Centro de reabilitação no Acre usa ayahuasca para tratar dependentes químicos
Crédito: Marina Lopes

Centro de reabilitação no Acre usa ayahuasca para tratar dependentes químicos

"Para ser sincera, nunca vi meus filhos tão bem. Isso é tudo que eu quero para eles."
3.11.16

Esta é a última parte de uma série de três reportagens sobre a 2ª Conferência Mundial da Ayahuasca realizada em Rio Branco, no Acre. A primeira pode ser lida aqui e a segunda, aqui.

Toda semana, Everson do Santos revive o pior dia de sua vida. Em 2003, na época viciado em crack, ele matou um homem enquanto tentava assaltá-lo. Depois de cumprir pena de seis anos, teve uma recaída e passou dois anos vagando nas ruas em busca da próxima dose.

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Hoje, sóbrio há três anos, Everson acompanha 70 dependentes químicos internados no Centro Caminho da Luz, uma casa de reabilitação localizada no coração da Floresta Amazônica. Lá, os pacientes são tratados segundo um método pouco ortodoxo: a instituição oferece doses diárias de ayahuasca, um chá alucinógeno – alguns preferem a palavra enteógeno – feito a partir de um cipó raro encontrado na Amazônia.

O centro é afiliado à União do Vegetal, uma religião que mistura cristianismo com o culto da ayahuasca. Nas noites de sábado, os pacientes se juntam para uma cerimônia de quatro horas em um templo azul, onde eles bebem ayahuasca ao som de cânticos cristãos e dos ruídos da selva. Quando o chá faz efeito, por volta de vinte minutos depois, muitos dos pacientes começam a alucinar, voltando no tempo para observar suas próprias vidas e ações passadas. Alguns levantam suas mãos em oração, outros batem os pés. Um casal começa a chorar.

Caminho da Luz. Crédito: Marina Lopes

Nos últimos anos a demanda internacional pela ayahuasca, substância utilizada por tribos amazônicas em seus rituais há milhares de anos, cresceu exponencialmente. O chá se tornou a droga do momento, com celebridades como Lindsay Lohan e Penn Badgley enaltecendo suas propriedades espirituais. Nos últimos anos, os centros de ayahuasca se espalharam pelo mundo, do Brooklyn à Estônia. Estudos mostram que o chá diminui a compulsão por drogas e não é viciante, mas a substância pode também trazer memórias traumáticas à tona.

Leia também: Ayahuasca: da magia à possível cura para alcoolismo e depressão

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"Quando bebo o chá, volto para aquele momento. Vejo ele de novo", conta Everson, 33, referindo-se ao homem que matou. "Isso me ajuda a superar o trauma, a aceitar o que fiz."

O centro, formado por várias barracas coloridas, fica nos arredores de Rio Branco, a capital do Acre. Redes e espreguiçadeiras adornam o terreno e encorajam os pacientes a se deitarem e refletirem sobre seu progresso.

O centro afirma ter uma taxa de recaída de 50%, a mesma taxa de programas de reabilitação tradicionais. No entanto, em vez de pílulas ou terapia, os pacientes afirmam que a ayahuasca os ajuda a compreender seus vícios por meio de alucinações.

"Tudo é diferente aqui. A gente não toma um monte de remédios. O chá é nosso terapeuta", diz Carlos Eduardo Machado, que teve duas recaídas após passar por tratamentos em clínicas tradicionais antes de conhecer o Caminho da Luz. "No meu último tratamento eu tomava tantos antidepressivos que dormia o dia todo", conta.

Não se sabe ao certo por que a ayahuasca controla o vício. Em parte porque o chá é ilegal em muitas partes do mundo. Mas algumas pesquisas confirmam a relação entre o chá e o tratamento da dependência química. Um estudo de 2013 da Universidade da Colúmbia Britânica revelou que a ayahuasca pode tratar o alcoolismo, o tabagismo e o vício em cocaína, além de aumentar a consciência, a qualidade de vida, a esperança e o empoderamento dos pacientes.

É difícil saber se o chá é o único responsável pela taxa de sucesso do Caminho da Luz, visto que o centro oferece um tratamento que mistura abordagens alternativas e tradicionais. Os pacientes seguem código de conduta rigoroso que inclui cronograma de banhos, refeições e tarefas. Aqueles com maior risco de recaída são transferidos para um terreno isolado a fim de fugir das tentações da cidade.

Pacientes do Caminho da Luz. Crédito: Marina Lopes

"Sabemos que as religiões têm impacto positivo na dependência química, independentemente do uso da ayahuasca. Por isso precisamos de estudos mais claros. Temos indícios muito promissores, mas é preciso investir em mais pesquisas", disse Luís Fernando Tófoli, um psiquiatra da Unicamp, que pesquisa os efeitos da ayahuasca.

Alguns críticos afirmam que, embora as alucinações ajudem alguns pacientes a superar traumas passados, em alguns casos podem ter o efeito contrário. "Reviver uma experiência é parte essencial do processo de cura, mas é preciso fazer isso num local apropriado, que traga uma sensação de segurança… Caso contrário, a experiência pode ser traumatizante", disse Richard Furr, um psicólogo que trata pacientes que tiveram más experiências com a ayahuasca.

Para as famílias dos pacientes curados pela ayahuasca, porém, o chá é um divisor de águas.

"Pensei que estaria substituindo um vício por outro, mas as coisas ficaram tão ruins em casa que resolvi tentar", disse Verlandia Furtade Santos, 38, referindo-se a seus filhos adolescentes, que roubavam para manter o vício em crack. Após algumas semanas de tratamento, ela diz não reconhecer seus filhos. "Para ser sincera, nunca vi meus filhos tão bem. Isso é tudo que eu quero para eles."