​Brasileiros criaram um mapa colaborativo para caçadores de cogumelos mágicos

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​Brasileiros criaram um mapa colaborativo para caçadores de cogumelos mágicos

A motivação é 100% científica, acredite.
16.6.16

Há umas semanas, por interesse puramente científico, alguns membros de nossa equipe resolveram pesquisar sobre cogumelos psicoativos em fóruns obscuros da internet. No meio da expedição, encontramos um ambicioso mapa colaborativo em que anônimos da comunidade de caçadores de cogumelos compartilham a localização de diferentes espécies e trocam dicas para coleta e cultivo. Funciona quase como uma incipiente enciclopédia brasileira de fungos.

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Algumas peculiaridades tornam os caçadores de cogumelos diferentes de qualquer comunidade de analistas de substâncias psicoativas. A primeira é que os fungos se espalham de forma espontânea e podem ser encontrados gratuitamente na natureza em diversos lugares do país. Não há necessidade de buscar vendedores na surdina ou criar gambiarras para o cultivo caseiro, embora essas opções sejam populares entre alguns entusiastas. Por outro lado, a natureza é cheia de armadilhas. As semelhanças entre cogumelos psicoativos e seus primos venenosos podem ser grandes. Para um caçador desatento, pequenas sutilezas na coloração dos cogumelos podem fazer a diferença entre uma viagem inesquecível e, digamos, a viagem final.

Suponhamos que você goste do efeito que a cerveja tem sobre o seu corpo e mente. Um dia você acorda e descobre que já não há cervejas nos bares, mas que existem milhares de garrafas gratuitas espalhadas pelo país em locais desconhecidos à espera de serem abertas. Entre elas, porém, há garrafas de veneno bastante parecidas com as de cerveja, exceto por pequenas diferenças no formato e no rótulo.

É mais ou menos esse o mundo em que vivem os consumidores de cogumelos psicoativos – ou cogumelos mágicos, como gosta de dizer quem já experimentou o seu efeito. Essa combinação de risco e fascínio motivou a criação de inúmeros fóruns e comunidades na internet para compartilhar informações sobre a caça, o cultivo e o uso de cogumelos e outras substâncias psicoativas naturais.

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Numa comunidade em que ter informações corretas pode ser um assunto de vida ou morte, o conhecimento deveria circular livremente. Mas também há motivos para manter uma certa discrição.

A psilocibina, presente em alguns cogumelos, está na lista de substâncias proibidas pela Anvisa, embora os fungos em si não estejam na lista. E nem poderiam estar – proibir um cogumelo como o Psylocibe cubensis, que se prolifera espontaneamente em cocôs de vaca por todo o país, seria uma dor de cabeça tremenda para a polícia e poderia colocar na cadeia, por cultivo de substância entorpecente, criadores de gado inocentes que não têm a menor ideia do que é psilocibina.

Vender cogumelos psicoativos pode ser considerado crime, mas há brechas legais que permitiriam, em teoria, a venda de esporos para o cultivo. A troca de informações com interesse científico é livre, mas fazer apologia ao consumo pode ser uma má ideia do ponto de vista legal. E mesmo se essas ambiguidades na legislação não existissem, o estigma social associado ao uso de substâncias alucinógenas seria motivo suficiente para que os usuários preferissem a discrição.

Por essas e outras razões, grupos e fóruns sobre cogumelos mágicos são mantidos em segredo, na medida do possível. Você pode encontrá-los numa busca no Google, obviamente, mas isso não significa que será bem recebido logo de cara. Há veteranos que relutam em compartilhar informações com novos usuários que estão apenas atrás de um barato passageiro, sem vontade de realmente entender melhor o universo dos cogumelos. Alguns usuários mais experientes ajudam os novatos, mas em geral há pouco interesse em organizar e divulgar informações.

O mapa colaborativo dos cogumelos psicoativos no Brasil. Crédito: Reprodução

A natureza discreta dessas comunidades e a escassez de informações na internet são alguns dos motivos que fazem do mapa colaborativo um projeto tão inusitado. Criado em 2015, ele reúne contribuições de alguns dos principais fóruns de usuários e cultivadores de cogumelos psicoativos no Brasil, além de diversos colaboradores anônimos. O projeto começou num documento aberto no Google Docs, que pouco depois deu origem a um mapa com mais de cem entradas detalhando a localização de cogumelos das espécies Psilocybe cubensis, Panaeolus e Amanita muscaria.

