O novo filme sobre Steve Jobs é bem melhor do que aquele com o Ashton Kutcher

O novo Jobs se mostra um personagem muito mais profundo e complexo. Muito mais próximo do ex-CEO da Apple.
13.1.16
Crédito: Universal Pictures

Domingo passado (10), o novo filme sobre a vida de Steve Jobs, chamado, veja você, Steve Jobs, levou duas estatuetas do Globo de Ouro. Kate Winslet ganhou o prêmio de melhor atriz coadjuvante por sua atuação como a inseparável colega de trabalho de Jobs, Joanna Hoffman, e Aaron Sorkin ganhou o melhor roteiro entre os indicados.

Apesar do reconhecimento e de ter sido muito elogiado pela crítica nos EUA, o filme não fez o sucesso esperado com o público americano. (Aqui no Brasil a estreia está marcada para dia 14 de janeiro.) Mas por quê?

Temos algumas suspeitas.

Talvez a melhor explicação para o longa não ter atraído tanta gente ao cinema seja o fato de que a vida e obra de Jobs são mais do que conhecidas. Além de inúmeros perfis e longas reportagens por aí, existem dezenas de biografias publicadas, algumas cinebiografias e pelo menos dois documentários sobre a vida do CEO da Apple. Muita gente ficou com a impressão de que Steve Jobs não traria nada de novo.

E vamos combinar que o mais recente e popular filme sobre a vida de Steve Jobs – também com um título nada original: Jobs – é bem fraco. Exceto pela boa atuação de Ashton Kutcher, só há decepções. O roteiro é simples demais para um personagem tão complexo quanto o fundador da Apple. No filme de 2013, as coisas vão acontecendo na vida do protagonista e só. Não há muito cuidado para apresentar a trama. A história é sempre linear e sem muito apelo. É bem difícil se manter focado na história durante as mais de duas horas de duração do filme.

No novo filme, no entanto, vemos uma preocupação formal bem interessante. (E, ok, talvez isso possa agradar mais aos críticos do que o público, mas é boa coisa, sim.) A trama recente aposta em alguns flashbacks que se misturam com a cena presente e complementam o diálogo entre John Sculley (Jeff Daniels) e Steve Jobs. As palavras se costuram entre os dois momentos. Assim como o último longa sobre o cara da Apple, Steve Jobs também tem duas horas, mas exige e conquista muito mais atenção do público desde o princípio. A impressão é de um filme mais ágil, completo.

O que faz o Steve Jobs ser melhor do que Jobs é a capacidade do segundo de apresentar uma surpresa ao espectador – mesmo se ele conhecer o legado de Steve Jobs de cabo a rabo. As respostas do Jobs de Kutcher frente aos acontecimentos de sua vida são previsíveis até para quem passou os últimos anos trancado num porão sem internet e não conhece o legado do empresário. Parte disso é culpa do formato do filme, que opta por fazer um resumão da vida do personagem. Steve Jobs se mostra mais inovador. Preza por contar apenas uma parte da história que muita gente já conhece por meio de três momentos específicos e gera uma expectativa em torno da figura e das respostas do CEO.

Crédito: Universal Pictures

A proposta de Steve Jobs talvez seja mais focada em mostrar como o Steve Jobs de verdade era um visionário. O empreendedor de gola rulê não era engenheiro nem designer; era, na real, o que o personagem de Fassbender diz em determinado momento da trama: "Os músicos tocam seus instrumentos. Eu toco a orquestra".

O filme, baseado na biografia escrita por Walter Isaacson, foi dividido em três partes, um formato que remete muito ao teatro, apesar do diretor Danny Boyle ter afirmado em entrevista pra gente que não foi a intenção. ("Não acho que o filme se pareça com uma peça, mas as forças dos bastidores teatrais e dos diálogos longos estão no DNA de Sorkin", falou.) A passagem de um ato para outro é mostrada pelos noticiários, que vão apontando os fatos que aconteceram entre um momento e outro, como a demissão de Jobs da Apple em 1985, a criação da NeXT Computers e finalmente o reencontro do criado com sua criatura. Outro ponto que se destaca no longa é a trilha sonora com canções de Bob Dylan, de quem Jobs era muito fã.

