A voz do MC Felipe Boladão está viva no remix “Baleado pelo Som”

O Leonardo Fernandes tem 21 anos, é do Capão Redondo e pira em rap. Mas sua recente pesquisa pelas origens do funk paulistano o levaram a resgatar “Bola da Vez”, hit do MC da Baixada Santista e um dos pioneiros do gênero.
17.11.16

A Baixada Santista foi o berço do movimento do funk paulistano, ritmo que hoje ocupa nas periferias o espaço que já foi do rap. E desde a formação dessa escola no começo dos anos 2000, houveram diversas baixas no time de MCs fundamentais da Baixada, como os MCs Primo e Felipe Boladão, ambos assassinados em circunstâncias que seguem até hoje sem grandes esclarecimentos por parte da polícia. Recentemente, o Carlos Nunez remixou o MC Primo e hasteou novamente a bandeira do "Prenderam meus pensamentos, mas não calaram a minha voz". Mais uma vez, um remix póstumo resgata as origens do funk paulistano em "Baleados pelo Som", do produtor Leonardo Fernandes com os vocais do do MC Felipe Boladão.

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O MC, natural da Praia Grande, ficou conhecido por cantar o famigerado funk proibidão, mas, entre as suas músicas, há sucessos que animam as pistas sem falar do crime. "Bola da Vez", onde o funkeiro fala da alegria de ir para o baile, era uma dessas e foi justamente a fonte para os vocais do remix "Baleados pelo Som". Felipe morreu com 20 anos, na noite do dia 10 de abril de 2010, junto do seu seu DJ, que também se chamava Felipe.

A idéia do remix surgiu do Leonardo Fernandes, produtor de 21 anos, mas que respira música desde pequeno. Leo é natural do Capão Redondo, o epicentro da escola do rap da Zona Sul de São Paulo, e não se interessava tanto pelo funk, muito por conta do conteúdo das letras. Porém, recentemente começou a ouvir o funk atual e tomou gosto pela coisa. O produtor conta como surgiu a ideia do remix "Ouvindo a opinião de alguns amigos fascinados por funks antigos, voltei um pouco no tempo e revivi algumas músicas do Felipe Boladão. Quando ouvi a 'Bola da Vez' falei 'É essa!'", conta o produtor que atualmente é parte do projeto Tributo 808, em que mescla trap e a música brasileira.

O insight da música veio como um tiro e em menos de cinco dias o remix estava pronto "Apesar da sua simplicidade, acredito que a música respeita e expressa um peso enorme pela história do funk. Mesclando o trap com muito cuidado, mostrando para a nova geração o som real da favela e, trazendo um pequeno toque de nostalgia pra quem curtia o som dele."

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Mesmo conectado com o rap, o produtor manteve o radar ligado no funk de antigamente. "Daqueles tempos, lembro que cheguei a ouvir MC Daleste, MC Primo e MC Zói de Gato. Mas alguns nomes como o do MC Felipe Boladão e Duda do Marapé, por exemplo, só descobri por ouvir falar e depois através de pesquisas". Vale lembrar: todos os MCs citados foram assassinados nos últimos anos.

Quem esteve presente e conviveu diretamente com os MCs da Baixada é o produtor DJ Cuco, 35, que trabalha no estúdio Bom Bando. Cuco começou cantando rap em 97 e, quando o funk chegou na baixada nos anos 2000, seu estúdio era o principal canal para a produção e gravação do funk paulista. Dentre os diversos trabalhos que fez, inclusive com o falecido MC Primo, a música "A viagem" — o hit de maior sucesso do Boladão — foi gravada e produzida no seu estúdio, como também a faixa "História Cantada" (que tem a participação da mãe de Felipe). "O Boladão faz falta porque no vocabulário (letra) e melodia, ele era diferenciado". E arrisca a dizer que, se o parceiro ainda estivesse vivo, "o nível do funk, no geral, estaria mais alto."

"O talento dele era diferente da geração atual. Posso dizer que, ao executar a ideia desse remix, percebi que hoje há uma ausência de MCs que componham, tenham a atitude na voz e timbre como ele", comenta Leo. O próprio Kondzilla, diretor que ajudou a consolidar o visual do funk paulistano, disse algo nessa mesma linha quando conversamos sobre o MC Primo e os assassinatos da baixada. "Há 10, 15 anos, esse artistas já estavam cantando. Hoje, seriam eles que trariam outras bagagens, uma visão diferente pra galera que está chegando agora."

Entre trancos e barrancos, o funk continua sua caminhada. Mesmo que essas mortes continuem sem solução ou sem o apoio direto do estado, os MCs continuam sendo lembrados pelas suas músicas. A voz do Boladão continua viva neste remix. O MC Primo já foi lembrado também. Talvez, seja dele o mantra para velarmos as mortes desses MCs: "Prenderam meus pensamentos, mas não calaram a minha voz."

