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Outros

Los Guerreros

As gangues da Cidade do México e de NY não eram tão diferentes.
22.2.13

Montagem feita a partir de fotos de arquivo encontradas, 2007

Em 1979 estreou The Warriors – Os Selvagens da Noite, um filme de Walter Hill sobre gangues de Nova York. Cyrus, líder do grupo mais poderoso da cidade, os Gramercy Riffs, convoca todas as gangues do pedaço para se reunir num parque no Bronx com a ideia de se organizarem e superarem as diferenças para que, juntos, conseguissem controlar toda a cidade. A maioria das gangues parece estar de acordo, mas Luther, líder dos Rogues, mata Cyrus e consegue fazer todo mundo acreditar que o responsável pela morte não era ele, e sim o líder dos Warriors. A partir daí, os Warriors fazem uma viagem de volta até Coney Island, no extremo oposto da cidade e, nesse percurso, várias gangues se enfrentam, todas com nomes inacreditáveis, como Turnbull ACs, Orphans, Baseball Furies, Lizzies, Punks e, por fim, os Rogues. Cada uma das gangues tinha um estilo muito específico – coisa que, na época, impunha respeito, mas hoje mais parece fantasia de Halloween. A violência, os diálogos e as situações parecem um tanto caricatas hoje em dia, mas, naquele momento, quando as gangues eram um problema real em Nova York, isso tudo representava algo muito diferente. Na época da estreia, por exemplo, a crítica torceu o nariz para o filme, enquanto os cinemas tiveram alguns problemas com gangues que queriam assisti-lo. O sucesso imediato foi moderado, mas, com o passar dos anos, ele acabou se tornando um clássico cultuado da história do cinema.

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Carlos Amorales, um dos artistas contemporâneos mais reconhecidos no México e cofundador do selo Nuevos Ricos, é fã de The Warriors e teve a ideia de pesquisar como se distribuíam as gangues da Cidade do México mais ou menos no mesmo período do filme. Junto com uma equipe de pesquisadores, ele esmiuçou jornais e arquivos fotográficos em busca de imagens de gangues de jovens, que foram comparadas com quadros do filme. As coincidências são incríveis e, para defeños como eu, é no mínimo divertido imaginar uma gangue de Bondojito voltando para seu bairro desde Santa Maria Acatitla, com passagem garantida pelos bairros de Peralvillo, Tepito e Aragón.

Enquanto o Carlos terminava uma residência artística no antigo ateliê de Alexander Calder na França, desenhando e escutando discos antigos do Earth, falamos com ele por telefone sobre esse projeto relacionado ao filme.

O mapa indica como se distribuíam as gangues na Cidade do México nos anos 1980, de acordo com o mapeamento de Héctor Castillo Berthier.

VICE: Cerca de dois anos atrás, me lembro de você dizendo que queria fazer um projeto relacionado ao The Warriors, mas era algo diferente, tipo um remake ou coisa assim. Como isso acabou se tornando um projeto de fotografia?
Carlos Amorales: Junto com os assistentes que trabalham no meu ateliê, fiz uma pesquisa sobre o que foi o fenômeno das gangues jovens. Apesar de termos idades diferentes (alguns deles são até dez anos mais novos que eu), todos fomos tocados por esse fenômeno de alguma maneira. Um porque vivia na Ciudad Neza, outro porque era grafiteiro, outro porque gostava do rock da época e assim por diante. Cada um foi buscar informações sobre as gangues de um jeito diferente, até que acabamos chegando no The Warriors, do Walter Hill, mais conhecido no México como Los Guerreros. Primeiro cogitamos fazer um remake do filme com o nosso encanador, que tinha sido de uma gangue e é fã do filme, mas felizmente esse plano nunca saiu do papel.

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Por que você se interessou pessoalmente pelas gangues do México?
Quando elas surgiram, no começo dos anos 1980, foram a primeira subcultura que me instigou a acompanhar de perto, algo como o movimento punk mexicano, mas totalmente vindo do proletariado. Na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo, o punk começou com o proletariado, mas, de alguma maneira perversa, acabou influenciando o mundo da moda e tornou-se parte da cultura de massa. No México, por outro lado, essas gangues nunca se tornaram vendáveis, foram sempre uma subcultura muito pura, com seu próprio niilismo e a crença de que o futuro não existia. Por isso elas sempre me chamaram a atenção e, desde a adolescência, povoaram minha fantasia. Muito depois disso, me lembrei de estar viajando com meus pais no banco de trás do carro e, quando ficava entediado, reparava nas pichações das gangues pelas ruas. Acabou me ocorrendo que, se alguém documentasse a localização das pichações nas ruas, poderia ter um mapa das gangues e conhecer o território de cada uma delas.

