Precisamos admitir que a guerra contra o doping não está funcionando
Crédito: Aaron Dana
VICE Sports

Precisamos admitir que a guerra contra o doping não está funcionando

Atletas, técnicos, escritores, fisiologistas e professores dizem por que devemos acabar com a hipócrita batalha contra o uso de drogas nas competições.
24.8.16

Doug Logan já viu de tudo; durante anos, serviu na linha de frente na guerra contra o doping, primeiramente como delegado da Major League Soccer, depois como diretor executivo da USA Track & Field (USATF). Ele acreditou nesta luta durante anos.

Corredor de uma vida inteira, Logan era profissionalmente orientado por Peter Ueberroth — o homem que organizou os Jogos Olímpicos de Los Angeles em 1984 e ajudou a financiar o primeiro laboratório antidoping do país.

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Após apenas dois dias de trabalho na USATF, no verão de 2008, surgiram as notícias de que a atleta olímpica Marion Jones havia pedido ao Presidente George W. Bush que reduzisse sua sentença de prisão por ter mentido em investigações federais sobre o uso de substâncias proibidas. Logan respondeu com uma dura carta aberta à Casa Branca, chamando Jones de mentirosa, trapaceira e de fraude. Em 2010, quando o velocista LaShawn Merritt alegou ter sido reprovado em um exame anti-doping devido ao uso de um estimulante sexual comprado em uma loja de conveniência — uma explicação depois considerada plausível por um julgador — Logan o rechaçou publicamente, afirmando que estava enojado e que Merrit havia "envergonhado" a si e a sua equipe.

Logan acreditava que proteger o esporte era seu dever. Quando implementou o primeiro programa de testes antidoping na Major League Soccer, a liga de futebol dos EUA, insistiu que os primeiros executivos fossem testados exatamente como os jogadores e que sua própria urina fosse a primeira a ser coletada. "Responsabilidade é coisa séria", diz Logan, agora com 73 anos de idade e vivendo em Sarasota, na Flórida, nos EUA. "Rezei por essa cartilha por um bom tempo."

Durante o mesmo período, contudo, Logan não testemunhou nenhum progresso real. Nas áreas de treinamento, via os físicos super-humanos a sua volta — ambos homens e mulheres — e sabia que eles haviam sido esculpidos com ajuda química. Às vezes ouvia treinadores falando sobre o uso de inaladores de tratamento de asma com seus atletas quando nenhum deles estava de fato doente. Apesar do discurso forte e dos testes, nada mudou muito. Nunca mudou. "Em meu primeiro ano na MLS tivemos apenas um teste positivo", diz. "Positivo para uso de maconha, e era de um funcionário, não de um atleta."

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Logan se deu conta de que aquele havia sido um ano com poucas vitórias. Em 2010, foi demitido da USATF, em parte – supostamente – devido a seu estilo direto (inclusive um processo foi aberto contra ele). A demissão deu a Logan tempo para pensar e, no verão de 2013, estava pronto para falar. Em uma coluna online com o título de "Que Vençam as Melhores Drogas", afirmou que a guerra às drogas no esporte era hipócrita e invencível. Acabem com os órgãos de vigilância, escreveu, começando pelas Agência Mundial Antidoping e a americana, WADA e USADA. Coloquem Barry Bonds no Hall da Fama do Baseball. Se algum atleta infringir alguma lei, que sofram as consequências. Ou então deixem que decidam o que é melhor para seus corpos. Comparando a proibição de substâncias de melhora de desempenho com a Guerra do Vietnã, Logan concluiu que era hora de declarar vitória, desistir da luta e trazer suas tropas de volta para casa.

"Esta é uma guerra que não vencemos, não podemos vencer e com a qual não devemos nos envolver", diz Logan atualmente.

Doug Logan e a velocista americana Allyson Felix na competição de atletismo Penn Relays de 2010. Foto: Kirby Lee-USA TODAY Sports

Quando as Olimpíadas do Rio começaram em 5 de agosto, milhares de atletas do mundo todo marchaam pelo Estádio do Maracanã, sorrindo e brandindo bandeiras. Muitos correram, pularam e desafiaram de alguma outra maneira os limites da performance humana. Alguns quase certamente estiveram sob uso de doping. Há décadas, as consequências do uso de doping na esfera esportiva tem sido a mesma recomendada na carta de Logan à Casa Branca: tolerância zero. Investigação e punição, sem abrandamentos. Travis Tygart, membro da USADA, alegou que o caso recém-descoberto do programa de doping supostamente apoiado pelo governo da Rússia de "violação da própria essência do esporte". Assim como na guerra às drogas em um âmbito maior, a não utilização dessas substâncias é a regra no mundo dos esportes, e a luta contra substâncias proibidas abrange da testosterona a remédios contra gripe, representando uma verdadeira batalha moral.

Entretanto, um pequeno grupo formado essencialmente por acadêmicos, mas também por pessoas como Logan, começou a desafiar esta perspectiva. A guerra contra o doping, segundo eles, causou muito mais males do que bens: desperdício de dinheiro, atraso na medicina, corrupção e violação dos direitos e da dignidade do atleta no lugar da proteção de sua saúde. Com propinas, extorsões e o envolvimento de agentes de segurança nacional, que infiltraram um laboratório antidoping de Moscou para enviar amostras de urina por meio de um orifício secreto na parede de um escritório, resultando no banimento em pelo menos 111 atletas russos das Olimpíadas do Rio, o atual escândalo russo não é, para eles, uma vitória significativa. Na verdade, é um sinal de derrota.

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O esporte continua em sua luta e as drogas continuam vencendo. Não seria mais seguro, racional e mais honesto acabar com a proibição dessas substâncias? Permitir, estudar e regular o uso dessas drogas que já estão presentes naquela esfera apesar das regras que as proíbem?

Logan acredita que é hora de repensarmos o assunto, na melhor das hipóteses.

"O importante é o diálogo", diz. "Do ponto de vista da indústria do esporte, a pergunta não deveria ser 'como fazemos para que o que aconteceu com a Rússia não aconteça novamente?' Não, a pergunta deveria ser 'Será que nós devemos nos envolver nisso?'"