Ouça "Baleados pelo Som" no player abaixo:

A Baixada Santista foi o berço do movimento do funk paulistano, ritmo que hoje ocupa nas periferias o espaço que já foi do rap. E desde a formação dessa escola no começo dos anos 2000, houveram diversas baixas no time de MCs fundamentais da Baixada, como os MCs Primo e Felipe Boladão, ambos assassinados em circunstâncias que seguem até hoje sem grandes esclarecimentos por parte da polícia. Recentemente, o Carlos Nunez remixou o MC Primo e hasteou novamente a bandeira do "Prenderam meus pensamentos, mas não calaram a minha voz". Mais uma vez, um remix póstumo resgata as origens do funk paulistano em "Baleados pelo Som", do produtor Leonardo Fernandes com os vocais do do MC Felipe Boladão.

O MC, natural da Praia Grande, ficou conhecido por cantar o famigerado funk proibidão, mas, entre as suas músicas, há sucessos que animam as pistas sem falar do crime. "Bola da Vez", onde o funkeiro fala da alegria de ir para o baile, era uma dessas e foi justamente a fonte para os vocais do remix "Baleados pelo Som". Felipe morreu com 20 anos, na noite do dia 10 de abril de 2010, junto do seu seu DJ, que também se chamava Felipe.

MC Felipe Boladão

A idéia do remix surgiu do Leonardo Fernandes, produtor de 21 anos, mas que respira música desde pequeno. Leo é natural do Capão Redondo, o epicentro da escola do rap da Zona Sul de São Paulo, e não se interessava tanto pelo funk, muito por conta do conteúdo das letras. Porém, recentemente começou a ouvir o funk atual e tomou gosto pela coisa. O produtor conta como surgiu a ideia do remix "Ouvindo a opinião de alguns amigos fascinados por funks antigos, voltei um pouco no tempo e revivi algumas músicas do Felipe Boladão. Quando ouvi a 'Bola da Vez' falei 'É essa!'", conta o produtor que atualmente é parte do projeto Tributo 808, em que mescla trap e a música brasileira.

O insight da música veio como um tiro e em menos de cinco dias o remix estava pronto "Apesar da sua simplicidade, acredito que a música respeita e expressa um peso enorme pela história do funk. Mesclando o trap com muito cuidado, mostrando para a nova geração o som real da favela e, trazendo um pequeno toque de nostalgia pra quem curtia o som dele."

Mesmo conectado com o rap, o produtor manteve o radar ligado no funk de antigamente. "Daqueles tempos, lembro que cheguei a ouvir MC Daleste, MC Primo e MC Zói de Gato. Mas alguns nomes como o do MC Felipe Boladão e Duda do Marapé, por exemplo, só descobri por ouvir falar e depois através de pesquisas". Vale lembrar: todos os MCs citados foram assassinados nos últimos anos.

Quem esteve presente e conviveu diretamente com os MCs da Baixada é o produtor DJ Cuco, 35, que trabalha no estúdio Bom Bando. Cuco começou cantando rap em 97 e, quando o funk chegou na baixada nos anos 2000, seu estúdio era o principal canal para a produção e gravação do funk paulista. Dentre os diversos trabalhos que fez, inclusive com o falecido MC Primo, a música "A viagem" — o hit de maior sucesso do Boladão — foi gravada e produzida no seu estúdio, como também a faixa "História Cantada" (que tem a participação da mãe de Felipe). "O Boladão faz falta porque no vocabulário (letra) e melodia, ele era diferenciado". E arrisca a dizer que, se o parceiro ainda estivesse vivo, "o nível do funk, no geral, estaria mais alto."

"O talento dele era diferente da geração atual. Posso dizer que, ao executar a ideia desse remix, percebi que hoje há uma ausência de MCs que componham, tenham a atitude na voz e timbre como ele", comenta Leo. O próprio Kondzilla, diretor que ajudou a consolidar o visual do funk paulistano, disse algo nessa mesma linha quando conversamos sobre o MC Primo e os assassinatos da baixada. "Há 10, 15 anos, esse artistas já estavam cantando. Hoje, seriam eles que trariam outras bagagens, uma visão diferente pra galera que está chegando agora."

Entre trancos e barrancos, o funk continua sua caminhada. Mesmo que essas mortes continuem sem solução ou sem o apoio direto do estado, os MCs continuam sendo lembrados pelas suas músicas. A voz do Boladão continua viva neste remix. O MC Primo já foi lembrado também. Talvez, seja dele o mantra para velarmos as mortes desses MCs: "Prenderam meus pensamentos, mas não calaram a minha voz."

Ouça "Baleados pelo Som" no player abaixo:

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