Como em qualquer projeto colaborativo sem filtros e sem hierarquia, a qualidade das contribuições varia um pouco. Algumas entradas são bastante superficiais, como "Na cidade de Florianópolis ocorre Panaeolus cyanescens" (boa sorte para quem for procurar). No Google Docs, há engraçadinhos que preenchem o campo "Localização" com "no cuzin" e coisas do tipo ou usem o documento para trocar insultos entre si.

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No meio dessa bagunça, porém, há uma enorme quantidade de informações precisas e úteis para caçadores de cogumelos. "Siga a Av. da Saúde e vire a esquerda após a pequena ponte, numa trilha no meio do mato. Siga a trilha e atravesse o rio por cima do tronco", diz uma das entradas. Aí a tarefa já soa um pouco mais fácil – melhor do que revirar uma cidade como Florianópolis em busca de um cogumelo. Além da localização, o mapa inclui outras dicas importantes, como "a região tem ocorrência de cobra cascavel", "cuidado com os bois, eles são bravos" ou "perto da estradinha os cogumelos são do tamanho de um CD".

"Minha inspiração para criar o projeto surgiu graças às dúvidas de pessoas que queriam se aventurar na experiência e tinham pouco acesso a informações sobre como encontrar e identificar essas espécies", diz Rafael Fernandes, criador do mapa colaborativo. Estudante de ciências biológicas, ele começou a se interessar pelos cogumelos na infância, quando fazia trilhas e caminhadas em regiões de mata fechada. A curiosidade aumentou quando descobriu as propriedades alucinógenas dos "cogumelos mágicos" e a possibilidade de cultivá-los. Seu canal no YouTube tem dicas de cultivo e vídeos mostrando o crescimento de cogumelos em timelapse. O mapa, para ele, é mais uma maneira de compartilhar conhecimento sobre os cogumelos.

"Já passei por muitos lugares com ocorrência desses cogumelos durante saídas de campo, passeios e trilhas. Quando criei o mapa incluí os meus avistamentos para dar o pontapé inicial. O restante dos dados foi contribuição das pessoas que curtiram a ideia e seguiram adiante", diz Rafael. "No começo achei que a ideia não iria pra frente, mas após meses sem verificar o site colaborativo tive a surpresa de ver dezenas de dados incluídos no meu mapa. Isso mostra que cada vez mais as pessoas se interessam pelo tema."

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Muitos dos colaboradores do projeto são anônimo. Outros pouco se importam em guardar segredo. Um deles é Alef Friedrich, administrador de grupos de Facebook e WhatsApp dedicados à psicodelia. "Mesmo com os cogumelos sendo bastante estudados hoje em dia, ainda há muita falta de informação, por isso busco ajudar no que posso", diz Alef. "A motivação vem com cada nova experiência que tenho com os cogumelos, que me ajudaram muito, assim como também ajudam a vários outros." Além de colaborar com o projeto, ele também já usou informações do mapa para reforçar seu repertório. "Eu só tinha a desconfiança dos lugares onde poderia ocorrer a espécie que eu estava procurando, mas com o mapa pude saber exatamente o lugar", diz.

Imagens e dicas compartilhadas por colaboradores do projeto. Crédito: Reprodução

Entre as espécies listadas no mapa colaborativo, a mais fascinante é, sem dúvida, a Amanita muscaria, conhecida em alguns países como "Cogumelo do Papai Noel" devido às suas cores. Suas propriedades alucinógenas inspiraram milhares de lendas e outras tantas histórias verdadeiras. Há fortes indícios, por exemplo, de que a viagem psicodélica descrita em Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, é baseada nos efeitos dela. Outros relatos atestam que o cogumelo teve um papel importante em algumas cerimônias religiosas e era usado pelos vikings para induzir uma fúria incontrolável em seus guerreiros antes do início de batalhas. Também há quem diga que ele é um favorito de russos que querem turbinar o efeito da vodca em suas noites de bebedeira na Sibéria ou até mesmo acrescentar um pouco de proteína a sua dieta, sem se importar com as consequências.