Don Catlin fundou o UCLA Olympic Analytical Laboratory, o primeiro laboratório antidoping dos Estados Unidos. Foto: Presse Sports-USA TODAY Sports

Don Catlin nunca teve a intenção de se tornar o maior detetive investigativo de doping dos Estados Unidos. Ele só queria novos equipamentos de laboratório. Professor de medicina na Universidade da Califórnia e ex-membro do exército americano, Catlin pesquisou sobre o uso de drogas por soldados americanos na Guerra do Vietnã e, em 1981, foi convidado pelo Comitê Olímpico Internacional para comandar um programa de testes antidoping para as Olimpíadas de Los Angeles de 1984.

Sua resposta foi "não". Cocaína e heroína? Certamente. O vício era um problema social sério, mas doping? Catlin se considerava um fã de esportes, mas doping não era sua área. Na época, isso não era incomum — o doping era visto mais como algo que atletas faziam do que algo que não deveria ser feito. Isso se tornou uma preocupação maior apenas recentemente.

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A história do doping começa nas antigas Olimpíadas, quando atletas mascavam testículos crus para melhorar seu desempenho. Na era moderna, nos Jogos de 1904, o maratonista Thomas Hicks engoliu uma mistura de clara de ovo e estricnina — um veneno de rato que funciona como estimulante quando usado em pequenas doses — a caminho da vitória.

Nos anos 1920, participantes da Tour de France usavam, além da estricnina, a nitroglicerina, ingrediente principal da dinamite. Após a Segunda Guerra Mundial, o uso da anfetamina se disseminou de pilotos de aviões de combate para profissionais do baseball. Na década de 1950, levantadores de peso americanos e soviéticos tomavam esteroides avidamente. Na década seguinte, o uso da mesma droga se disseminou para jogadores de futebol profissionais e universitários.

Com a morte do ciclista dinamarquês Knut Jensen nas Olimpíadas de Roma de 1960 — que desmaiou durante uma corrida, sofreu traumatismo craniano e faleceu de ataque cardíaco — muito se cogitou sobre a influência do possível uso de anfetamina no acidente, e então oficiais esportivos passaram a ver o doping como algo perigoso. Nove anos depois, a revista Sports Illustrated publicou um importante artigo com o título "Drogas: Uma Ameaça ao Esporte". O cerco estava pronto. Quando as nadadoras americanas perderam para as atletas da Alemanha Oriental, que participavam do sistemático programa de doping apoiado pelo Estado alemão, a noção de que o uso de drogas era uma trapaça chegou ao nível da Guerra Fria. "Não é de se espantar que essas comunistas sujas ganharam de nossas garotas", diziam. No começo da década de 1980, a guerra contra do doping começava a se formar paralelamente à Guerra contra as Drogas. Cada uma formada pelos conflitos culturais e políticos do fim da década de 1960 e a percepção do uso de drogas de qualquer tipo como sintoma e causa de decadência moral.

Sports Illustrated, cerca de 1969. Imagem do eBay

Catlin não pensou em nada disso quando foi contactado pelo Comitê Olímpico Internacional. Contudo, o analista químico tinha um problema — precisava de um cromatógrafo gasoso e um espectrômetro de massa, máquinas sofisticadas utilizadas na análise de compostos químicos. Juntos, custariam cerca de 500.000 dólares. "O COI ofereceu-se para pagar por eles", diz Catlin. "Então eu aceitei. Era um acordo bom para mim. Só precisaria testas os atletas nas Olimpíadas e ganharia o equipamento. Eu não previ o que estava por vir."

Nas três décadas seguintes, Catlin supervisionou os testes nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996, e nos Jogos de Salt Lake City, em 2002. Ajudou a desenvolver testes para uma versão artificial da testosterona, eritropoietina (EPO) e tetrahidrogestrinona (THG), conhecida como a droga "limpa", usada no escândalo envolvendo Jones, Bonds e diversos outros atletas praticantes de vários esportes. Seu laboratório, o UCLA Olympic Analytical Lab, se tornou um dos principais departamentos antidoping do mundo, com uma equipe de dezenas de cientistas que conduziam milhares de testes por ano para seus clientes, incluindo a National Football League, a National Collegiate Athletic Association, a Liga Menor de baseball e a USADA.

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Catlin viu a batalha contra o doping se expandir das Olimpíadas para o xadrez internacional e o número de laboratórios crescer no mundo todo. No fim da década de 1980, após audições lideradas por Joe Biden, as leis punitivas antidrogas nos Estados Unidos transbordavam de referências a esteróides e narcóticos. Na virada do século XXI, foram criadas agências como a WADA e a USADA para combater o problema. Logo, elas gastariam centenas de milhares de dólares em testes e investigações de atletas. Durante grande parte daquele tempo, Catlin apreciou sua luta. O trabalho era intelectualmente desafiador e, melhor ainda, estava fazendo uma diferença real.

Ou pelo menos assim Catlin acreditava e, com o passar do tempo, começou a ter suas dúvidas. Assim surgia um padrão. Cientistas como Catlin descobririam uma droga e desenvolveriam um teste. Alguns atletas seriam pegos. O resto descobriria um jeito de passar no exame ou trocaria de substância. Havia sempre drogas novas, ou novas maneiras de se mascarar drogas conhecidas. Havia uma toda uma indústria velada de laboratórios e químicos trabalhando para iludir e confundir os testes de Catlin. O discurso das organizações esportivas era bom, mas o investimento não era condizente. Em 2015, o orçamento total da WADA era de aproximadamente 30 milhões de dólares, apenas 8 milhões a mais do que o salário de Alex Rodriguez, jogador de baseball e usuário reincidente de substâncias proibidas.

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Quando Catlin se aposentou de seu laboratório na UCLA em 2007, suas convicções estavam abaladas. "Deixei com uma sensação de que as coisas não estão funcionando como pensei que estariam", diz Catlin, com 78 anos e agora no comando do projeto sem fins lucrativos Anti-Doping Research em Los Angeles. "Precisávamos fazer os testes, mas não era isso que resolveria o problema das drogas nos esportes. De certa maneira, o que eu fazia era inútil."

As Olimpíadas do Rio foram um "pesadelo" do doping, como previu um treinador de natação? Foto: Rob Schumacher-USA TODAY Sports

Desde a instituição de um limite nos testes de uso de anfetaminas nas Olimpíadas da Cidade do México, em 1968, pelo Comitê Olímpico Internacional, a guerra contra o doping delineou duas metas. De um lado, a redução e a prevenção do uso dessas substâncias. De outro, a investigação e a punição de usuários. Quanto à efetividade do método, militantes convictos como Tygart, da USADA, alegam que os testes funcionam como um bom dificultador e que protegem os atletas que não se utilizam do doping de competir e perder para atletas que fazem uso das substâncias.

