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Hugo Moura: Tudo começou em 2009 com o trabalho de conclusão do curso de jornalismo. Naquele ano, comemorava-se os 30 anos do filme Império dos Sentidos, exibido no Brasil em 79. Até ali, nenhum filme brasileiro de sexo tinha sido levado às telas. Isso nos deixou inconformados. Pela internet, descobrimos que o primeiro filme pornô brasileiro tinha sido o Coisas Eróticas. Mas não havia mais nada na Internet sobre o filme! E aí começamos a investigar e, para a nossa surpresa, havia uma história genial por trás de tudo isso. E falar sobre a Boca do Lixo, em geral, foi um prazer. É nosso cinema. Marginal, esquecido por muitos, mas foi dali que muita gente – que anda por aí em novelas, inclusive – saiu. Denise Godinho: Em 2009, o Brasil era um dos maiores produtores de filme pornô do mundo. Em que momento essa história tinha mudado? Pelo Google encontramos em alguns blogs que o primeiro pornográfico havia sido dirigido pelo Raffaele Rossi. Mas muito pouco se falavam sobre a história do filme e seus bastidores.

Hugo: Pra mim, a maior dificuldade foi encontrar os atores, atrizes e produtores que participaram de Coisas Eróticas. Isso porque eles não fizeram parte do lado mais conhecido da Boca. Se a Boca era, de alguma maneira, underground, o grupo do diretor Raffaele Rossi era o lado B do underground. Além disso, vários deles usavam nome artístico! Depois o desafio que surgiu foi o de convencer essas pessoas a relembrar algo que fizeram 30 anos atrás. Em alguns casos, a família daqueles que participaram do filme não fazia ideia. Então é um tema delicado para quem trabalhou no primeiro pornô brasileiro. Hoje, os atores e atrizes são pais e alguns até avós. Outra é casada há anos sem que o marido não saiba que ela participou disso. O grau de intimidade teve de ser grande para as conversas que tivemos com os atores.
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Hugo: O Raffaele torrou pelo menos metade do que ganhou com Coisas Eróticas no time de futebol de salão que se chamava Grêmio Recreativo Rossi. Ele montou um time de estrelas e trouxe jogadores até do exterior para a agremiação. Ele gostava muito de futebol e, apesar de a família não o apoiar em nada neste lado do esporte, continuou em frente e, infelizmente, deu no que deu. A grana acaba… Não tem jeito. Mas conta-se que ele pagava salário mais alto até do que times grandes Até fretou um avião para levar o time para jogar pela América do Sul. Só isso deve ter saído uma grana preta.
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Hugo: O Coisas Eróticas é mal visto. E está completamente esquecido - por estudiosos, cinéfilos, pesquisadores. Ele é o patinho feio do cinema. Patinho feio do pornô. Episódio inédito eu não sei dizer, porque não sei o que é inédito. De verdade. Porque basta dar um Google pra ver que praticamente não se fala sobre o filme. Há textos perdidos em alguns poucos blogs e é tudo. O livro fala de onde o Raffaele começou, quando ele chegou ao Brasil - o cineasta é italiano -, como começou na área cinematográfica, como teve a ideia para o Coisas Eróticas. O livro conta toda a história do filme. Como foi o convite aos atores, a vontade em fazer um filme de sexo explícito, o estouro de sucesso que foi, o Cine Windsor, os atores e produtores hoje em dia… O final de vida do Raffaele. Tem tanta coisa que era obscura sobre o filme e acredito que o livro vai trazer luz para esses episódios obscuros.
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Hugo: Coisas Eróticas apareceu numa época em que não havia videocassete ou internet. Os jovens de hoje podem consumir pornografia com um computador. Os pais podem ficar sem saber pra sempre porque existe computador pessoal. Daí, de repente, um cara, durante a ditadura militar, consegue fazer passar pela censura um filme pornô. Depois, coloca nos cinemas e lota sala dia e noite, noite e dia. E por quê? Porque as pessoas queriam ver sacanagem. Não tinha nada além de revistas pornô nas bancas - que deviam ser vendidas em sacos de pão para ninguém ver - ou pornôs estrangeiros que eram vistos clandestinamente em Super-8. O público pôde assistir sexo pela primeira vez.Coisas Eróticas contribuiu para acabar com um tabu imbecil de que sexo não podia ser mostrado. E derrubou hipocrisias, também, do regime militar, que abriu as pernas - num trocadilho bobo - para a putaria. Nos Estados Unidos, por exemplo, o primeiro pornô a ir para o cinema foi Garganta Profunda, em 1972. No Brasil, Coisas Eróticas só se viu projetado numa tela de cinema em 82. Quer dizer, dez anos depois! Estávamos atrasados.
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