Embora a Amanita muscaria seja descrita como uma espécie venenosa em muitos compêndios de micologia, caçadores de cogumelos mágicos conhecem maneiras de tratá-los para reduzir a potência do veneno, mantendo apenas suas propriedades alucinógenas. Há até técnicas para remover substâncias psicoativas e usar o cogumelo com fins alimentícios. Quem já provou jura que ele tem um sabor amendoado delicioso e fica ótimo salteado na manteiga. Sem tratamento, a Amanita muscaria pode causar náuseas, irritação e até convulsões ou coma em casos mais graves. Um cogumelo pode ser suficiente para matar um animal de estimação, mas seria necessário comer uns 15 para chegar a uma dose fatal para humanos, segundo estudos.

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No Brasil, de acordo com o mapa colaborativo, a Amanita muscaria é encontrada em vários pontos dos estados de São Paulo, Santa Catarina e Paraná. O interesse despertado pela espécie é tão grande que alguns caçadores de cogumelos chegam a planejar viagens para conhecê-la. "Pretendo ir para São Paulo no fim do ano para procurar Amanitas", diz Alef, morador do Espírito Santo. Outros manifestam alguma desconfiança: "Amanita muscaria é uma espécie que me intriga muito, mas do jeito que não está especificada a posição [no mapa] eu não me arriscaria a ponto de ir para outras cidades", diz o analista de sistemas Acauã Pinto, outro colaborador do projeto.

Amanita muscaria, a espécie mais cobiçada pelos caçadores de cogumelos mágicos. Crédito: Pixabay

Aqui cabe um aviso: se você não souber exatamente o que está fazendo, caçar e consumir cogumelos mágicos é uma péssima ideia com consequências potencialmente fatais – mais ou menos como testar um colete à prova de balas. Especialistas dizem que 99% dos cogumelos não contém substâncias tóxicas, mas aquele 1%…

"Ingerir cogumelos sem certeza da identificação pode ser perigoso pois os cogumelos podem ser muito parecidos entre si. Às vezes a diferença entre um comestível e um tóxico é microscópica", diz Rafael. A família do Amanita muscaria, por exemplo, inclui cogumelos com apelidos que não têm nada a ver com o Papai Noel, como "cicuta verde" e "anjo destruidor". Essas espécies contêm toxinas que provocam falência dos rins e fígado. Ingerir apenas um cogumelo pode ser o suficiente para matar. Os sortudos que sobrevivem podem ter de passar semanas no hospital com vômitos e diarreia incontroláveis, tomar um coquetel à base de carvão ativado, usar fraldas geriátricas e entrar na fila de transplantes de fígado antes de finalmente chegar a uma improvável recuperação).

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Diante das consequências graves que a desinformação pode ter para aprendizes de caçadores, é surpreendente que algumas comunidades dedicadas a cogumelos mágicos resistam a projetos como o mapa colaborativo. "Quem realmente gosta do estudo vai dar um jeito de encontrar. Esse 'mapa' só vai atrair fanfarrão, aquele usuário que quer ficar loucão no final de semana", escreveu um membro de um site dedicado aos cogumelos psicoativos, comentando um post sobre um projeto semelhante. "E eu vou querer ver meus cogumelos e meus pastos e meus rings de amanitas sendo invadidos por MILHÕES de loucos que acham NO MAPA do Google as localizações? Não é egoísmo, é instinto de sobrevivência", disse outro usuário.

"Existe uma 'corrente' que circula pelos fóruns e grupos de cogumelos mágicos dizendo que é ruim divulgar pastos com produção de cogumelos, pois isso pode atrair muita coleta e eventualmente extinguir a espécie do local", afirma Rafael. "Esse grupo de pessoas acredita que é possível eliminar o fungo do pasto simplesmente arrancando a sua estrutura reprodutiva. Isso é falta de informação. Muitos dos relatos de pastos supostamente esterilizados devido ao grande número de coletores não passam de falta de entendimento do ciclo natural do fungo."