Outros discordam. Segundo John Hoberman, professor da Universidade do Texas e historiador especializado no uso de drogas no esporte, as atuais medidas anti-doping são uma "farsa". Dick Pound, ex diretor da WADA, disse à imprensa que questiona tudo o que vê no esporte, do ciclismo ao tênis. Victor Conte, da BALCO, disse à VICE Sports que acredita que o número de corredores sob efeito de doping no Rio foi o mesmo dos jogos de Atenas de 2004. John Leonard, líder da World Swimming Coaches Association, diz que os próximos Jogos serão um "pesadelo do doping", com um número de nadadores usuários sem precedentes.

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Catlin não gosta mais de acompanhar os Jogos Olímpicos. "Perdi o gosto", diz. "Vi todos os que eram usuários."

Exemplos de atletas pegos não param de surgir. No começo deste ano, Jerry Mejia, jogador do New York Mets, foi banido para sempre do esporte pela MLB após ser reprovado três vezes em um teste para detecção de esteroides ao longo de dois anos. O advogado de Mehia acusou a Liga de corrupção e pretende entrar com uma ação. Em 2009, Rodriguez admitiu usar esteroides, desculpou-se, disse não precisar mais das drogas, foi alvo de chacota do público para então admitir a agentes federais que continuou a usar substâncias proibidas entre 2010 e 2012.

Quando uma investigação federal descobriu o uso de doping pelo ciclista Lance Armstrong, Tygart e outros viram ali uma grande vitória, prova de que a guerra contra o doping estava funcionando — ignorando o fato de que quase todos os rivais de Armstrong na Tour de France já haviam sido apontados como usuários, e, mesmo assim, isso não impediu Armstrong e seus colegas de equipe de utilizaram as substâncias.

No fim de julho, o COI anunciou que 45 atletas das Olimpíadas de Londres e de Pequim — incluindo 23 medalhistas chineses — foram reprovados em testes após terem suas amostras de urina e de sangue analisadas novamente com técnicas novas, aumentando o número de atletas reprovados em retroativo para 98. Isto significa que quase 100 atletas competiram nos Jogos sabendo que seriam testados novamente no futuro e mesmo assim usaram as drogas.

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E por que não? As chances maiores são de não serem pegos. Em 2012, laboratórios aprovados pela WADA no mundo inteiro conduziram aproximadamente 270.000 testes antidoping. Apenas 1% revelou o uso de substâncias proibidas. Testes feitos pelas organizações das Olimpíadas de Londres e de Pequim, pela MLB, pela NCAA, e representantes das organizações esportivas colegiais de Nova Jersey e do Texas revelam uma taxa similar de resultados positivos. Ninguém acredita que a taxa de incidência de doping no esporte seja tão baixa.

Em 2013, a WADA conduziu um estudo anônimo no qual mais de 2.000 corredores foram avaliados, e descobriu que estimadamente 29% dos participantes dos campeonatos mundiais de 2011 e 45% dos participantes dos Jogos Pan-Arábicos haviam feito uso das substâncias no ano anterior. Um estudo publicado em 2015 na Sports Medicine estima que 39% dos atletas de elite internacionais também usaram as substâncias. Uma testemunha entrevistada para um relatório da Comissão Independente para Reforma no Ciclismo publicado ano passado alega que 90% dos ciclistas usam drogas, apesar dos rígidos testes a que são submetidos.

"Baixos índices de resultados positivos parecem um bom resultado", diz Lisa Milot, ex-ciclista e professora de Direito na Universidade da Georgia que estuda o esporte e o corpo humano. "Mas quando você vê além dos números, trata-se de um grande fracasso." Milot lembra uma pequena lista de escândalos: BALCO, o caso envolvendo Rodriguez, a Tour de France no fim da década de 1990, Armstrong, as alegações plausíveis de que o técnico de corrida Alberto Salazar está dando essas substâncias a seus atletas, o atual caso da Rússia. O que todos eles têm em comum? Todos foram descobertos por uma denúncia, pela aplicação da lei ou pelo jornalismo investigativo — ou uma combinação dos três.

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"Nenhum desses escândalos surgiram com os testes, e isso mostra que esta prática é falha", diz Milot.

Um ex-ciclista profissional, que falou em entrevista com a VICE Sports sob condição de anonimato, é mais incisivo. "Se você pegar a taxa dos testes [da USADA], vai ver que ela é espantosamente falha", diz o ciclista. "Gastam mais de 10 milhões de dólares por ano, milhões desta soma vindo do governo [federal], e isso tudo para nada."

Chefe da USADA Travis Tygart. Foto: David Butler II-USA TODAY Sports

Agências antidoping do mundo inteiro geralmente sofrem com a falta de poder de intimação, apreensão e outros procedimentos de coleta de provas, e contam com a polícia para a obtenção de informações. Conte alega que os programas atuais estão repletos de lacunas. Usuários podem escapar da detecção ao tomar doses menores de uma substância específica para se manter abaixo dos limites permitidos, uma técnica chamada "microdosagem", por exemplo. Caitlin, por outro lado, acredita que a prática de testes não tem financiamento suficiente. Em seu blog, certa vez estimou que o orçamento mundial anti-doping estava entre 250 e 400 milhões de dólares — o mesmo valor de uma empresa farmacêutica pequena e muito menos que os bilhões de dólares recebidos pelos atletas, times e organizações que se prejudicariam com testes positivos. Logan quer retirar suas tropas e Caitlin quer apoio financeiro.

Segundo Charles Yesalis, professor emérito da Universidade Estadual da Pensilvânia e pesquisador do doping no esporte, mais dinheiro investido em testes provavelmente não traria melhores resultados. Não enquanto os atletas estiverem motivados a aplicar sua inteligência para vencer com o uso das substâncias. A saber, uma investigação antidoping de um ano conduzida pela Australian Crime Commission descobriu que os atletas estavam utilizando uma série de drogas que na lista de substâncias proibidas pela WADA, incluindo extratos de cérebro de porco e de sangue de bezerro e um medicamento para obesidade que ainda estava em fase de testes para uso em humanos.

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Quatro anos atrás, Pound foi coautor do relatório "A Ineficácia dos Programas de Testes", para o comitê executivo da WADA. Ao longo de 26 páginas, Pound afirma que "os testes não se mostraram particularmente eficazes na detecção de doping" e vê a origem do problema na falta de uma "vontade geral de se engajar e investir em um esporte livre do doping". Eis um grande militante da guerra contra o doping admitindo a vitória das drogas.

