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Entrevista com Andrew Jennings, o Inimigo Nº 1 da FIFA

O jornalista escocês Andrew Jennings fala sobre seu novo livro, "Um Jogo Cada Vez Mais Sujo", e também sobre novas descobertas, ameaças e o que espera das manifestações no país.
3.7.14

Considerado o inimigo número um da FIFA, o jornalista escocês Andrew Jennings lançou recentemente o livro Um jogo cada vez mais sujo (Omertá, no original), pela Panda Books, em que denuncia a venda de ingressos da Copa do Mundo do Brasil no Mercado Negro e outras irregularidades.

Antes, ele havia lançado Jogo Sujo, e, por conta de suas investigações, foi proibido de participar de eventos da entidade. Também teve papel fundamental nas quedas de João Havelange e Ricardo Teixeira por conta de suas denúncias.

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Em entrevista exclusiva à VICE ele fala de suas novas descobertas, ameaças e o que espera das manifestações no país; a preparação para os Jogos Olímpicos de 2016 e a possibilidade de seu livro ser censurado aqui, como foi o CBF-Nike do então deputado e hoje ministro dos esportes Aldo Rebelo.

VICE: O que você pensa sobre a possibilidade do seu livro ser censurado no Brasil?
Andrew Jennings: Estão censurando?

Pode ser censurado, como aconteceu com CBF-Nike, o livro do Aldo Rebelo.
Não creio que isso ocorra. No Reino Unido, os donos da bola me ameaçaram dois meses antes da publicação. Então, apenas disse para que eles caíssem fora, e foi o que fizeram. Por fim, foi publicado.

Olha, você vai ao tribunal chama atenção para si mesmo, e creio que a tática da FIFA será ignorá-lo, não se envolver e torcer para que as pessoas não façam muitas perguntas.

Mas vamos ver. É bem difícil brecá-lo agora. Poderíamos disponibilizá-lo na internet. Não podem bani-lo ali.

Você espera que a FIFA faça lobby para grupos de imprensa não falarem dele?
Não creio que a FIFA seja tão popular assim no Brasil. Seria um tiro pela culatra caso tentassem jogar a mídia brasileira contra mim.

Até mesmo se fosse uma ação nos bastidores?
Sim. O que eles poderiam fazer? Se quiserem me criticar, que o façam em público.

Mas eles poderiam fazer pressão sobre jornalistas daqui para não entrevistá-lo ou mesmo falar de seu livro?
Não sei nada disso. Sei que, provavelmente, dirão que não sei do que estou falando, mas não creio que virão com isso a público. Talvez de modo privado, assim ninguém perceba. Temos somente que esperar e ver o que acontece. Não posso prever o que diferentes agentes de mídia pensam. Sei que muitos na imprensa gostam do que faço.

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Seu livro poderia ser censurado na América ou Reino Unido?
Sinceramente, isso não acontece na América. É algo muito difícil lá e no Reino Unido também. Se eles tentarem me parar aqui, eles teriam diante do juiz alegando que não tentariam isso, as ações se dariam num tribunal e me processariam com fatos, e (Joseph) Blatter jamais aparecerá diante do júri.

A primeira pergunta que lhe fariam é: “E aí Blatter! Por que você não revela seu salário pela FIFA?”. Certamente fariam isso.

Há muitas perguntas que ele não poderá responder, então não creio que ele vá em frente com isto.

O que faz desse trabalho diferente de outras investigações sobre a FIFA?
Eu busco sempre trazer material novo. O que fiz foi olhar para eles como uma família do crime organizado, e tenho muita experiência cobrindo máfia e crime organizado.

Anos atrás, quando fui ao Rio [de Janeiro] percebi que a FIFA de Blatter tem a estrutura de uma organização criminosa ao conversar com amigos e descobrir que [João] Havelange era ligado a Castor de Andrade. Então, percebi que a corrupção na FIFA remonta a Havelange e seu envolvimento com gangsteres cariocas. Ele trouxe a cultura gângster para a FIFA, e busco mostrar isso com muitos exemplos, demonstrando o que de fato são. São um bando de bandidos e os pegamos com provas que mostro nos Capítulos 17, 18 e 19, apontando que ele contratou seus próprios investigadores e alterou as regras.