Rafael completa: "Os cogumelos podem produzir bilhões de esporos, até mesmo trilhões em algumas espécies. Essa alta produção de esporos é responsável pela abundância dos fungos ao nosso redor, pois podem viajar longas distâncias. Faça um teste. Limpe a mesa da cozinha com desinfetante, álcool, cloro, ou a forma que preferir. Depois de 100% limpa, coloque uma fatia de pão sobre a mesa. Em uma semana ela mofa. Os esporos estão por toda parte, mesmo em um ambiente limpo. Sem o auxílio de fungicidas, a eliminação de um fungo de um local assim é impossível."

Uma colônia de Psilocybe cubensis em seu hábitat favorito: pastos cheios de fezes bovinas

O medo da extinção também ignora o fato de que muitos caçadores se preocupam com a sustentabilidade. "Aqui onde moro faço esporulação nos pastos para haver mais colheitas. Faço isso não só para me beneficiar, mas para garantir a propagação, e sempre oriento os caçadores para que eles se conscientizem sobre esse assunto. Jogo os esporos na água mineral, num borrifador, e saio pelos pastos borrifando nos cocôs dos bovinos", diz Alef. Ou seja: além de ser impossível eliminar uma espécie apenas com a coleta amadora, há caçadores preocupados não só em manter essas espécies vivas como também em ajudar a proliferá-las. Isso sem contar que há muitas colônias pouco conhecidas que produzem muito mais cogumelos do que os caçadores da região são capazes de consumir. "Pouca gente coleta e então grande quantidade dos cogumelos acaba se decompondo", diz uma das entradas do mapa, incentivando mais caçadores a visitar o local.

Levando em conta isso e também o evidente risco que é sair para caçar Amanitas sem conhecer bem a espécie, não é difícil concluir que compartilhar as informações em vez de protegê-las é a melhor maneira de manter vivas as colônias de cogumelos – e também os usuários.

Para os caçadores mais dedicados, o interesse em compreender e cultivar os fungos pode até se transformar em profissão. Rafael, por exemplo, dá cursos sobre o cultivo de shitake, shimeji e cogumelos medicinais. Também está começando cultivos em escala comercial de cogumelos para fins alimentícios, usando conhecimentos que adquiriu na época em que cultivava o Psilocybe cubensis. "Já experimentei e cultivei uma espécie que continha psilocibina mas meu interesse nos cogumelos é puramente alimentício e medicinal. Pretendo pagar minhas contas vendendo cogumelos gourmet e espécies diferentes que não são encontradas nos mercados brasileiros."

Nem tudo é interesse prático. Dadas as inclinações espirituais de alguns membros de comunidades dedicadas aos cogumelos mágicos, não é surpresa que alguns deles tenham motivos mais transcendentais para compartilhar informações. "Eu adicionei uma marcação de um local onde numa coincidência descobri uma floresta de pinus onde nascem amanitas. Decidi ajudar outras pessoas a encontrar também, karma consciente agindo", diz Acauã.

"Acho maneiro. Psiconautas são navegadores da psique, cada qual com seu caminho. Ver que tem gente interessada em conhecer a si mesmo, ao universo que existe dentro de si, é realmente gratificante. A internet é apenas uma ferramenta para juntar esse povo. Só obtém respostas quem faz as perguntas e, ainda assim, talvez a resposta seja outra pergunta. Faz-se necessária muita sabedoria no uso, e o mapa é parte nisso."

Ainda que o criador não dê tanta atenção ao mapa desde que começou a se dedicar aos cogumelos comestíveis, o projeto continua avançando por conta própria graças ao esforço de caçadores anônimos nas profundezas do Google Docs. Há alguns dias, Rafael atualizou o documento e incluiu uma convocação para que novos administradores ajudem a manter o mapa em dia. Apesar da reprovação de alguns membros de comunidades dedicadas à psicodelia, a divulgação e a organização de conhecimento sobre o assunto deve continuar a avançar.

Nas palavras de Alef, "é bom saber que estamos evoluindo na questão dos cogumelos mágicos".