Hoberman, o professor da Universidade do Texas, não fica surpreso com o relatório. Segundo ele, a história do antidoping no esporte pode em parte ser entendida como uma história de relações públicas: o verdadeiro objetivo dos testes é pegar alguns usuários, mas não muitos. Afinal de contas, boas performances são bons para as manchetes. Escândalos não são.

"A indústria esportiva movimenta cerca de 400 bilhões de dólares por ano", diz. "É um gigante que quer se manter em seu lugar. Considerando o que sabemos sobre o comportamento dos atletas de elite, simplesmente não se pode ter uma política antidoping eficaz com esse modelo de negócio."

O corredor americano Phil DeRosier foi suspenso por utilizar um suplemento que continha um estimulante que não estava listado pelo fabricante e que não estava presente na lista de substâncias proibidas pela WADA. YouTube

Se os programas antidoping atuais são ineficazes na detecção de atletas que fazem uso da prática, como ficam os atletas que não fazem uso de nenhuma dessas substâncias? O documentário Doped: O Lado Sujo dos Esportes, de 2015, conta a história de Phil DeRosier, corredor americano suspenso por seis meses após ter sido reprovado em um teste antidoping. (Eu também apareço em uma entrevista no filme, mas não sobre DeRosier.) Durante aquele período, DeRosier não podia correr nem receber patrocínio, e perdeu a renda de um semestre inteiro. O atleta encararia a punição sem maiores proble – se ele de fato tivesse de fato feito algo de errado.

DeRosier havia tomado um suplemento alimentar legal que continha um estimulante, a dimetilamilamina, que não constava nas informações do fabricante, tampouco na lista de substâncias proibidas pela WADA. Não importa. As regras da WADA permitem que atletas sejam punidos não somente pelo uso de substâncias proibidas específicas, mas também pelo uso de "toda e qualquer substância similar". Pode não parecer justo, mas foi o suficiente para a USADA.

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"Acho que fui parte de uma cota a ser atingida", diz DeRosier no filme. "Fui usado para mostrarem serviço."

Outros atletas já foram punidos em circunstâncias igualmente duvidosas. LaShawn Merritt — o corredor americano que foi citado acima por ter utilizado um estimulante sexual contendo um hormônio esteroide, o ExtenZe, comprado em uma loja de conveniência após passar a noite dançando com sua namorada — perdeu quase dois anos de carreira e teve que recorrer à Justiça para competir nas Olimpíadas de Londres. Uma década antes, o tenista Martin Rodriguez foi condenado por ter excedido o nível permitido de, acreditem, cafeína em um exame de urina durante um torneio na Suíça.

Em sua defesa, Rodriguez conta sua versão dos fatos. Estava esperando sua vez de jogar no lounge dos jogadores. Ele estava entediado, e havia uma "moça atraente" servindo café espresso por uma empresa patrocinadora. Rodriguez normalmente tomava três ou quatro xícaras de café antes de cada partida e, naquele dia, talvez tenha tomado algumas a mais. Ele não estava contando. Durante a partida, o atleta também ingeriu "uma ou duas" latas de Coca-Cola, sem receber nenhuma advertência do juiz da partida.

Resumindo, Rodriguez não estava tomando drogas proibidas. Ele estava com sede. Mesmo assim, perdeu em juízo e foi obrigado a pagar 6725 dólares de multa. A WADA removeu a cafeína da lista de substâncias proibidas em 2004. Após a produção de Doped, o cineasta Andrew Muscato concluiu que a guerra dos esportes contra as drogas prejudica a performance dos atletas e resulta em julgamentos injustos. "A WADA parece tratar todos os atletas como atletas culpados, com sua política e sua conduta", diz. "Atletas olímpicos têm que abrir mão de seus direitos de privacidade se quiserem competir. Se o sistema não funciona, isso é justo?"

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Segundo o regulamento da WADA, os atletas não somente precisam se submeter aos exames de urina, como devem permitir que seus órgãos genitais sejam inspecionados durante a coleta de urina. Eles devem também seguir a "Regra do Paradeiro" — ou seja, os atletas devem regularmente informar os locais onde estão e onde pretendem ir para esses mesmos inspetores, que podem aparecer e requerer sangue e urina a qualquer hora, dia ou noite. Uma década atrás, o ciclista Kevin van Impe precisou fornecer amostras de urina e de sangue em um crematório, onde organizava o funeral de seu filho, Jayden, que havia falecido seis horas após o nascimento. Mais recentemente, a esquiadora Lindsey Vonn precisou atender aos inspetores da WADA em uma festa de gala da indústria da moda em Nova York.

Apesar de todas as falhas, a guerra contra o doping não mostra sinais de desaceleração. Pelo contrário, a WADA anunciou ano passado que suas investigações não serão limitadas pelas leis e restrições nacionais. A organização mantém uma lista de nomes — na maioria treinadores e técnicos associados ao uso de drogas — com quem atletas não têm permissão para se relacionar. A suspensão olímpica padrão em caso de violação por uso de drogas era de dois anos. Hoje, são quatro anos de suspensão, que acabam com qualquer carreira. Caso o atleta queira recorrer, como DeRosier ou Merritt, deve estar preparado para gastar milhares de dólares contestando as autoridades antidoping em juízo. A situação faz com que Logan, ex-executivo da USATF, se pergunte: qual a finalidade de tudo isso?

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"A verdade é que não conseguimos muita coisa com todas essas proibições", diz. "Estamos gastando um enorme volume de recursos financeiros e humanos. Por que não nos livramos de todos esses inspetores, dos laboratórios, das listas de substâncias proibidas? Por que testar os atletas em condições inumanas, acordá-los às quatro da manha e fazê-los informar com 180 dias de antecedência onde passarão a noite, e com quem? Toda essa estupidez tem que parar."

A guerra antidoping seria um desperdício? Foto: Joe Camporeale-USA TODAY Sports

Andy Miah tem uma proposta mais simples. Se você é fã de esportes, pode parecer radical, até impensável. Mas veja só. Professor e bioeticista na Universidade de Salford, em Manchester (Reino Unido), Miah estuda tecnologia e potencialização biológica, deparando-se com questões como o sentido do termo "natural" ou "humano" em uma era de modificações genéticas. Coisa simples.

