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Eugenio Puppo: Em 1999 estava fazendo uma pesquisa sobre o Cinema Marginal brasileiro, que resultou na Mostra Cinema Marginal realizada no CCBB no ano seguinte. Frequentava o Cinesesc com o Rogério Sganzerla e a gente sempre saía pra tomar uma cerveja e conversar sobre cinema. Nós fomos ao relançamento do livro do Jairo Ferreira, Cinema de Invenção, e o Candeias estava lá, nós fomos apresentados e fiz minha primeira entrevista com ele. Continuamos nos falando e trocando material. No ano seguinte fui até a Boca do Lixo e sugeri que fizéssemos uma mostra com seus filmes. Ele não acreditava que podia dar certo, que o público poderia se interessar pelo seu cinema. Quando a mostra estava acontecendo (no CCBB), ele notou o prestígio do pessoal que estava assistindo seus filmes – apresentamos quarenta deles, e ele próprio passou a frequentar o evento, com discrição, mas esteve presente lá.Você vê diferença no público que consumia aquele cinema na época em que ele estava sendo realizado para o público de hoje?
Sim, o público era menos alienado. Hoje nós temos vários meios de comunicação disponíveis e vemos que a tendência é a superficialidade de linguagem. Durante a ditadura as projeções eram feitas de maneira clandestina, tudo escondido. E hoje você vê que o público fica abestalhado quando veem esses filmes – porque ainda há muito que entender dessa linguagem. Tudo era mais intenso, mais humano, mais sujo. O cinema hoje é asséptico, quer ser internacional.
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Sim. E a miséria também era maior. Era o público que eles queriam conquistar. Eles imergiam nessa abordagem da miséria. A mensagem era o que importava. Tudo tinha mais profundidade.Hoje, se você experimenta muito, seu filme corre o risco de não passar na TV, não ser exibido. Se um filme tem três horas ele precisa desse tempo para transmitir sua mensagem, você não pode interromper isso, e as pessoas acabam desistindo de produzir algo mais intenso por isso. As decisões dominantes hoje são decisões mercadológicas. Porém, qual é o sentido dessa preocupação de público? Essas preocupações deviam ser reservadas apenas para empresas como Globo Filmes, O2. E isso não é só no Brasil e não só no cinema. Recentemente fui à palestra do Peter Greenway na Sala São Paulo e ele comentou sobre a BBC de Londres, que tinha como proposta a educação e hoje é entretenimento.

Sim. Os filmes que foram selecionados eram de um apelo mais sexual, mas também foram exibidos outros que não tinham apenas essa temática, como Orgia, o homem que deu cria. O que esses filmes têm que chamam a atenção do público, e não só lá de fora, é a irreverência, o que o cinema não tem mais hoje.
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O Candeias sempre se colocou na condição de marginal e muitas vezes ele não dava muita importância para si, mas acho que era para não ter que se explicar tanto, sabe?
Ele criou uma documentação sem muito critério, registrando as situações que ele vivia na Boca e nos seus arredores. Ele começou a fazer isso quando percebeu que aquela gente estava unida, trabalhando para um público que eles estavam conseguindo atrair. Mas pra mim ele era um perfeccionista, os ângulos que ele tirava aquelas fotos eram pontos de vista criteriosos, ele usava rolos de filmes ASA 100, ASA 50 em suas câmeras Exakta 50mm e Nikon, para registrar as atrizes, os diretores, os equipamentos, as prostitutas que passavam por ali, o Parque da Luz. Na verdade o Candeias queria fazer um catálogo da Boca do Lixo com esses documentos.
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A crítica achava curioso o fato de ele ter sido caminhoneiro e ter se interessado pelo cinema. E esse interesse dele surge quando ele vê que os grandes estúdios estão fechando em São Paulo. Ele estudou no Seminário de cinema do MASP entre 1955-57 e passou a devorar os manuais. O Candeias era um cara que abria a câmera pra ver como ela funcionava. E isso começou a chamar a atenção da crítica: como um ex-caminhoneiro pode fazer filmes com tal profundidade, e a classe mais humilde se identificava com as questões que ele abordava nos filmes.

Horário de visitação: Terças a sextas, das 12 às 21h Sábados, domingos e feriados, das 11 às 20h
Local de exibição: Espaço Expositivo, 2º andar
Entrada: R$ 4 (meia entrada para estudantes)
O MIS fica na Avenida Europa, 158, São Paulo - SP
Telefone: 2117-4777 Quem estiver interessado em saber mais sobre Ozualdo Candeias e o cinema da Boca do Lixo pode acessar a página do cineasta no Portal Brasileiro de Cinema.Dentre os novos lançamentos da coleção de Cinema Marginal da Heco Produções está com um DVD com os filmes Meu Nome É Tonho, Zézero e A Visita do Velho Senhor, de Candeias.Ainda esse ano o Eugenio pretende lançar seu documentário Ozualdo Candeias e o Cinema, o site do projeto é esse aqui: www.ozualdocandeias.com.br