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Contratou também sua polícia particular e adivinhe? Ele vai sobreviver.

Como você se enxerga ao ser apontado como o maior algoz da FIFA?
Sou apenas um repórter. O que faço é falar como jornalista. É uma história moral e é uma boa. Meu interesse sempre foi motivado pela paixão massiva que há por esse jogo ao redor do mundo todo, mas a paixão dos fãs não está em condições de fazer investigações como as que faço para encontrar fontes e documentos além de passar longos períodos escavando na corrupção. Então, é uma grande história do ponto de vista jornalístico e moral para o mundo.

Você já foi ameaçado por eles ou se sentiu em perigo?
Por eles não [risos].

E por terceiros?
Eles não são loucos. Bem, Blatter é um verdadeiro gângster. Gangsteres de verdade não processam, apenas continuam roubando, afinal, é a profissão deles. Quando eu cobria o submundo londrino, ligando-o à corrupção policial, eu falava com os gangsteres que pagavam a propina dos policiais e falavam: “sou um ladrão”. Você sabia que essa era a ocupação deles, e eles não se importavam… O ramo deles era roubar e não processar repórteres. Não, Blatter não sairá para jogar comigo. Ele colocou uma pressão sobre mim, mas eu não senti.

Há muito poder na palavra e você faz o que deve ser feito como um repórter.

Suas investigações tiveram participação nas quedas de João Havelange e Ricardo Teixeira. Isso mudou algo? Os substitutos são diferentes em algo?
Infelizmente, creio que não houve impacto no futebol brasileiro ou mesmo na FIFA. Estou com os olhos abertos quanto a José Maria Marín, [José] Del Nero e a gangue em volta deles. Eles são Teixeira sem Teixeira, afinal, sabemos que ele continuou sendo pago mesmo após deixar o cargo.

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A desgraça de Havelange não é tratada como uma infâmia pelas autoridades futebolísticas, mas sim pelo resto do mundo. Já quanto a FIFA, quando saiu Teixeira entrou Del Nero [risos]. Mas a FIFA é uma máfia corrupta. O que não se pode esperar é que eles busquem sua regeneração. Será necessário trabalho de autoridades, governos, contribuintes e investigadores particulares para expor os gangsteres, ou de lá não saem.

O que você sabe das manifestações contra a Copa do Mundo aqui no Brasil?
Parabenizo o bravo povo brasileiro que toma riscos diante de uma polícia bruta que o ataca com gás lacrimogêneo e pimenta, cavalos… Acredito ser um tanto tarde para que os políticos, para Dilma [Rousseff] e a política, parem e pensem: “Por que atacamos nossos contribuintes e protegemos um bando de bandidos que vêm passar férias pagas em nosso país?”.

Vocês nunca precisaram da FIFA para ter bom futebol, vocês já o tinham no Brasil antes da FIFA. Então, parabenizo os heróis em todas as cidades que encontrei em minhas viagens ao Brasil e respeito o que fazem. São muito corajosos e não fazem isso somente pelo Brasil, mas por todos os envolvidos nesse esporte pelo mundo. Desejo-lhes boa sorte, porque vão precisar quando a polícia os atacar. Merecem crédito e o Brasil deveria se orgulhar deles.

Qual você espera ser o legado da Copa do Mundo no Brasil?
Vocês sabem o quão absurdo será o custo dela. Mentiram para vocês sobre as contas e, lentamente, com o passar dos anos, alguém dirá: “Eu não lhes disse que vocês precisam pagar mais por isso ou aquilo…”. Vocês sabem que o preço desta Copa vai subir e subir cada vez mais, e isso é uma parte do legado.