Assim como Logan, Miah também acha que a guerra contra o doping está tomando rumos errados. É uma luta retrógrada, fora de sintonia com a medicina e a sociedade modernas, em que desenvolvemos e aplicamos avidamente novas tecnologias para melhorarmos coletivamente. No esporte, os atletas devem ficar longe da testosterona — um atalho para uma glória maculada. Em casa, espectadores de meia idade desse mesmo esporte são encorajados a procurar informação médica sobre o AndroGel, um creme que contém o mesmo hormônio, utilizado para obter uma vida melhor.

O que Miah sugere é acabar com a WADA e substituí-la por uma organização com políticas pró-doping.

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"As questões éticas associadas ao doping são relacionadas essencialmente a profissionais da saúde que temem que tecnologias terapêuticas sejam utilizadas para fins não terapêuticos", escreve Miah em entrevista por e-mail à VICE Sports. "Esses profissionais não simpatizam com o melhoramento da performance humana, mas querem que os atletas quebrem novos recordes. Como conseguirão fazer isso sem tecnologia?"

"Se recordes e resultados não são importantes, então vamos nos livrar de cronômetros e medalhas. Eu votaria nesta opção, mas acho que poucos concordariam comigo, já que o esporte de elite está mais interessado nos limites do ser humano e na nossa capacidade de ultrapassá-los."

Miah está envolvido neste tema há quase uma década. Em debates sobre o assunto, diz, costuma ser aquele que "as pessoas amam odiar". Os argumentos contra o doping são amplamente aceitos. Segundo os apoiadores da causa, a proibição garante que atletas que não querem usar as drogas não se vejam obrigados a fazê-lo simplesmente para se manter no nível de seus colegas quimicamente alterados. A proibição preserva a integridade dos recordes atingidos era após era e desestimula crianças — que segundo médicos não podem ingerir esse tipo de droga de maneira segura — a adotar a prática em um esforço mal orientado para se igualarem a seus heróis olímpicos.

Crianças, não tentem fazer isto em casa. Foto: Kirby Lee-USA TODAY Sports

Miah admite que o fim da proibição do doping nos esportes não seria uma solução perfeita. Os atletas poderiam causar danos a si mesmos com o uso excessivo de drogas, assim como pacientes comuns podem tomar analgésicos em excesso. Ainda assim, Miah diz, os danos seriam menores com um novo modelo que permitisse o uso aberto, consensual, responsável e supervisionado dessas substâncias.

"Há muitos problemas relacionados ao uso de drogas. Deveríamos nos concentrar em encontrar alternativas melhores", escreve. A saúde de um atleta deveria ser monitorada — talvez mais de perto ainda — sem impedi-los de utilizarem esse tipo de tecnologia. Poderíamos estabelecer níveis aceitáveis de risco e testá-los, mas o principal seria garantir aos atletas a possibilidade do uso de substâncias que são geralmente aceitas na sociedade."

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Miah não está sozinho em seu posicionamento, embora este seja pouco ortodoxo. Milot, ex-ciclista júnior e professor de Direito, publicou um texto com argumentos parecidos no Journal of Sport and Entertainment Law da Escola de Direito de Harvard. Além de Milot, o bioeticista da Universidade de Oxford Julian Savulescu e a organização sem fins lucrativos dedicada à reforma na Guerra Contra as Drogas Drug Policy Alliance também expressaram opiniões parecidas.

Quase vinte anos atrás, Steve Courson, ex-jogador de futebol americano e usuário assumido de esteroides, alegou nas páginas da Sports Illustrated que o doping era inevitável, e que ignorar este fato só geraria hipocrisia. Será que os fãs e os técnicos acreditavam mesmo que atletas como ele poderiam pesar 133 quilos e levantar 270 quilos sem ajuda química? Estariam os profissionais da área falando sério quando alertavam aos atletas sobre os riscos físicos dos esteroides, como se o próprio futebol já não fosse um risco ao próprio corpo? Em consonância com Miah, Courson conclui que seria melhor se os atletas fossem monitorados sobre o uso e os efeitos colaterais das substâncias proibidas, com acompanhamento médico apropriado, melhor oriantados do que por "alguém da rua ou da academia". "Seria maravilhoso se os esportes fossem puros e livres de esteróides", escreveu Courson. "Também seria maravilhoso se vivêssemos em um mundo sem armas nucleares".

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Como seria o mundo do esporte se o doping fosse aceito? De acordo com Logan, haveria menos escândalos e menos corrupção. O atual caso russo é um exemplo de toda essa corrupção envolvendo atletas de elite e testes antidoping: oficiais de justiça mentiram à WADA sobre alguns testes positivos e alteraram amostras de alguns atletas; membros dos departamentos de atletismo mundial e russo fizeram uso de suborno para livrar alguns atletas; a polícia francesa investigou o líder do órgão regulador de atletismo, Lamine Diack, seu conselheiro e o chefe do departamento antidoping, sob suspeita de terem recebido mais de um milhão de euros para fazer o mesmo. A organização de Diack emitiu um relatório sobre o caso. Mesmo assim, a WADA ignorou ou se recusou a tomar providências em relação aos indícios do sistemático programa de doping russo, que lhes foram apresentados em 2013.

O que tudo isso tem em comum? Se as substâncias fossem permitidas, diz Logan, nada disso teria acontecido. Sem segredo, sem suborno, sem subterfúgios. "O crime leva ao crime", diz. "Quando se criminaliza algo, cria-se uma rede de crimes em torno daquilo que foi criminalizado."

Acabe com a proibição, ele acrescenta, e os fãs não terão que se preocupar com a invalidação de tempos de corrida e anulação de recordes quebrados. Com o fim da proibição, atletas como Armstrong não precisarão mais se submeter a humilhantes inspeções genitais, ou mentir sobre como consegue correr mais rápido do que qualquer outra pessoa. Não precisarão viver em um constante estado de paranoia sobre o que ingerem, conferindo as informações de cada energético ou suplemento com a lista de substâncias proibidas, cientes de que um composto perfeitamente legal em um dia pode ser o fim de uma carreira no futuro.

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No começo deste ano, a tenista Maria Sharapova foi banida por dois anos de competições após um resultado positivo para meldonium, uma mediação para o coração que a atleta tomava desde 2006, quando um médico de Moscou o receitou para melhorar o sistema imunológico. A substância também foi detectada em testes de centenas de outros atletas. A WADA adicionou a droga à lista de proibidos no começo de 2016 sem que houvesse prova científica de que seu uso alteraria o desempenho físico dos atletas. Isto é justo? Resolve algum problema? O ex-ciclista anônimo acredita que não.