Comentei isso com meu sogro, o Roberto Eibenschutz, que é urbanista, e ele me disse que conhecia um sociólogo que tinha feito um mapeamento disso na época. Foi o Héctor Castillo Berthier que, a partir do mapa, fez um programa de rádio que acabou dando origem ao Circo Volador, um centro cultural importantíssimo para subculturas na Cidade do México. Observando esse mapa feito por ele, notamos a existência de muitas gangues com nomes meio parecidos — Los Guerreros, The Warriors, Sex Guerreros, Sex Warriors etc. Isso foi o elemento-chave que nos alertou sobre a importância do filme.

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O que mais te interessa no filme?
Na verdade, só fui assistir ao filme há pouco tempo, já adulto. Desde moleque sabia que o filme era um clássico, imaginava que fosse pesadíssimo, mas vendo depois de grande, me dei conta de que é um filme bastante ingênuo, quase como Grease. Claro que tem coisas ótimas, é baseado num livro de Sol Yurick, que, por sua vez, é inspirado no clássico grego Anábase, de Xenofonte. Histórias gregas nunca falham.

Este projeto é muito diferente de seu trabalho de artista plástico e das performances que você faz há anos. Pode-se dizer que seja um novo rumo cada vez mais presente na sua obra?
A história sempre me interessou e sempre quis encontrar sentido nas coisas que faço. Por isso me interessa pesquisar sobre personagens ou momentos importantes da minha própria história. Quando fiz o trabalho do lutador Amorales, por exemplo, fui entrevistar o Superbarrio e convidei o cara para dar umas palestras na Holanda, onde eu morava na época. Também me chamou a atenção o período do terremoto de 1985, porque o episódio acabou levando a uma espécie de anarquia que, a meu ver, teve muita influência no pensamento da minha geração. Trabalhei com fotos documentais porque, no final, foi o que restou de mais interessante da época das gangues — tem pouquíssima literatura a respeito e, às vezes, o conteúdo é muito alarmista. Depois de quase trinta anos, os livros que restaram são uma porcaria, mas as fotos continuam maravilhosas. Foram tiradas por alguns dos fotojornalistas mais importantes do México quando eles ainda eram jovens e cheios de energia.

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Esse projeto tem bastante a ver com o espírito do trabalho que você e o Julián Lede faziam com o selo Nuevos Ricos, não?
Sim. Em termos de estilo, não tem nada a ver, mas o espírito, totalmente. O Nuevos Ricos era tão punk e fuleiro quanto as gangues, e isso foi o mais legal, porque até os punks de verdade desprezavam a gente.

No meio disso tudo, o que aconteceu com o Nuevos Ricos?
Resolvemos matar o selo porque nos demos conta de que era mais importante mantê-lo como uma boa lembrança do que como um projeto de dois velhotes apegados. Não queríamos que acontecesse como acontece com a maioria das bandas de rock mexicanas, que o pessoal parece mais ser primo do Chaves do que roqueiro de verdade.

Como foi o processo de pesquisa desse projeto?
Primeiro, reunimos o máximo de material possível, com cada um procurando à sua maneira. Depois disso, o trabalho ficou mais especializado. Encontramos verdadeiras joias, como fotos pessoais feitas por gangues ou a coleção de flyers de shows de rock do Edgar, um dos meus assistentes. Também encontramos uma coleção completa de discos de um DJ que tocava uma vertente desse estilo de rock, além do mapa e do arquivo do Castillo Berthier, que é uma verdadeira joia. Mas o mais precioso mesmo foi encontrar a relação entre os quadros do filme e as fotos das gangues mexicanas, que foi onde deu para ver todas as coincidências.

Onde vocês encontraram essas fotos?
As primeiras são de um livro chamado La Banda, el Consejo y Otros Panchos, de Fabrizio León. Depois chegamos diretamente a ele para pedir as imagens dos fotógrafos — Fabrizio León, Pedro Valtierra, Marco Antonio Cruz e Pablo Ortiz Monasterio. Todos eles foram fotógrafos jornalísticos nos anos 1970 e com certeza nem conheciam o filme.

