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O Que Tá Pegando, Jacarta?

Trabalhei em alguns jornais durante os últimos cinco anos, mas nunca tinha escrito ou editado a frase "entende-se que o oficial morto foi estripado". Foi um dos primeiros registros do motim que atingiu Jacarta no último dia 13.
20.4.10

Trabalhei em alguns jornais durante os últimos cinco anos, mas nunca tinha escrito ou editado a frase “entende-se que o oficial morto foi estripado”. Foi um dos primeiros registros do motim que atingiu Jacarta no último dia 13. Centenas de manifestantes, convencidos de que a prefeitura estava prestes a demolir um túmulo sagrado perto do porto de Koja, em Tanjung Priok, reuniram-se às 6h da manhã para fazer frente à cerca de 2000 oficiais da ordem pública (uma força de segurança tipo a polícia, mas que trabalha para uma outra esfera da administração da cidade) que apareceram na área, acompanhados de duas escavadoras.

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Não se sabe quem atirou a primeira pedra, mas por volta das 7h o local já tinha virado um campo de batalha. Manifestantes vieram preparados com machados e foices que usaram contra oficiais e, mais tarde, contra a polícia.

Coquetéis molotov voaram de um lado para o outro, transformando cerca de 60 veículos de emergência em montes de borracha e metal fumegantes, incluindo o canhão enorme de água que a polícia usava para tentar dispersar a multidão.

Já pela tarde, o número de insurgentes tinha chegado a milhares, e as quatro televisões na minha redação estavam transmitindo imagens ao vivo de corpos mutilados no chão rodeados por grupos de pessoas atirando pedras nas suas cabeças.

Como revisor de texto num dos jornais diários de língua inglesa na cidade, já tinha lido sobre um oficial que teve seu braço cortado e um revoltoso atacado por policiais vingativos que amarraram suas mãos, tiraram sua roupa e o espancaram até arrebentarem a sua cabeça. Mais tarde, grupos de manifestantes armados com paus entraram no hospital procurando se vingar dos oficiais que pudessem estar lá recebendo tratamento. Os funcionários do hospital evacuaram esses oficiais pelo mar, logo à saída do porto.

Preso na redação, no centro da cidade, o caos televisionado podia ter acontecido do outro lado do mundo, em Nova York, mas gritos de indonésios reunidos ao redor de televisões me lembravam que o que eu estava vendo estava acontecendo ali do lado.

Talvez por eu ser um estrangeiro por aqui ainda seja difícil compreender porque existe tanta animosidade entre o governo e seus cidadãos. A Indonésia tem uma longa história de conflitos religiosos, mas este não é bem um deles. As pessoas que governam a cidade e o país rezam para Meca cinco vezes por dia, igualzinho aos manifestantes.

Há alguma raiva acumulada que deve ir além de um simples monumento. Porra, o corpo de Mbah Priok – o defunto que deveria fazer do tal túmulo sagrado – foi movido para outro lugar em 1997. Talvez esta raiva venha da incrível disparidade de riqueza – metade do país vive com menos de US$ 2 por dia. Talvez as pessoas estejam cansadas de serem controladas por uma força policial que dizem estar à venda para qualquer um que tenha US$ 5 no bolso.

Ao fim do dia, reportamos dois mortos e 144 feridos, e a expectativa era de que esses números aumentassem. A noite caiu sobre veículos ainda em chamas numa zona da cidade que havia sido entrincheirada e da qual todas as forças policiais foram evacuadas. Manterei vocês informados.