"A WADA condenou um monte de atletas por causa disso", diz. "Mostre-me um estudo que prova que essa substância altera alguma coisa. Mostre-me. Não existe nenhum estudo que comprove isso, a droga não deveria estar na lista. Eles acabaram com a carreira de centenas de atletas."

Maria Sharapova está banida por dois anos de competições pela detecção de meldonium em seus testes. Foto: Jayne Kamin-Oncea-USA TODAY Sports

Assim como o meldonium, a maioria das drogas que alteram o desempenho são, primeiramente, remédios. O Hormônio do Crescimento Humano é utilizado para tratar de déficit de crescimento em crianças e problemas na hipófise em adultos. Esteroides anabólicos são utilizados no tratamento de perda muscular causado pela AIDS. A eritropoietina é utilizada no tratamento da anemia. Como disse um médico da Associação Médica Americana em uma palestra sobre esteroides em um congresso em 1989, pacientes sob supervisão adequada podem utilizar essas drogas com segurança, mas o acompanhamento médico é essencial.

Assim como outros remédios, essas substâncias podem causar efeitos colaterais perigosos, como acne severa, danos no fígado, doenças cardíacas e o aumento de risco de AVC. Mas como Miah e Courson apontam, a proibição leva à clandestinidade e afasta os atletas de médicos competentes e aproxima-os de pessoas como Conte, da BALCO — um nutricionista autodidata que, em vez de ter ido à escola de medicina, tocou baixo no grupo de R&B Tower of Power nos anos 1970 — ou de Tony Bosch, da Biogenesis, que largou a escola de medicina e certa vez coletou amostras de sangue do jogador de baseball Rodriguez no banheiro de uma boate em Miami.

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O ciclista profissional anônimo fazia parte de uma equipe que utilizava substâncias proibidas. Segundo ele, a prática era cautelosa, tanto para evitar a detecção quanto para proteger a saúde. Entre as drogas utilizadas estava a eritropoietina, para as hemácias. A média deste tipo de célula no sangue é de cerca de 44%. Segundo um artigo publicado em 2004 pelo British Journal of Sports Medicine, taxas acima de 51% representam aumento de risco de AVC ou ataque cardíaco. A equipe do ciclista anônimo mantinha níveis de cerca de 47%, basicamente o mesmo que se atinge quando se treina em lugares de maior altitude. "Agora mesmo não tenho nenhum efeito colateral da eritropoietina", diz. "Nosso modo de ação era completamente conservador".

O ciclista lembra das palavras do médico que conduzia o tratamento com a eritropoietina na equipe: "Você tem que tomar, sim, porque todos estão tomando. Não vamos fazer nenhuma loucura. Se uma injeção só for suficiente, ótimo. Não vamos encher você de injeções." Diz também: "uma vez usamos uma droga que aumentou o rendimento em 10%, completamente indetectável e, se usada com acompanhamento médico, é completamente segura. Por mim, sem problemas."

"Mas havia outras coisas naquelas injeções. Hemoglobina sintética, fluorocarbonos [uma droga perigosa utilizada no tratamento de perda de sangue severa], medicamentos veterinários e substâncias ainda em fase de testes. Sabendo o que tem ali você nem liga mais para os testes, mas se preocupa com a própria saúde. Algum problema sério vai acontecer, e muito rápido."

Ciclismo nas Olimpíadas de Londres de 2012. Foto: Mark J. Rebilas-USA TODAY Sports

O ciclista não está exagerando. A guerra contra o doping não só aproxima os atletas de médicos duvidosos, mas de drogas duvidosas. Substâncias que podem ser compradas pela internet ou por via ilícita, ou que sejam apenas incomuns o suficiente para nunca terem chamado a atenção dos órgãos vigilantes.

Barry Bonds teria supostamente ingerido trembolona, esteroide criado para melhorar a qualidade muscular de bezerros. Segundo um relatório, ciclistas estão tomando uma droga chamada GW1516, que queima gordura, aumenta a massa muscular e aumenta a quantidade de oxigênio que chega até os músculos, mas que também "não foi aprovada para uso em humanos porque poderia causar câncer".

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Segundo John Burge, em artigo publicado em 1994 pela Loyola of Los Angeles Entertainment Law Review sobre a regulação de esteroides, esteroides importados ou produzidos clandestinamente podem ser "muito mais perigosos" que aqueles produzidos pelas companhias americanas reguladas pela Food and Drug Administration. Um ex-consultor de medicamentos da NFL afirma já ter visto pessoas desenvolverem "de tudo, de gangrena no braço a abcessos no quadril" devido ao uso de drogas do mercado negro. Em outro caso, um usuário injetou um frasco inteiro de penicilina que havia sido marcado erroneamente como esteroide.

Em seu artigo, Milot cita um estudo de 2009 em que 21 a 53% dos esteroides comprados no mercado negro analisados eram falsificados, alguns contaminados com bactérias prejudiciais. "O que acontece é que, para passar pelos testes, as pessoas mudam de drogas relativamente seguras para drogas que não são conhecidas", diz. "Ou então tomam esteroides por via oral, em vez de injeções, porque assim são eliminados do organismo mais rapidamente. Por outro lado, causam danos aos órgãos. Em termos de saúde, é um desastre."

O uso aberto dessas substâncias, contudo, provavelmente não seria sempre responsável. O programa oficial secreto de doping da Alemanha Oriental era um pesadelo médico e ético, e cientistas inescrupulosos causavam danos permanentes aos atletas. Em uma famosa pesquisa realizada a cada dois anos sobre atletas de elite no fim dos anos 1980, mais da metade dos entrevistados disseram que tomariam alguma droga que os garantisse uma medalha de ouro, mas que também os mataria dentro de cinco anos.

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Mesmo com acompanhamento médico apropriado e limites responsáveis em relação aos tipos de drogas liberadas, ainda assim alguns atletas estarão dispostos a assumir riscos e, se o uso excessivo de analgésicos na NFL serve de exemplo, é provável que alguns médicos eticamente mais flexíveis dêem total apoio. O pensamento no meio esportivo é, em parte, assim: se uma pílula funciona, tome logo várias. Se uma gasolina boa faz o carro andar mais rápido, encha o tanque com nitroglicerina de uma vez. Milot conta que, quando era ciclista, uma vez recebeu uma ligação no meio da noite de uma amiga, também ciclista. Seu tom era urgente: Quando você acordar, vá até a GNC [uma rede de suplementos] e compre o máximo que você puder do produto X.