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Imagino que tenham encontrado muitas outras fotos que não entraram no projeto talvez por não terem a mesma composição. Pensa em fazer algo com isso?
Encontramos sim, mas por ora não penso em fazer mais nada com elas. Apesar disso, tem uma foto específica que não entrou e que gosto muito, foi feita pelo Iván, um de meus assistentes. É a imagem de um graffiti feito com graxa para sapato Nugget diretamente na parede. Ou seja, tinha uns jovens tão pobres que não tinham dinheiro nem para comprar a tinta, então acabavam roubando Nugget em casa para deixar suas marcas nos muros. Gosto muito dessa imagem, é superprimitiva e urbana ao mesmo tempo. Quem sabe se a arte contemporânea fosse assim não seria algo mais interessante…

The Warriors, até onde sei, é como se fosse uma paródia da situação de Nova York na época. Talvez as gangues não se vestissem daquela maneira, mas é inegável que havia essa questão de territórios e tribos. De acordo com sua pesquisa, qual era a realidade em Nova York e como isso podia ser comparado à realidade mexicana?
Em Nova York, naquela época, nem os analistas mais pessimistas previam o aparecimento do tal Rudy Giuliani. O México, como a gente já sabe, se tornou pouco a pouco uma das seis regiões de Nova York — Bronx, Brooklyn, Manhattan, Queens, Staten Island e México. Na minha pesquisa, a relação entre as diferentes regiões de NY e o México era praticamente a mesma — falava-se espanhol e às vezes inglês, rock e salsa dominavam o som. Acho que apesar da repressão nacionalista do governo e dos intelectuais mexicanos nos anos oitenta, quando moleque a gente se identificava com o movimento punk de outros lugares e absorvíamos essa pegada internacional sem nenhum complexo.

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Quais bairros concentravam a maior quantidade de gangues e como elas se chamavam?
Em Neza e em Santa Fe — nesta, antes havia gangues, agora tem a molecada da Ibero. Encontramos centenas de gangues no mapa de Castillo Berthier, mas perto de onde fiz o colegial tinha uma gangue chamada Los Espaguetis, acho que esse nome é imbatível.

O que eles faziam? Realizavam só pequenos roubos ou eram grupos mais organizados com objetivos mais ambiciosos?
Eles só apavoravam, ouviam rock, usavam drogas, transavam e roubavam um pouco para sobreviver… Só coisas nobres. Até que parte deles se politizou e entrou para o PRI (Partido Revolucionário Institucional). Depois disso, criaram o Conselho Popular Juvenil, que foi o começo do fim do movimento.

As gangues das fotos incluídas no projeto são de quais bairros ou colônias?
Bom, tem fotos de Ciudad Neza, de Santa Fe e da Unidad El Rosario. Quando apresentamos as fotos no ano passado, na Cinemateca Nacional, um cara do público reconheceu seu primo numa das fotos. Foi muito divertido, ele ficou meio de cara.

Você acha que essas gangues eram influenciadas pelo look ou pela maneira como as gangues gringas se organizavam?
Com certeza! Sem dúvidas eles copiaram o que viram no The Warriors e misturaram com um pouco de Sex Pistols, Ramones e Kiss. Sem nada de lã, mas com um bom tanto de rebites. Não tinham nada a ver com os Folks, nem com os Bloods e os CrIps. Ou seja: não tinham nada a ver com o hip hop e a cultura negra, era uma cultura cem por cento roqueira, white trash. Paradoxal, não?

Você se lembra de algum outro filme que mostrava essa realidade nos EUA? No México só consigo pensar em Os Esquecidos, apesar de não ser exatamente da mesma época… Algum outro filme mexicano?
Nessa época, além de The Warriors, teve também Fuga de Nova York e Mad Max. O clima já era meio apocalíptico e viver sem grana era bem visto. Os heróis dessa época não tinham vestiário no camarim e não trocavam de roupa durante todo o filme, não sei nem se chegavam a tirá-la em algum momento.

Mas todo o imaginário vem de James Dean e Marlon Brando. Os Esquecidos é um filme para gente culta e cheia de culpa, ninguém fica querendo ser o El Jaibo depois de ver o filme. É essa a diferença: por mais que sejam filmes que tratam de temas similares sobre a alienação da juventude, poucos têm a capacidade de desencadear movimentos de massa e influenciar verdadeiramente os jovens. Para mim, filmes como Rebelde Sem Causa e The Warriors funcionam realmente em outro patamar. Mais que filmes, são criadores de uma mitologia. A sacada do The Warriors é não mostrar nenhuma realidade, e sim uma fantasia absolutamente kitsch que justamente por isso despertou a atenção dos jovens da época e os fez interpretar isso na realidade. Não sei se foi o caso para você, mas, para os jovens mexicanos da década de oitenta, o país e a sociedade eram um verdadeiro chiqueiro. Todos nós imaginávamos que o mundo lá fora fosse muito melhor. Em minha opinião, a influência do The Warriors e do que veio a se tornar o movimento das gangues de jovens foi a única maneira que muitos deles encontraram para aguentar a vida no México até que cresceram e foram obrigados a se integrar, de alguma forma. Na verdade, está faltando aí um bom filme sobre esse tema, não acha?