Nossos Sonhos Espaciais São Alimentados Pela Arte de David A. Hardy
Créditos: David A. Hardy

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Nossos Sonhos Espaciais São Alimentados Pela Arte de David A. Hardy

"Tudo que eu podia fazer era usar a imaginação e os informações disponíveis para pintá-los!"

David A. Hardy é um dos artistas espaciais mais lendários de todos os tempos. Hardy é escritor, ilustrador (desenhou capas incríveis de revista) e criador de milhares de obras. Com uma carreira que abrange seis décadas, ele ainda está na ativa aos 78 anos. É famoso por criar cenários alienígenas arrebatadores, incluindo veículos exploradores em Marte, espaçonaves e paisagens planetárias fascinantes.

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Arte espacial é um movimento artístico, assim como o impressionismo, o expressionismo abstrato e a Internet art. Os primeiros artistas espaciais, que definiram o gênero, incluem o americano Chelsey Bonestell, que queria mostrar ao mundo o que viu num telescópio, e o astrônomo francês Lucien Rudaux, que ajudou a construir a arte espacial nos anos 20 e 30.

Enquanto obras de ficção científica e fantasia oferecem liberdade de imaginação ilimitada, artistas espaciais trabalham com cientistas e engenheiros para combinar a arte com exploração espacial. Mesmo assim, o estilo contém um leque enorme de tópicos: enquanto alguns artistas homenageiam ambientes espaciais familiares, outros criam os próprios mundos, com visitas alienígenas, simbolismo onírico e imagens psicodélicas.

Há tipos diferentes de arte espacial. O "realismo descritivo" retrata o cosmos de forma precisa, enquanto o "impressionismo cósmico" é uma visão menos técnica do espaço – mais interpretativa, mas científica mesmo assim. A "arte de hardware" foca na mecânica de espaçonaves, sondas e equipamentos espaciais, e a "zoologia cósmica" mostra extraterrestres em seus habitats.

Desde que sua carreira começou, com uma ilustração para um livro escrito por Patrick Moore, em 1954, o conjunto de obras de Hardy cobriu uma série de estilos, com ênfase em colonialismo espacial. Para celebrar sua carreira, a IAAA (abreviação inglesa para Associação Internacional de Artistas Astronômicos), uma organização que busca ser a vanguarda da exploração espacial artística, está organizando uma mostra itinerante do trabalho de Hardy, junto a outros 13 artistas espaciais, chamada O Universo dos Artistas (escreva para eles para tentar trazer a exibição à sua cidade).

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Na preparação da mostra, conversei com o Hardy sobre sua arte, sobre Plutão e sobre como a tecnologia mudou o jogo.

MOTHERBOARD: Ninguém teve uma carreira tão longa quanto a sua em arte espacial. Como você enxerga as mudanças do movimento desde os anos 50?
David A. Hardy Quando comecei, havia dois artistas espaciais principais: Chesley Bonestell, dos EUA, que ilustrou livros muito influentes, como A Conquista do Espaço, e R.A. (Ralph) Smith, do Reino Unido, que trabalhou com o Arthur C. Clarke e a Sociedade Interplanetária Britânica, da qual me tornei membro em 1952. (Conheci os dois, e mais tarde trabalhei com o Arthur).

Depois que o Ralph Smith morreu, em 1957, por muitos anos fui o único artista astronômico da Inglaterra, e trabalhei principalmente com o astrônomo e autor Patrick Moore. Claro, em 1957, o primeiro satélite arificial, o Sputnik, entrou em órbita, e com a corrida espacial entre os EUA e a URSS, o interesse em espaço cresceu bastante. Nos Estados Unidos, em especial, mais artistas astronômicos começaram a aparecer.

A cena era grande nos anos 80, quando a IAAA se formou, em torno da época do encontro na Islândia, em 1988?
Não ouvi falar da IAAA até 1985, e entrei em 1986. Conhecer outros artistas espaciais na Islândia, em 1988. Foi uma experiência fantástica poder conversar com pessoas que estavam na mesma frequência.

Até então, a maioria dos membros era americana, mas um canadense, Kara Szathmary, estava no encontro e nos tornamos ótimos amigos. (Na verdade, ele é húngaro). E claro, também conheci artistas russos, inclusive o cosmonauta Alexei Leonov. Logo me tornei o primeiro vice-presidente europeu, e depois presidente [da IAAA].

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Como o desenvolvimento de softwares de CGI e outras ferramentas de renderização mudaram o campo?
A tecnologia mudou a forma como alguns artistas trabalham, e certamente acelerou nossa capacidade de comunicação. Desde os anos 80, o campo só cresceu, e ficou mais diversificado e interessante.

Naturalmente, alguns artistas acabam trabalhando com organizaçoes como a NASA ou a ESA, para mostrar a construção de espaçonaves, ou os lugares que visitaram, ou visitarão, e as obras, no caso, têm que ser bem fotográficas. Então, podem ser definidas como ilustrações.

Mas alguns artistas, como o Kara, produzem obras que não são nada fotográficas, nem mesmo realistas, mas impressionistas, expressionistas ou abstratas. A maioria dos artistas trabalha com meios tradicionais, como óleos ou acrílicos sobre tela, ou mesmo aquarela; pessoalmente, ainda uso todas essas técnicas, assim como as digitais. Esperamos que nossa forma de arte seja aceita por grandes galerias como um movimento artístico. Ainda não aconteceu, então espero que vocês possam ajudar!

É seguro afirmar que vocês iniciaram o movimento moderno, ou pelo menos ajudaram a impulsioná-lo?
Eu não diria que começamos qualquer coisa, mas através de cartas (e agora emails), soube que meus livros, como os que editei com Sir Patrick Moore – The Challenge of the Stars(O Desafio das Estrelas, 1972) e a sequênciaFutures: 50 Years in Space (Futuros: 50 Anos no Espaço, 2004) –, influenciaram muitos artistas e fizeram até com que alguns deles se tornassem artistas espaciais!

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Por que você se sentiu atraído pelo espaço?
Difícil dizer. Alguns amigos da escola queriam ser jogadores de futebol, ou maquinistas, mas desde pequeno sou fascinado pelo incomum: fotos de crateras lunares em livros, os anéis de Saturno, vulcões, gêiseres e a aurora boreal.

Assim que observei a Lua e planetas através de um telescópio, quis saber como seria ir até lá e estar nesses mundos. Tudo que eu podia fazer era usar a imaginação e as informações disponíveis para pintá-los!

Quanto tempo você leva para pintar um quadro?
Varia bastante de acordo com o tamanho do quadro, o tema, o meio, e por aí vai. Por exemplo, qualquer obra com pessoas ou veículos demora mais que uma paisagem pura ou cenário espacial. Então, oscila entre dois dias e várias semanas, ou um mês.

Qual é a sua opinião sobre Plutão, que não é mais um planeta? Em retrospecto, alguns trabalhos seus são cápsulas do tempo.
Para mim, Plutão ainda é um planeta. Foi reclassificado como um planeta anão, mas há estrelas anãs, e elas ainda são estrelas!

Como você discerne um bom artista espacial de um não tão bom?
Se um artista mostra que fez uma pesquisa, certificou-se que o retrato condiz com uma imagem esperada do objeto (em termos geológicos e astronômicos), e tem boas habilidades técnicas, composicionais e artísticas, assim como imaginação, é um bom artista espacial.

Hoje, na internet, (infelizmente) há muitas imagens aparentemente espetaculares, que parecem ser arte espacial, mas são apenas "pedras e bolas", sem valor ou conteúdo reais.

Tradução: Stephanie Fernandes