Milot estava sonolenta, mas perguntou "por quê?"

Acabaram de proibir esse produto, deve funcionar!

"Pouco importava que o produto tivesse sido proibido por causar alucinações, levando as pessoas a se jogarem da janela", diz Milot. "Atletas são pessoas que correm risco. Não tem como chegar a um nível internacional sem estar disposto a frequentemente colocar seu próprio corpo em risco."

O programa de doping apoiado pelo governo da Alemanha Oriental era um pesadelo médico e ético. Wikipédia

O melhor para os atletas e para a sociedade em geral, continua Milot, seria saber exatamente os efeitos de cada substância e os riscos que podem surgir com seu uso em longo prazo. A maior parte do conhecimento que se tem sobre os benefícios e males causados por essas substâncias tem origem em estudos realizados em pessoas doentes. Mas e as pessoas saudáveis? Segundo Charles Yesalis, epidemiologista da Universidade Estadual da Pensilvânia, grande parte do que pensamos saber vem de pesquisas com halterofilistas, que geralmente ingerem enormes quantidades de drogas de composição e origem duvidosas. Para os cientistas, a guerra contra o doping nos esportes e a histeria moral a ela relacionada tornam um estudo mais rigoroso do assunto quase impossível.

"É difícil dizer a alguém para não tomar algo porque faz mal, se não temos nenhum dado comprovando a informação", diz Milot. "Nós devemos reunir informações para entender como essas substâncias agem. Precisamos focar nisso em vez de punição."

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Quanto às punições, Logan se pergunta: se um atleta puder usar uma droga segura para correr mais rápido ou pular mais alto, qual o problema? E se a substância possibilitar alguém a competir, prolongando a carreira de atletas mais velhos ou ajudando na recuperação de outros? Estas não são apenas hipóteses: próximo ao fim de sua carreira na NFL, Abdul-Karim al-Jabbar tratou o joelho com injeções de hormônio do crescimento para estimular a produção de cartilagem. Ano passado, Mark Cuban, dono do Dallas Mavericks, participou do patrocínio de testes clínicos da Universidade de Michigan em um estudo para descobrir se a mesma droga serviria para ajudar na recuperação de cirurgias no ligamento cruzado anterior. Segundo Tom Farrey, da ESPN, pesquisadores descobriram altas taxas de deficiência hormonal — especificamente hormônio do crescimento e testosterona — entre vítimas de traumatismo craniano, provavelmente devido a danos na hipófise, um pequeno órgão na base do cérebro. Considerando a natureza dura de esportes como o futebol americano, seria ético negar a esses jogadores o uso dessas drogas? Em vez de protegê-los, a proibição pode estar causando-lhes danos.

"Os limites entre aprimoramento de performance e terapia não são bem definidos, mas gostamos de fingir que são", diz Milot.

O ciclista amador e escritor Andrew Tilin ficou mais compreensivo com casos como o de Lance Armstrong após fazer uso de testosterona. Foto: Olivier Hoslet-EPA

Andrew Tilin usou doping e, sinceramente, gostou. Escritor e ciclista amador, Tilin vive no Texas e, no começo da década de 2000, tomou testosterona por quase um ano. O mesmo hormônio usado por atletas como Armstrong e Bonds, disponível em clínicas de tratamento anti-idade por todos os Estados Unidos.

Na época, Tilin tinha pouco mais de 40 anos e a testosterona — ou "T", como ele se refere ao hormônio — era anunciada a homens de meia idade como uma fonte da juventude farmacêutica. Sobre a bicicleta, Tilin sentiu os efeitos exatamente como eram enunciados, fazendo longas corridas sem se sentir "acabado" e podendo treinar ainda mais pesado no dia seguinte. Fora da bicicleta, era "como se tivesse bebido oito xícaras de café", diz Tilin, que escreveu sobre sua experiência no livro The Doper Next Door. "Eu desejava minha esposa como se eu tivesse 18 anos de idade. Ia a restaurantes e ficava vendo as garçonetes sem a menor culpa. É grosseiro, mas foi divertido às vezes."

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Quando parou de tomar testosterona, Tilin ficou preocupado com os possíveis efeitos colaterais, com medo de não conseguir mais ter ereções ou de desenvolver ginecomastia, os "seios" masculinos. Nada disso aconteceu. Em vez disso, Tilin ganhou uma nova perspectiva. Fã de ciclismo de longa data, costumava assistir à Tour de France com olhos críticos, considerando os usuários de eritropoietina trapaceiros.

"Hoje não me importo mais", diz. "É óbvio que eles usam drogas, é o que eles fazem para viver."

"Imagine que você é o melhor escritor de uma revista. Você recebe as melhores histórias durante anos e de repente chega alguém que sempre havia sido medíocre e, inexplicavelmente, começa a receber todos os trabalhos bons e todos os elogios. Se lhe dissessem que esse alguém estava tomando umas pílulas e lhe oferecessem algumas, o que você faria?"

Para Tilin, na guerra contra o doping nos esportes, a hipocrisia é vigente. As regras são arbitrárias — como algumas coisas são proibidas enquanto a cirurgia na técnica LASIK, que corrige a visão de um jogador de golfe ou baseball é permitida? Além de tudo, as medidas tomadas são ineficientes. Tilin sente pelos atletas condenados e, como Logan e outros, acha que essa luta não pode ser vencida. Contudo, o autor conta que, nas sessões de autógrafo de seu livro, vez ou outra aparece algum ciclista amador chamando-o de trapaceiro. Sua namorada é triatleta e odeia seu livro, que diz ser "uma corrupção".

Há uma veia profundamente moralista nos atletas, uma preocupação quase mística com noções de limpeza e sujeira, natural e artificial. No começo da década de 1980, o ex-presidente do Comitê Olímpico Internacional, Michael Morris, afirmou que "a criação do homem artificial matará o esporte". Cerca de uma década antes, Gilbert, da Sports Illustrated, concluiu que o uso de drogas põe em cheque a natureza fundamental dos esportes, a competição entre iguais.

"Meu medo é que com a legalização dessas drogas comece uma verdadeira corrida armamentista para ver quem as utiliza mais", diz Tilin. "Apesar de estarmos perdendo, acho que devemos continuar lutando. porque a outra possibilidade é ainda mais sombria."

