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'Orange Is the New Black' Explora a Maternidade Atrás das Grades na Terceira Temporada

Enquanto a última temporada se concentrou no tropo televisivo do “Grande Mal”, na forma da manipulativa Vee, os novos episódios abordam lutas relativas à maternidade, em todas as suas formas e contextos.

Kate Mulgrew como Galina Reznikov e Selenis Leyva como Gloria Mendoza em Orange Is the New Black. Foto cortesia da Netflix.

Aviso: o texto a seguir contém pequenos spoilers.

Durante um flashback da nova temporada de Orange Is the New Black, um adolescente ameaça se jogar do telhado de sua escola, enquanto colegas estudantes se juntam lá embaixo.

"Vou bombar em Matemática e Civilização Ocidental!", ele grita.

Alguém no meio dos espectadores grita de volta "Vamos todos bombar em Civilização Ocidental!". É uma fala engraçada de um estranho sem rosto, mas esse sentimento encapsula muito do tema da série da Netflix: o fato de que o número de mulheres nas prisões cresceu impressionantes 800% nas últimas três décadas nos EUA. Isso era algo pouco falado até a revelação de um Cavalo de Troia – como a criadora do programa, Jenji Kohan, chama a personagem branca e loira Piper Chapman, baseada no livro de memórias de Piper Kerman – para fazer o público se importar com as histórias de mulheres negras, latinas e mais velhas.

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Enquanto a última temporada se concentrou no tropo televisivo do "Grande Mal", na forma da manipulativa Vee, os novos episódios tomam uma abordagem mais discreta e íntima. Lutas relativas à maternidade, em todas as suas formas e contextos, são o tema central que une toda a narrativa. (Pelo menos até agora: a Netflix só liberou os seis primeiros episódios para a crítica.) O primeiro episódio começa com Litchfield realizando um evento de Dia das Mães, em que os filhos das detentas podem entrar na prisão para uma festa no pátio, plantando as sementes das histórias que virão.

Considerando que mais da metade das mulheres presas nos EUA são mães de crianças menores de 18 anos (de acordo com os últimos dados disponíveis, de 2007), já era hora de a série mergulhar no tema.

"Durante as horas de visitas, até crianças pequenas devem permanecer quietas em suas cadeiras."

"Foi muito bom ver que iríamos abordar a maternidade, ainda não tínhamos feito isso", disse a atriz Selenis Leyva, que faz Gloria Mendoza, chefe da cozinha da prisão e figura materna para a população latina de Litchfield. Na nova temporada, descobrimos que ela não via seu filho Benito há dois anos e meio; e, quando ela insiste que ele finalmente faça uma visita, somos apresentados a um adolescente mal-educado, muito distante do garotinho fofo que apareceu no episódio de flashback de Mendoza na temporada passada. Tentando fazer o moleque se emendar, ela exige que ele comece a visitá-la toda semana para fazer a lição de casa na frente dela, mas Benny não tem como fazer a longa viagem até Litchfield regularmente. Então Gloria faz um arranjo com Sophia (Laverne Cox) para que seus filhos façam o caminho juntos, mas parece que as coisas não dão muito certo depois disso.

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"Tive uma cena muito exaustiva com Laverne", Leyva me contou pelo telefone. "Estou curiosa para saber como isso vai se desenrolar. Mas é uma cena crucial para as duas personagens e toda nossa jornada como mães. Ainda precisamos ver em que ponto isso vai dar, e isso tem suas próprias consequências. É tipo: 'Oh oh, a mãe está chateada', então isso meio que ressoa em todas as suas filhas da cadeia."

Selenis Leyva como Gloria Mendoza em Orange Is the New Black. Foto cortesia da Netflix.

Mãe de uma pré-adolescente, Leyva tem a maior empatia por mulheres na posição de Mendoza. "Eu sei que significa muito que minha filha possa voltar para casa, depois de um dia de minidramas em sua vida, e discutir isso comigo", ela afirmou. "Só posso imaginar como é difícil, como é terrível para Gloria ter filhos do lado de fora. Mesmo que eles estejam sob os cuidados de parentes, não é fácil."