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A outra parte do legado será péssima ao Brasil porque o mundo verá pela televisão a polícia brasileira espancando pessoas com a camisa da seleção. Eu sei e você sabe que muitos manifestantes usam as cores da bandeira do Brasil. Vestem verde e amarelo, com orgulho, para mostrar que “este é o nosso país” e não o país da polícia. E o que os telespectadores do mundo todo vão ver são ataques ferozes com gases pimenta e lacrimogênio, cavalos, cassetetes, bombas de efeito moral. Enquanto o governo deveria perguntar à população: “O que vocês querem?”, eles batem no povo.

Dilma disse no ano passado que conversaria com os manifestantes. De fato, aconteceu algo? Não. Apenas contrataram mais policiais. Vai causar uma péssima imagem para o Brasil em vez de ser uma celebração do futebol em seu belo país. O que vai ser lembrado é que a polícia é composta de brigões descontrolados. Isso é tudo de que lembrarão sobre o Brasil, o que é muito triste.

Você crê que a maneira de os torneios serem organizados mudará?
Apenas a FIFA pode mudar o torneio. Blatter está a salvo, porque ele dá as Copas para as pessoas terem entidades nacionais, enquanto as cede como um prêmio – falo disso no livro – eles votam nele para presidente e ele faz o que quer. Espero que os membros da FIFA aprendam algumas lições com o que vem sendo feito no Brasil, em vez de dizerem a si mesmos: “São só alguns manifestantes, alguns anarquistas. Não importa muito”. Acredito que vão se chocar no dia 10 de junho quando chegarem para o congresso. Vão encontrar muita gente revoltada, pois creio que a raiva será direcionada à FIFA e não para fãs estrangeiros ou os jogadores. Certamente, terá como foco as autoridades da FIFA, que então tomará conta para que os brasileiros fãs de futebol e cidadãos comuns estejam contra eles.

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Teremos de aguardar para ver. Nosso trabalho como repórter é investigar, e não devemos especular muito sobre o que acontecerá.

O Brasil também será sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Isso causará o mesmo tormento que a Copa do Mundo?
Creio que, de certo modo, será um problema ainda maior com as Olimpíadas, porque, com a Copa, você pode colocar torcedores e jogadores dentro do estádio e cercá-los com policiais armados durante o jogo.

Porém, com as Olimpíadas, há esportes ao ar livre, como a maratona, então imagine a prova no Sambódromo e pessoas gritando “volte para casa!”. Não se pode ter uma escolta de motocicletas para maratonistas por conta do gás do combustível. O jogo de golfe será ao lado da via pública e lá estarão manifestantes gritando “volte para casa!”, porque o golfe foi construído para turistas. Pessoas carentes vão descer das favelas para jogar golfe? Já há bastante campos de golfe no Rio.

Assim será com arco e flecha, tiro, golfe e maratona. São todos vulneráveis para cidadãos revoltados e o COI não pensou nisso. São mais arrogantes do que a FIFA. Eles se acham tão especiais que não pensaram no que incomoda a população. Os brasileiros estão descontentes por boas razões: hospitais e escolas sem estruturas. Você sabe os motivos e os brasileiros também. Estive no Rio algumas vezes e sei o que as pessoas comuns pensam.

O COI não se mistura com o povão. Vivem em suas nuvens falando aos outros sobre o quão importante são e vão cair na terra com um grande choque. Isso pode mudar o COI pelo fato de um país amante de esportes como o Brasil gritar para irem embora. Talvez eles parem e pensem no que fizeram de errado.

Muitos órgãos de imprensa e empresas estão fechando portas. É difícil trabalhar como repórter investigativo?
Sim, é verdade. Eu trabalho por diversas mídias como livros e televisão, que me pagam um salário, porcentagens e por aí vai. Mas é muito difícil para projetos de longo prazo, como uma investigação sobre a FIFA, que dura anos. Isso pode ser uma verdadeira batalha, porque alguém não quer escutar essas histórias, mas vivo de forma simples e todos que me conhecem sabem que não visto muitas roupas novas, não estou na moda. Visto roupas esportivas e elas me servem bem, com isto sigo em frente. Por favor, comprem o livro, pois preciso do dinheiro [risos].