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A história de uma mulher que escapou ao terror do Boko Haram

A VICE News esteve no Norte da Nigéria, onde uma vítima do violento grupo terrorista conta como conseguiu ser libertada, juntamente com os seus cinco filhos, fingindo ataques de loucura.

Por Sally Hayden
05 Maio 2016, 1:30pm

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma VICE News.

"O meu marido foi morto à minha frente. Foi massacrado por 10 homens", lembra Naime Buba. "A minha casa foi incendiada. Muitas pessoas foram mortas. Muitos homens". Ela está sentada por baixo de uma ventoinha, numa cadeira de plástico com as palavras "Graça de Deus" pintadas atrás. Fora da pequena sala da recepção, a temperatura atinge uns escaldantes 43ºC. Para Buba, este abrigo oferece um momento de alívio do acampamento empoeirado e quente que agora é a sua casa, partilhada com outras 5.500 pessoas. Estamos num acampamento montado pelo Governo em Maiduguri, Nordeste da Nigéria. Apenas um dos locais formais e informais para os cerca de dois milhões de pessoas deslocadas da região onde viviam.

Buba é apenas uma das vítimas da insurgência que dura já há sete anos levada a cabo pelo grupo militar islâmico Boko Haram — actualmente considerado o grupo terrorista mais mortífero do Mundo. A sua cidade, Bama, foi atacada várias vezes, com o Boko Haram inicialmente a visar os quartéis militares locais e, depois, a utilizá-los como base para a tomada do resto da cidade em Setembro de 2014. Buba diz que foi capturada como refém há exactamente um ano e 10 meses. "Muitas mulheres foram sequestradas comigo. A maioria eram da minha localidade", relembra. E acrescenta: "Muitas fugiram antes de eles começarem a sequestrar as mulheres, mas eu estava com meus filhos. Não podia fugir e deixá-los para trás".


Naime Buba na recepção do acampamento do Governo, em Maiduguri, Nordeste da Nigéria. (Foto por Sally Hayden/VICE News.)

Buba tem cinco filhos — de 11, 9, 7, 5 e 3 anos. Foi mantida refém pelo Boko Haram durante três meses, um grupo conhecido pela violência contra as mulheres, incluindo violações sistemáticas e o recurso a crianças em ataques suicidas. A experiência de Buba sustenta os relatos de outras ex-reféns. "Muitas mulheres eram obrigadas a casar e as que resistiam eram mortas", conta.

Durante aquela época, os terroristas solidificaram o controlo sobre Bama, a segunda maior cidade de Borno — a capital do Estado, Maiduguri, é a maior. O grupo controlou o local até Março de 2015, quando foi derrotado pelo exército nigeriano. Buba diz que durante o tempo em que esteve presa "havia muitos combatentes que moravam na cidade". Quando lhe perguntei como eram, ela respondeu: "Só seres humanos normais, mas com cabelos, caras e cabeças cheios de sujidade. Eles acham que estão a lutar pela causa certa, com respeito ao Islão e esse tipo de justificações".

"Quando comecei a fingir que era louca, deixaram-me ir embora com os meus filhos".

Buba — que também é muçulmana — diz que os membros do Boko Haram não tentaram fazer com que ela se juntasse ao grupo. "Nada assim foi feito. Quando nos sequestraram, colocaram-nos num grande armazém e trancaram os portões. Depois vinham com alimentos e coisas assim; a maioria das mulheres cozinhava para eles".

Buba só conseguiu pensar numa forma de escapar. E explica: "Tive que fingir que era louca, Espalhava sujidade, lama, por cima de mim. Foi difícil convencê-los, tive que usar tudo que tinha à minha disposição. Se tivesse óleo vegetal, por exemplo,usava-o para entornar no meu corpo. Não foi fácil". "Mas acabou por ser assim que me deixaram ficar com meus filhos e soltaram-me porque entenderam não valia a pena manterem-me lá. Quando comecei a demonstrar loucura, deixei de ter valor para eles".

Buba e os cinco filhos caminharam descalços durante três dias, sem comida, até encontrarem um lugar seguro. Os seis estavam a morrer de fome e ela teve medo que não resistissem. "A determinada altura achei que ia perder os meus filhos". Buba mostra os pés, ainda feridos pelos galhos secos e pedras e onde as bolhas dolorosas rapidamente apareceram. "Quando aqui chegámos os meus filhos foram internados no centro médico do acampamento onde receberam tratamento", recorda.

As condições do acampamento em Maiduguri estão longe de ser as ideais e os moradores vivem, literalmente, uns em cima dos outros, sem a mínima privacidade. Quem aqui mora tem duas refeições garantidas por dia: arroz, feijão, farinha de milho e sopa. Buba não recebeu ajuda psiquiátrica - apesar de admitir livremente que acorda muitas vezes a meio da noite, com pesadelos que a transportam de volta para o mato e para o cativeiro.

"Comparado com estar nas mãos do Boko Haram, viver aqui acaba por ser bom", sublinha Buba, apesar de nem sequer conseguir imaginar, como muitos, quando será seguro voltar para casa. O Governo está inclinado a deixar as pessoas deslocadas voltarem para as suas localidades, mas várias ONGs que operam na região dizem que é demasiado perigoso. Durante uma visita ao Nordeste da Nigéria em Abril, a VICE News ouviu vários relatos de mortes e sequestros que ainda estão a acontecer nas áreas mais rurais da região.

"Espero que as coisas melhorem para que eu possa voltar", conclui Buba, apesar de não saber como vai sobreviver quando isso acontecer. Se acontecer. "Antes tinha o apoio do meu marido. Vivíamos do que ele trazia para casa. Agora, não tenho a certeza do que vou fazer quando voltar".

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