A ex-presidiária da vida real Joanne Archibald concorda. Ela me falou que é fã de OITNB, mas acredita que a abordagem da série sobre a maternidade "tem sido um dos pontos fracos". A história pessoal de Archibald espelha muitos dos elementos da vida de Piper Chapman. Enquanto estava na faculdade, Archibald, sem nem saber que suas ações poderiam ter consequências muito sérias, foi detida portando drogas entre Estados para alguém de quem ela era próxima. (Outro fato triste sobre as prisões norte-americanas: dois terços das mulheres são presas por crimes não violentos.) Depois de ser pega num aeroporto, ela foi sentenciada a um ano e um dia numa prisão federal, logo quando seu filho estava completando sete meses de vida.

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Archibald tinha 24 anos na época e teve muita sorte nesse assunto. "Eu tinha uma amiga próxima que fez uma coisa incrível por mim", ela me disse por telefone. "Ela se ofereceu para se mudar até a cidade da prisão onde eu estava [para ajudar a criar o bebê]. Ela era totalmente livre na época, mas resolveu cuidar de um bebê numa cidade onde ela não conhecia ninguém fora eu, que estava presa."

Uma situação quase inédita, baseada num alto nível de devoção por parte da amiga. Por causa disso, Archibald pôde manter uma relação com o filho naquele ano formativo de sua vida. Não que tenha sido tarefa fácil. Durante as horas de visitas, até crianças pequenas devem ficar quietas em suas cadeiras.

"Fazer uma criança ficar sentada por uma hora ou duas não é fácil!", ela riu. "Crianças querem se mexer, e você é repreendida. Os guardas diziam: 'Se você não consegue fazer ele ficar parado, ele vai ter que sair'."

Joanne Archibald e seu filho, David.

E, depois de cada visita, ainda há a revista íntima. "Algumas pessoas fazem seus familiares irem embora mais cedo para que eles não tenham de ficar na fila depois, que é a pior coisa." Archibald descreveu que a fila é tensa e silenciosa: todo mundo espera para ser fisicamente humilhado enquanto pensa no ente querido que está voltando para dentro da prisão.

"Você vê que muitos carcereiros não queriam estar fazendo isso", ela ponderou. "Mas alguns parecem gostar de humilhar as pessoas. É nojento."

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O processo era tão traumático que algumas colegas de Archibald pediam que seus familiares parassem de visitá-las para evitar a repetição da experiência regularmente. Os guardas exercitam controle, enquanto as mães perdem o delas. E, em OITNB, esse sentimento de impotência se espalha pelas relações com as outras detentas.

"Mendoza pegou todas essas mulheres e garotas e decidiu: 'Vou tomar conta delas, vou fazer o que não posso fazer pelos meus filhos lá fora'. E ela precisa disso: ela precisa tomar conta delas para manter alguma sanidade", teorizou Leyva.

No caso de Archibald, a amiga responsável pelo filho fez o melhor possível para que ela se sentisse incluída na criação dele. "Ela realmente se esforçou para que eu sentisse que tinha algum controle quando, na verdade, eu não tinha nenhum", ela lamentou. "Por exemplo, quando ele tinha uma gripe, ela me perguntava o que devia fazer. Eu sabia muito bem que ela sabia o que fazer."

Hoje, Archibald trabalha para a womenandprison.org coletando histórias pessoais de detentas e ex-detentas, além de catalogar notícias sobre as experiências de mulheres no sistema judicial criminal. E Leyva faz trabalhos com a Women's Prison Association.

"No começo do ano letivo, fornecemos mochilas com material escolar para as mulheres do programa que têm filhos indo à escola", ela informou.

Se você é realmente fã de OITNB, explore essas organizações para ter uma ideia melhor do mundo real por trás da série – e, se possível, doe algum tempo ou dinheiro para a causa delas. Considere isso um ponto na média para não bombar em Civilização Ocidental.

A nova temporada de Orange Is the New Black estreou ontem no Netflix. Para saber mais sobre a Women and Prison, um site, uma instalação e o zine, todos criados inteiramente a partir do trabalho e das vidas de mulheres norte-americanas encarceradas, acesse o site delas. Para saber mais sobre a Women's Prison Associaton, um grupo de apoio para mulheres em todos os estágios de envolvimento com a justiça criminal, clique aqui.

Joshua Lyon é o autor de Pill Head. Siga-o no Twitter.

Tradução: Marina Schnoor