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‘Battlegrounds’ tem o melhor power up dos games nos últimos tempos

Esta matéria foi originalmente publicada no Waypoint.

Não se fala mais tanto sobre os power ups (ou “super poderes”) dos games. Em vez disso, hoje o papo é mais sobre upgrades e buffs dos jogos, principalmente os competitivos online. Talvez porque a expressão “power up” lembra elementos de jogos antigos e caricatos: bolas brilhantes e coloridas que transformavam o seu personagem em um lobisomem; um ícone flutuante em forma de bala que melhorava o tiro da sua nave; ou só uma pílula que permitia que você engolisse fantasmas.

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São poderes ridículos, mas também são mais icônicos que alguns elementos de jogos atuais. “Upgrades e buffs” têm um papel na dinâmica dos games, mas raramente mudam profundamente a forma de jogar, como os power ups do passado. A flor de fogo do Mario oferecia um jeito completamente novo de derrotar os inimigos. Os tênis do Sonic não só davam mais velocidade pro porco-espinho da Sega, mas eles pareciam transformar o personagem na sua forma verdadeira também. Poder usar uma arma a mais no Call of Duty e ganhar uns corações a mais em Breath of the Wild são ótimos bônus, mas nada disso tem o mesmo impacto transformativo dos power ups.

É por isso que a mira telescópica das armas de PlayerUnknown’s Battlegrounds é tão importante.

Para quem não conhece, Battlegrounds é um jogo que coloca 100 pessoas numa ilha cheia de armas, veículos e outros itens, e vence o último jogador a sobreviver. Além dos outros jogadores, uma parede de energia vai diminuindo o espaço explorável da ilha, e quem ficar de fora dela também é eliminado. Os jogadores começam com nada e têm que procurar equipamentos, armas e coletes a prova de balas em um cenário urbano desolado, com hospitais, fábricas e até ruínas desertas.

Quando você encontra com outras pessoas nesses lugares, a treta acaba sendo rápida, tática e muito tensa. É empolgante. Você acaba bolando um monte de planos para sobreviver, desiste dos mais improváveis e, com sorte, decide por uma estratégia mais segura. Enquanto isso, as outras 99 pessoas na ilha estão fazendo o mesmo.

Assim como outros jogos de tiro, Battlegrounds tem os modernos upgrades e buffs: um pente com mais balas pra sua AK-47, curativos para curar as feridas, uma lata falsifica de Red Bull para aumentar a velocidade, e assim por diante. Mas tem uma categoria de “upgrade” que, na verdade, é um power up clássico, desses que muda todo o esquema do jogo: as miras telescópicas das armas.

Boa parte do combate em Battlegrounds no começo e no meio das partidas acaba sendo de curto alcance. Talvez você ouça alguém explorando o mesmo prédio abandonado que você, de repente, a treta se desenrola em um corredor apertado, ou no meio da escada. Às vezes escuta o ronco de um mini-buggy se aproximando da casa que você está rapando e acaba atirando da janela há alguns metros de distância. Os jogadores mais espertinhos correm para se esconder e conseguir uma boa posição para atacar o inimigo, mas no começo da partida, na maioria das vezes, você consegue identificar de onde estão vindo os tiros – a menos que você morra logo de cara quando pula de paraquedas na ilha.

Mas a mira telescópica muda tudo isso.

Pra pessoa que está olhando na mira, a distância acaba não fazendo diferença. O jogador que passa correndo em uma moto deixa de ser só um vulto, se tornando uma imagem mais definida nas lentes da mira, dando tempo para você agir. Assim, tanto o atirador quanto o alvo de repente tem que lidar com fato que um nem sempre sabe onde o outro está.

Conforme o espaço na ilha vai encolhendo, as possibilidades só aumentam. Isso faz com que uma posição boa de defesa no topo deu um morro de repente se transforme em uma plataforma de artilharia. Um quartinho no apartamento destruído feito para se esconder se torna uma base de operações. Não tem um acessório nos games contemporâneos – e olha que muitos deles também são jogos de tiro com miras telescópicas – que me faça sentir tão poderoso, ou que a morte seja tão certeira, quanto essas miras de Battlegrounds.

Já joguei centenas (milhares?) de jogos de guerra, incluindo alguns que conseguem representar os horrores do campo de batalha com precisão. Mas nada representa a frieza e letalidade do combate melhor que essas miras e o poder assimétrico que elas trazem pra partida. Escondido e a centenas de metros de distância, você consegue jogar fora 30 minutos do tempo de outra pessoa. É um tempo breve, insignificante se comparados ao que se perde num conflito armado de verdade, mas se compararmos com jogos em que o tempo de volta à partida é curto, 30 minutos é uma eternidade.

Assim, a mira acaba transforma Battlegrounds de duas formas. A primeira é equivalente a uma flor de fogo do Mario moderna, tornando cenários campestres fofinhos em um campo de tiro pirotécnico. A segunda faz com que um jogo que já é cruel fique mais ainda. A mira exclui qualquer possibilidade da batalha ser justa e honorável, que a guerra é vencida pelos soldados que tem mais coração e coragem.

A mira em Battlegrounds não são tão caricatas quanto estrelas brilhantes que dão invencibilidade, ou botas que dão pulo duplo, mas elas fundamentalmente mudam a forma como você interage com os inimigos e a sua relação com o espaço físico da ilha. E, para mim, isso é tão memorável quanto os power ups dos jogos do passado.

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