Os três atos se passam no mesmo contexto: minutos antes de um grande lançamento. O primeiro é a apresentação do Macintosh da Apple em 1984, que foi gravado em 16mm, e traz a impressão de se tratar de um documentário. O jovem Jobs é apresentado com bastante arrogância e cheio de certezas, características da sua personalidade que carregou até o fim da vida. Na época do lançamento, o fundador da Apple tinha certeza de que venderia um milhão de computadores em 30 dias, coisa que nunca aconteceu.

Crédito: Universal Pictures

Nessa parte, somos apresentados a Chrisann Brennan (Katherine Waterson), mãe de Lisa, filha mais velha de Jobs, que Jobs demorou muito tempo para assumir a paternidade. Lisa é um ponto chave no enredo. Ela é a responsável por trazer alguma humanidade frente à personalidade hostil de Jobs muito frisada no filme e é o único laço familiar do CEO apresentado na trama. Sua esposa, Lauren Powell e seus outros três filhos, não aparecem e nem ao menos são citados. Quando Lisa (Mackezie Moss), aos cinco anos, desenha uma arte abstrata no primeiro Macintosh da história, dá para sentir a emoção nos olhos de Jobs, revelando o grande talento do ator Michael Fassbender.

Além de Lisa, Steve Wozniak (Seth Rogen), co-fundador da Apple e amigo de longa data de Steve Jobs, John Sculley, empresário que exerceu a função de chefe executivo da Apple de 1983 até 1993, e Joanna Hoffman, diretora de marketing da Apple, que acompanhou Jobs por toda sua carreira, são três figuras de destaque. Os diálogos entre Jobs e os três personagens são de tirar o fôlego, o que prova, mais uma vez, a habilidade de Sorkin. (Hoffman não aparece no estrelado por Kutcher, filme extremamente marcado pela falta de brilho e por ter apenas figuras masculinas.)

A comparação entre os Jobs jovens de Kutcher e Fassbender se torna inevitável. A atuação de ambos é bastante marcante, mas, apesar de Kutcher ganhar muitos pontos pela semelhança, o Jobs de Fassbender se mostra um personagem muito mais profundo e complexo. Chega mais perto de quem foi o verdadeiro Steve Jobs.

Crédito: Universal Pictures

O segundo ato foi gravado em 35mm e se passa em 1988, depois de Jobs ter falhado miseravelmente em sua aposta no Macintosh e ter sido demitido da Apple. Ele então funda a NeXT Computer e as cenas seguintes se entrelaçam entre o flashback da discussão com Sculley e a apresentação do computador da NeXT. Mesmo depois do fracasso do computador da Apple, Jobs sempre viveu com a certeza de que os computadores pessoais dominariam os lares. Sua previsão estava certa, claro, mas vale lembrar que nos anos 80 ainda era loucura pensar nesse tipo de coisa.

O terceiro e último ato, gravado em formato digital, é o único em que vemos Jobs apresentando seus produtos. Apesar de ser apenas um ensaio, a mágica do cinema consegue fazer a gente se emocionar com a apresentação de um iMac de 1998. Quando a câmera foca no Steve Jobs dos anos 90, a semelhança de Fassbender é quase assustadora, desbancando o Ashton Kutcher em Jobs.

Em uma fase mais estável da vida pessoal, vemos Jobs enfim acertar os ponteiros com a filha, Lisa, interpretada aos 19 anos pela atriz brasileira Perla Haney-Jardine. Com a estabilidade também na carreira e do papel da tecnologia na vida das pessoas, Steve Jobs tem a oportunidade de apontar o dedo e provar que estava certo.

Na época em que se passa o terceiro ato, o iMac colorido era sonho de consumo e, pouco depois, se consolidou como uma marca de status social e também da qualidade tecnológica que mantêm a Apple viva até hoje. É legal pensar então que, no futuro, o filme de referência para essa figura tão complexa e contraditória que criou a empresa seja uma obra muito mais cuidadosa e técnica como a de Boyle. É, enfim, o retrato mais interessante de um cara muito interessante.