Drogas

O que acontece quando você toma 550 doses de LSD de uma vez

Overdose acidental de LSD não é brincadeira. Mas para alguns, isso pode ter efeitos benéficos bizarros.
MS
Traduzido por Marina Schnoor
11 March 2020, 10:00am
image psicodélica mulher
Hayden Williams/Stocksy

Por volta das 22h numa festa de solstício de verão no Canadá em 20 de junho de 2000, cerca de 20 pessoas tomaram copos de água misturada com o poderoso psicodélico LSD. Um erro decimal fez essas pessoas ingerirem cerca de 10 vezes mais da droga do que achavam que estavam tomando. Pela 12 horas seguintes, elas passaram pela experiência mais intensa de suas vidas, uma que as mudaria para sempre.

LSD é mais poderoso do que a maioria das drogas recreativas. Enquanto a maioria das substâncias como MDMA e cocaína são ativas numa escala de miligramas, os efeitos da dietilamida de ácido lisérgico se manifestam em escala de micrograma – ou um milionésimo de grama. Uma dose média de LSD é de 100 microgramas.

Uma viagem pode durar 12 horas ou mais, aumentando os batimentos cardíacos, intensificando cores e sons, e alterando a percepção do tempo. Como a molécula de LSD, que imita a serotonina, tem uma “tampa” que se fecha nos receptores de serotonina, ela pode permanecer ali por horas. Por isso concentrações tão baixas da droga podem ser tão potentes.

Por causa dessa sensibilidade, pode ser fácil ter uma overdose de LSD. Mas o que acontece quando alguém toma quantidades extremas de LSD? Esse é um tema de um novo relatório de coautoria de Mark Haden, diretor executivo da MAPS Canada e professor adjunto da Universidade da Colúmbia Britânica, que observou casos extremos de consumo de LSD, revelando alguns resultados bizarros de saúde.

Um dos casos analisados pelo estudo de Haden foi de uma garota de 15 anos com transtorno bipolar. Ela era uma das 20 pessoas que tiveram overdose acidental de ácido naquela festa de solstício no Canadá. Ela ingeriu impressionantes 1.100 microgramas. Pelas seis horas seguintes, o comportamento dela se tornou errático. Ela deitou no chão em posição fetal se abraçando apertado. Os amigos acharam que ela estava tendo uma convulsão e chamaram uma ambulância, apesar de ninguém ter certeza se ela estava realmente tendo uma convulsão, perdido a consciência ou apenas perdida numa experiência avassaladora.

Na manhã seguinte, o pai a visitou no hospital. Ela disse a ele “Acabou”. O pai achou que ela estava falando da viagem de ácido. Mas ela esclareceu que não, seu transtorno bipolar, que causava episódio de mania diários, parecia estar curado. Uma semana depois, os sintomas dela ainda não tinham voltado. Médicos acompanharam o progresso dela por mais de um ano, e quase duas décadas depois, ela ainda não experimentou episódios de depressão ou mania fora uma depressão pós-parto. Pensando na overdose, ela disse que sentia como se a química do cérebro dela tivesse “resetado”.

Haden diz que ficou maravilhado não apenas porque os sintomas delas foram resolvidos, mas com o fato de que uma dose tão alta pudesse ser uma experiência positiva no final. Em seu relatório, publicado no Journal of Studies on Alcohol and Drugs, Haden também incluiu a história de outro indivíduo naquela infame festa de solstício, uma mulher de 26 anos que tomou apenas meio copo (aproximadamente 500 microgramas) de LSD. Sem saber, ela estava grávida de duas semanas. Mesmo assim, ela não teve complicações na gravidez e seu filho, agora com 18 anos, é perfeitamente saudável e um bom aluno.

O estudo de caso mais marcante incluso no relatório é a história de uma mulher de 46 anos, que Haden chama de CB, que tinha dor crônica causada por doença de Lyme. CB cheirou uma carreira de pó branco que achou que fosse cocaína. Quinze minutos depois, ela percebeu que tinha algo errado e chamou sua colega de apartamento, que explicou o que tinha acontecido: ela inalou o LSD que ela tinha guardado.

