A vida é uma filha da puta no novo disco do Felipe Neiva

Com indie-psicodélico, noise e produção lo-fi, o quarto e introspectivo trabalho do carioca de 23 anos, 'mEu EP ou À Vida e Seu Potencial Sarcástico Infinito', sai pela Transfusão Noise e Lixo Records.
29.9.16

Foto por: Yan Braz

"Se esse disco tem algum conceito é de que a vida é uma grande filha da puta". Foi assim que o Felipe Neiva​ tentou definir, mais ou menos, o seu quarto trabalho, o indie-psicodélico lo-fi o mEu EP ou À Vida e Seu Potencial Sarcástico Infinito, que sai nesta quinta-feira (29) pela Transfusão Noise Records​ e pela Lixo Records, com exclusividade no Noisey.

E dá pra sacar o que ele quis dizer com o  "a vida é uma filha-da-puta" desde a primeira faixa do EP, "Saindo de Casa", que fala sobre como é ter 20 e poucos anos, tentar trabalhar, sair de casa e se fuder por causa disso. Já a faixa-título "mEU", e o processo do EP inteiro no geral, começou a nascer logo depois da última tentativa de suicídio de Neiva. "Tem muito a ver com uma época muito fudida pela qual passei, na qual esse suposto sarcasmo da vida estava imperando em mim e não me deixava ter qualquer certeza, qualquer estabilidade", contou.

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"Zen" também é uma das músicas que fala sobre essas incertezas da vida. "Ela explora esse 'não-saber', como se esse lugar da indefinição fosse um lugar também, uma opção, um statement", explicou. Já "Conte Comigo" é sobre como ele impediu a sua melhor amiga de tentar se matar. "Só nisso, já tem uma ironia que é o fato de eu ter sido super defensor da ideia de que, pra ser sujeito e pra ter direito a uma vida plenamente sua, você teria que ter o direito de tirá-la quando bem entendesse também, mas acabei impedindo-a de fazer isso, então…"​

Apesar de toda carga negativa aparente sobre a qual o EP emergiu, o disco (e a capa) é cheio de cor e vem pra marcar uma fase mais bem resolvida do Neiva, tanto como artista, quanto como pessoa. "Aprendi que não vou mais esconder os meus problemas, porque eu preciso falar sobre eles", disse. "Também, agora, nesse quarto trabalho, me sinto mais confiante como artista, porque conheci muita gente,  toquei muito ao vivo e acabei criando uma interação legal com o público, o que me fez acreditar mais em mim."

​E se nos seus dois primeiros EPs, só tinham músicas em inglês, e no LP Chegou Fim de Festa (2015), só em português, em mEU, Neiva resolveu mesclar os idiomas, fazendo quatro faixas em português e apenas uma em inglês. "X (Factor) é a única em inglês e eu fiz pra minha ex-companheira", disse Felipe. "Apesar de ser uma baladinha de amor swingada, ela acaba se enquadrando na temática do disco, pensando que a gente terminou e que o poliamor não me valeu de muita coisa, então a vida continua destilando o seu sarcasmo".​

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Sobre o colorido da capa, Neiva falou:

É uma arte do Felipe Carnaúba, que é um moleque muito novo, que acabou de sair do ensino médio. Escolhi essa pintura dele porque, pra mim, é a que continha a multiplicidade de cores que o EP também tem. Além disso, na pintura, parece que tem um personagem segurando tipo um balão, mas ao mesmo tempo tem algo que o prende ao chão. Tem uma coisa meio embolada, parece que ele tá agarrado. Acho que dialoga bem com o disco​.

Pra acompanhar o disco, Neiva também escreveu um poema, "Eu Tenho 23 Anos". A gente vai colocar a primeira estrofe aqui abaixo, mas você pode baixá-lo aqui​:

eu preciso tanto da aprovação dos outros
preciso tanto de opiniões positivas a meu respeito
que eu fico sempre na minha
tentando nunca fazer nada de mal pra ninguém
eu não consigo ser a pessoa que eu gostaria de ser
aí na minha auto-imagem fica algo borrado que parece metade comigo
metade com o que eu gostaria de ser
mas a parte de mim que se parece comigo
me deixa tão deprimido
que eu fantasio mesmo
até porque ultimamente o entorno tem ajudado

Ouça o disco abaixo (e aqui​ pela Lixo Records):

Ficha técnica:

Todas as faixas compostas por Felipe Neiva e gravadas entre Abril e Setembro de 2016 no estúdio Camelo Azul, com exceção de "Zen" produzida por Augusto Feres e gravada em Tomba Records, 2015. 
Mixadado por Felipe Neiva e Victor Oliver com auxílio de Sergio Rodrigues e Barbanjo Reis.  Felipe Neiva - Voz, baixo, piano, microkorg, violão e pandeirola 
Barbanjo Reis - Bateria 
Octavio Peral - Baixo na "Conte Comigo" e na "mEu" 
Victor Oliver - Guitarra, backing, baixo na "X (Factor)" e microkorg Philippe Meyohas - Coro na "Conte Comigo" 
Augusto Feres - Produtor e guitarrista na "Zen" 
Leonardo Dias - Bateria na "Zen" 
Filipe Teixeira - Baixo na "Zen"  Masterizado por Felipe Neiva.​