pessoas que ela conhecia.Recentemente, conversei com Sue Bandcroft, que se aposentou no mês passado depois de 25 anos de serviço público relacionado às drogas em Bristol – uma cidade com um número alto de usuários de metadona receitada e que são pais de crianças pequenas. Em 2011, uma menina de um ano e 11 meses morreu depois de ingerir regularmente metadona. Preocupados com a questão, os funcionários de saúde de Bristol decidiram abordar o tópico com os pais locais que estivessem usando metadona para tratar o vício em heroína.“A reação imediata foi a de que ninguém estava dopando seus filhos”, disse Bandcroft. “Eles diziam: 'Isso é tudo fantasia da mídia'. Mas quando se sentiam mais seguros para falar – sem serem julgados – a maioria admitiu que sim; todo mundo 'conhecia alguém' que fazia isso. Pelo que pudemos concluir com essas entrevistas, parece que as mortes registradas são só a ponta do icebergue.”Não há dados disponíveis sobre o número de bebês e crianças que chegam aos hospitais sofrendo por ingestão de metadona; os hospitais não mantêm registros sobre isso e bebês suspeitos de sofrerem maus tratos raramente fazem testes toxicológicos a pedido do serviço social. No entanto, em países que resolveram abordar a questão, pesquisadores descobriram números alarmantes. Na Alemanha, testes toxicológicos foram realizados com 134 bebês e crianças de pais que recebiam tratamento com metadona. O estudo mostrou que mais de um quarto das crianças tinha metadona no sistema em níveis que indicavam histórico de uso. E os bebês eram mais propensos a apresentar concentrações mais altas de metadona em seus corpos do que as crianças mais velhas.
(Foto via.)É fácil rotular essas pessoas como sendo maus pais, mas essa é uma maneira simplista de ver as coisas; em poucas das 17 mortes registradas no Reino Unido havia evidência de abandono total da criança. Então, por que pais que amam seus filhos acabam dopando os bebês com metadona?De certa maneira, a resposta é a mesma que seria dada na época vitoriana: opiáceos são uma maneira simples de lidar com as dificuldades de cuidar de uma criança. Acalmar bebês com xaropes de opiáceos como o Godfrey's Cordial e o Mrs Winslow's Soothing era normal na era vitoriana, até que isso acentuou o número de mortes de bebês e os produtos foram proibidos.Hoje, opiáceos líquidos adoçados não estão mais disponíveis na farmácia da esquina. Em vez disso, na forma de metadona, eles são receitados para tratar do vício em heroína. No Reino Unido, são cerca de 120 mil crianças que vivem com pais que recebem tratamento com metadona. E mesmo que a maioria delas não enfrente condições de vida do século 19, podemos dizer com certeza que muitos viciados em recuperação não se encontram na melhor condição financeira, uma situação que leva a muito stress, que por sua vez só aumenta com uma criança gritando.Como Bandcroft apontou: “Do mesmo jeito que alguns pais decidem dar a seu bebê inquieto uma dose extra de Calpol [um xarope baseado em paracetamol] quando estão no final de suas forças, usar metadona para acalmar seu filho pode ser o último recurso para pessoas viciadas. Às vezes, isso ocorre por causa de um relacionamento – da mãe que quer manter seu filho quieto por medo de perder o parceiro, ou porque o parceiro pode se tornar violento. E, às vezes, isso é feito sem o conhecimento do parceiro”.Bandcroft diz que pais em tratamento vivem com medo de perder a guarda dos filhos, sugerindo que alguns usam a metadona para dar a impressão de que são pais perfeitos. Mas quanto mais as crianças tomam a droga, mais os pais tendem a evitar o contato com o serviço social e desaparecer do radar. O que significa que, às vezes, o caso só é descoberto quando a criança é tirada da família. Por exemplo, houve o caso de uma criança que foi colocada num lar adotivo e que não conseguia dormir, comer ou beber; testes toxicológicos mostraram depois que a criança estava experimentando sintomas de abstinência da metadona que fora administrada pelos pais biológicos.
Metadona líquida (foto via). Conversei recentemente com Lara O'Neil, ex-usuária de heroína e metadona do Reino Unido que hoje vive na Austrália. A prima dela costumava dar metadona aos dois filhos, de três e um anos, porque acreditava que essa era a única maneira de ser uma boa mãe para eles.“O que ela fez não foi um ato egoísta. Minha prima era uma prostituta viciada em heroína. Ela também era uma mãe solteira, morando com duas crianças pequenas que tinham nascido viciadas em opiáceos”, disse O'Neil. “Ela não tinha ninguém para cuidar dos filhos quando saía para trabalhar à noite, então ela dava pequenas quantidades de metadona do mercado negro para que eles ficassem quietos. Ela tinha medo de que o vizinho ouvisse os bebês chorando e chamasse o serviço social.”“Ela tinha muito cuidado quando dava a droga aos filhos, pois ela era uma usuária experiente e que tinha tirado os opiáceos deles antes. Acho que ela fazia isso com mais conhecimento do que muitas pessoas gostariam de admitir.”Lara me disse que as crianças hoje são adultos que evitam drogas e têm bons empregos.Mas esse tipo de caso não envolve somente a metadona. Um casal de Gloucestershire drogou sua filha de dois anos com diazepam e Medised, um medicamento líquido potente de paracetamol, por um ano e meio. Eles argumentaram que dopavam a criança para poderem “dormir um pouco”, e pegaram penas de prisão suspensas em março deste ano.
Tecelões de tapete no Afeganistão (foto via Kevin Sites).E esse é um hábito global, às vezes profundamente enraizado na cultura local. Por exemplo, no Afeganistão – onde o ópio é abundante e barato – algumas crianças são dopadas com a droga não só para conseguirem dormir, mas também para aliviar a dor do trabalho pesado, como a tecelagem de tapetes. Dopar as crianças também é uma opção de emergência para alguns refugiados; de acordo com a Agência de Refugiados da ONU, sírios fugindo da violência do país no último ano estão sedando seus filhos para mantê-los silenciosos durante a fuga.De volta ao Reino Unido, Judith Yates – uma médica de família de Birmingham – me disse que dar metadona para crianças pequenas “não é tão estranho quanto parece”.Pelo telefone, ela disse: “Até 1992, médicos ainda receitavam 'grip water', um medicamento com 3,6% álcool, para bebês – o que é basicamente a mesma coisa que dar um gole de cerveja à criança. Quando o governo proibiu isso, houve indignação no meu meio. Conheço mães que, de maneira completamente legal, dão aos filhos uma garrafa de 100 ml de Calpol, uma droga que pode causar danos graves ao fígado, todo mês”.A onda de repulsa moral, dirigida aos pais dispostos a correr esses riscos para acalmar seus filhos como uma droga potente como a metadona, não é surpresa. Ainda assim, é a indignação moral e falta de compreensão que forçam questões como essa a permanecerem atrás de portas fechadas, aumentando o risco para as crianças. Então, parece óbvio que o quanto antes pudermos encorajar os pais que fazem esse tipo de coisa a procurar ajuda, sem serem demonizados ou perderem a guarda dos filhos, mais rápido vamos exorcizar esse fantasma vitoriano.@NarcomaniaTradução: Marina Schnoor
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