O LSD geralmente vem em pequenos pedaços de papel pintados com o ácido sem cheiro e incolor, mas a droga também vem numa forma potente em pó, e não é difícil confundir com outras drogas do tipo. A colega de apartamento de CB pesou o restante do pó e estimou que ela tinha cheirado 55 miligramas – 550 vezes a dose normal, o suficiente para fazer uma escola inteira viajar. Foi uma montanha-russa de viagem que durou 34 horas.

As primeiras 12 horas foram infernais. Ela basicamente apagava e vomitava com frequência, enquanto outra colega tomava conta dela. Nas 12 horas seguintes, CB sentiu um “barato prazeroso”, principalmente sentada numa cadeira, “espumando pela boca, ocasionalmente vocalizando palavras aleatórias e vomitando”, segundo o registro de Haden.

Quando o efeito finalmente passou 10 horas depois, CB se sentiu normal, e sua dor crônica tinha desaparecido. Há sete anos ela tomava morfina todo dia para tratar os sintomas da doença de Lyme. Depois de sua overdose de LSD, não só a dor tinha evaporado, mas ela não sentiu os sintomas de abstinência dos opioides que vinha usando.

CB parou de tomar morfina por cinco dias, aí os sintomas voltaram. Ela reduziu a dose de opioides e começou a fazer microdosagem de LSD (tomando cerca de um quarto de uma dose típica de 25 microgramas) a cada três dias por alguns anos, até parar completamente com a morfina em janeiro de 2018, novamente sem sintomas de abstinência.

algumas evidências de que psicodélicos como o LSD podem tratar dores porque são drogas anti-inflamatórias, mas Haden ficou surpreso que isso também pudesse ajudar com sintomas de abstinência de opioides. “Ouvi alguém dizer que achava que LSD poderia ser bom para sintomas de abstinência, mas nunca tinha visto evidências disso”, ele disse. Não há evidência de que LSD pode ajudar com transtorno bipolar, quanto mais “curá-lo”. Aylet Waldman, autora de A Really Goo d Day, alega que microdosagem de LSD a ajudou com seu transtorno de humor. Um teste clínico na Suíça atualmente está recrutando pessoas para tomar LSD para tratar depressão maníaca. Fora isso, não há muitos outro registros.

A viagem de CB não foi a overdose de LSD mais intensa já registrada nem a primeira vez que alguém confundiu LSD com cocaína. Num relatório de 1972 publicado no Western Journal of Medicine, quatro homens e quatro mulheres cheiraram duas carreiras de pó branco que era ácido achando que era cocaína. É difícil estimar quanto eles usaram, mas amostras de sangue variavam de mil a 7 mil microgramas por mililitro. Isso dá cerca de 260 a 2100 doses de LSD.

Dez minutos depois, todos acabaram no hospital. Cinco entraram em coma, enquanto os outros estavam “extremamente hiperativos, com alucinações visuais e auditivas severas”, segundo o relatório. Três pacientes pararam de respirar e tiveram que ser colocados em ventiladores mecânicos. Outros sintomas incluíam diarreia, vômito, sangramento, coágulos e febre (a cocaína, que eles também tinham usado antes, pode ter causado o sangramento).

Os oito pacientes sobreviveram, e se recuperaram totalmente em menos de 12 horas, a maioria sem lembrar de como acabaram no hospital. Os autores do estudo disseram que “não houve efeitos colaterais psicológicos ou físicos aparentes em um ano nos exames posteriores de cinco pacientes. A maioria dos pacientes continuou usando LSD intermitentemente”.

Apesar de não haver registro de morte por LSD diretamente, os autores estimaram que uma dose letal de LSD seria de cerca de 14 mil microgramas. Pessoas que usam psicodélicos demais podem acabar correndo para o meio de uma rua movimentada, ou pulando de uma janela. É possível ter uma overdose falta de drogas como o 25I-NBOMe, que muitas vezes parece com ácido em papel mas pode ser mortal, o que destaca a importância de saber exatamente que droga você está ingerindo.

No geral, isso aponta para a segurança relativa incrível do LSD, regularmente confirmada em testes clínicos.

“É um produto notavelmente seguro. O que é incomum”, disse Haden. “Albert Hofmann, [o primeiro cientista a sintetizar LSD em 1938], disse que essa era uma das drogas menos tóxicas do planeta, o que é consistente com os dados de toxidade de David Nutt. E essa é mais uma razão por que a droga não deveria ser criminalizada – ela é notavelmente não-tóxica.”

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