Mais de 100 atletas russos foram banidos das Olimpíadas do Rio. Foto: Hannibal Hanschke-EPA

Max Mehlman, professor de Bioética e Direito na Case Western Reserve University, em Clevelend, Ohio, luta contra a proibição dessas drogas desde a década de 1990. Na época, o Projeto Genoma Humano estava em andamento e Mehlman estava envolvido com as questões éticas da engenharia genética nos Institutos Nacionais de Saúde. Ali, um colega falou sobre doping e sua natureza contrária ao "espírito do esporte".

"Perguntei-lhe o que ele queria fizer com aquilo", diz Mehlman, que também estudou sobre o uso de estimulantes nas Forças Armadas. "Quanto mais eu perguntava, menos conseguiam dar uma explicação convincente." Mehlman debateu com atletas, jornalistas esportivos e acadêmicos, inclusive Dick Pound, ex-líder da WADA. Disseram-lhe que o doping era errado porque era contra as regras. Tudo bem, mas ninguém cria uma verdadeira cruzada contra toques de mão na bola no futebol. É errado porque é arriscado. Assim como a ginástica. É errado porque são drogas. Então como explicar o uso de cortisona como analgésico?

"Uma vez um jornalista esportivo me disse que a diferença entre esteroides e algo como uma vara de fibra de carbono é que os esteroides são para ser engolidos", diz. "E isso os torna ruins."

Eventualmente Mehlman concluiu que a guerra contra o doping nos esportes estava menos relacionada à proteção dos atletas — afinal eles continuavam a lutar boxe e a jogar futebol — do que à proteção de uma ideia, a ideia de todos jogando sob as mesmas regras. O esporte como uma meritocracia, em que resultados nas quadras são recompensas ao trabalho duro e à força de vontade.

E isso, por sua vez, faz com que Mehlman pense: será que as coisas funcionam ao contrário no esporte? "Com a proibição do doping, não comparamos apenas o esforço [nas competições]", diz. "Comparamos sorte. A sorte de ter uma boa genética e de ter nascido em uma família rica e que estimula o esporte. A sorte de ter acesso aos melhores treinadores. Muitas conquistas se devem a estes fatores. O doping poderia ser visto como uma maneira de nivelar estas diferenças. Por que não deixar os que não tiveram tanta sorte no jogo da genética usarem doping?"

A legalização do doping levaria a uma maior igualdade no esporte? Foto: Kirby Lee-USA TODAY Sports

Ainda neste ano, o acadêmico escocês Paul Dimeo disse em entrevista ao The Times de Londres que os ideais de um atleta natural são um anacronismo, que algumas drogas podem ser usadas com segurança para tratamento e desempenho e que, talvez, as políticas antidoping devessem passar por um criterioso reexame. Dimeo foi imediatamente removido de seu cargo no comitê antidoping do ciclismo americano. Como Logan, Dimeo estava simplesmente propondo um diálogo e, como Tilin, foi tratado com um desprezo puritano.

"É difícil lidar com as drogas", diz Hoberman, historiador da Universidade do Texas. "Precisamos admitir isto. Mas nossa sociedade tem muitas dificuldades em lidar com o assunto de maneira racional."

Ano passado, a Drug Enforcement Agency anunciou que havia descoberto 16 laboratórios clandestinos de esteroides e apreendido centenas de doses de drogas proibidas em uma operação abrangendo 20 estados e quatro países estrangeiros. O jornalista investigativo e escritor David Epstein percebeu o óbvio: tem esteroides demais aí. E o subtexto: tem gente demais fazendo isso dessas substâncias. Muito mais do que pode ser atribuído a atletas de alta performance.

Entre 2005 e 2011, as vendas de hormônio do crescimento, apesar do reajuste da inflação, aumentaram 69%. Por outro lado, as vendas do mesmo remédio com receita aumentaram apenas 12% no mesmo intervalo. A nossa cultura é uma cultura do doping, diz Hoberman. Pilotos militares se mantêm acordados com anfetaminas e Stavigile, estudantes e professores usam Adderall para estudar, atores e produtores de Hollywood tomam anabolizantes para ganhar massa muscular e a sociedade em geral toma energéticos e cafés duplos para melhorar o desempenho nos dias de trabalho.

Em 2012, foi conduzida uma pesquisa com 1.200 universitários, que responderam a um questionário com dois cenários: um corredor que usou esteroides para ganhar uma corrida e um estudante que usou estimulantes para gabaritar uma prova. Para a maioria dos os participantes o corredor foi considerado trapaceiro, com um detalhe importante: aqueles que já haviam utilizado estimulantes sem receita tinham mais tendência a perdoá-lo. A familiaridade com uma causa traz consigo a compaixão. A compaixão, por sua vez, traz aceitação. Com uma sociedade que cada vez mais faz uso desses tipos de substâncias, continuaremos a exigir dos atletas que "façam o que eu digo, não façam o que eu faço"?

"Isso é uma besteira", diz Logan. "Hoje vivo em um bairro essencialmente de aposentados, com senhoras de cabelo azul que vão a shopping centers e tomam injeções de hormônio do crescimento diariamente. Ninguém as impede de fazer suas atividades por causa disso. Hoje nós temos uma pílula para tudo."

De muitas maneiras, diz Hoberman, a guerra contra o doping é apenas uma ramificação da guerra às drogas: surgida durante o governo Nixon e intensificada durante o mandato de Ronald Raegan, esta luta é cada vez mais vista como algo inútil e danoso, que perpetua as falhas de todos os envolvidos — uma batalha perdida não contra uma substância específica, mas contra a natureza humana. O número de sentenças mínimas obrigatórias está sendo reduzido e a maconha está a caminho de ser legalizada. Um dia, talvez, o mundo dos esportes siga o exemplo.

Afinal de contas, tudo isso já aconteceu antes. Em 1973, o Senado americano realizou audiências para investigar o uso de drogas por atletas. Entre os especialistas ouvidos estava Lawrence Golding, médico da Universidade de Kent que havia estudado os efeitos de drogas proibidas no desempenho esportivo, sobretudo anfetaminas, uma das primeiras drogas proibidas pelo Comitê Olímpico Internacional. Segundo Golding, atletas usam essas substâncias porque querem vencer. Em uma entrevista subsequente, ao ser perguntado sobre como coibir o uso, Golding respondeu: "a lei seca nunca nos impediu de beber whisky".

Tradução: Flavio Taam