Uma noite num bar nigeriano na Cidade Tiradentes com a MC Tha e os suecos da Staycore
Foto por Victor Apolinário

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Uma noite num bar nigeriano na Cidade Tiradentes com a MC Tha e os suecos da Staycore

Num rolê com a jovem MC Thais Dayane de 21 anos, ela repassa seus primeiros passos no funk.

Longe de ter um, digamos, berço musical ou uma trajetória de vida como uma dessas fábulas de cantoras por hereditariedade, Thais Dayane, começou suas rimas nos cadernos da escola, e foi desse jeito que deu vida à MC Tha, nas quebradas da Cidade Tiradentes. "Eu não tenho uma história bonitinha daquelas que diz: 'Sempre estudei canto', 'meu pai era músico' e etc". Inspirada pela rítmica e pela poesia documental de grupos como Expressão Ativa e Racionais MC's, a garota, de apenas 21 anos, paulistana e filha do meio de pais nordestinos, dava as primeiras rabiscadas em seu fichário no ensino médio. "Eu curtia muito poder ver a música, entender a construção, observar o que rimava com o quê. Costumo dizer que só sei compor porque conheci o rap e fiz mesmo o dever de casa!", diz ela sobre seu começo na música: "Certa vez peguei uma fita do meu irmão, um microfone de karaokê, e cantei por cima de uma música do Expressão Ativa. Gravei e esqueci. Meu irmão achou a fita pouco tempo depois e saiu mostrando pra todo mundo com muito orgulho", lembra ela. "Isso foi pouco antes dele morrer, em um acidente de moto em 2006, foi ele que me mostrou o Funk da Baixada Santista. Acho que meu irmão foi meu maior incentivador e estaria dando muito força se estivesse vivo", completa.

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"Revolta da Fiel" foi primeiro single da Mc Tha, gravado no início de 2006.

Mesmo com a música sempre presente em sua vida, MC Tha nunca a encarou como uma alternativa profissional. "Minha mãe trabalhava e nós, eu e meus dois irmãos, ficávamos com a minha avó. E tínhamos um tio que tocava sanfona por hobby", conta ela. "Ficava olhando ele tocar e cantar Luiz Gonzaga e Dominguinhos. A lembrança mais viva é dele cantando "Isso Aqui Tá Bom Demais" do Dominguinhos", diz MC Tha que abriu as portas de sua casa na Cidade Tiradentes e apresentou seu pico, suas manas e nos levou para um rolêzinho por lá.

Talvez você não saiba, mas na década de 1970, a Prefeitura de São Paulo começava a adquirir lotes no extremo leste da capital para construção de casas populares e, desse "empreendimento imobiliário", nascia o bairro da Cidade Tiradentes — hoje considerado o maior complexo de conjuntos habitacionais da América Latina. O bairro, aliás, foi planejado como um grande complexo periférico no esquema "bairro dormitório" (bairros em que as atividades financeiras não são suficientes para empregar e fixar a sua população ativa, o que leva a maioria dos moradores se deslocar diariamente para a cidade mais próxima para trabalhar), assim como aconteceu com a Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. Além do extenso número de conjuntos habitacionais, que compõem a chamada "cidade formal", existe também a "cidade informal", formada por favelas e loteamentos clandestinos. Desse aglomerado arquitetônico, segundo a Prefeitura de São Paulo, calcula-se que o bairro possui aproximadamente 220 mil habitantes.

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Leia: Nove clipes que mostram como era o funk paulista antes da ostentação

No início dos anos 2000, graças a sua concentração multicultural, a Cidade Tiradentes se tornou um dos mais importantes pólos de disseminação do funk fora da Baixada Santista — e foi justamente nessa época que o rítmo começou a migrar das áreas litorâneas para as zonas metropolitanas. A subprefeitura engajada do bairro viu no funk uma forma de estimular a criatividade dos jovens (e afastá-los do crime) com a realização do Funk Festival: Canta Cidade Tiradentes, incentivando a produção de músicos locais, especialmente os compositores que rimavam sobre as temáticas comunitárias. O festival chegou a reunir trinta mil pessoas em uma de suas três edições, tendo recebido MC Menor do Chapa e Sany Pitbull. Foi nesse cenário que nasceram novos MC's e o movimento do funk na periferia metropolitana iniciava seu caminho na conquista por espaço.

Leia: No festival de funk das Fábricas de Cultura de SP, a putaria dá lugar à realidade

Nessa peleja por reconhecimento, MC Tha conheceu Renato Barreiros, sub-prefeito da Cidade Tiradentes que implantou os festivais de incentivo musical numa tentativa de acabar com o estigma de marginal do funk — além de ser um historiador sobre o gênero, auxiliando na construção de inúmeros documentários como o Funk Ostentação, No Fluxo e Na Batida do Eletrofunk. "Renato é um pai pra mim", diz Tha. "Ele me instruiu muito na minha adolescência. Depois que conheceu o funk e viu toda a marginalização que se criava em torno do tema ele passou a defender a causa".

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Eis o início da nossa saga até a Cidade Tiradentes.

Nos encontramos em uma estação na zona oeste de São Paulo, para iniciarmos nossa peregrinação até a micro-metrópole, longo percurso com duas baldeações e mais uma lotação no terminal Corinthians/Itaquera até Cidade Tiradentes — tempo em que procurei saber mais sobre o trabalho e a vida de Mc Tha.

Depois de surgir como uma das poucas MCs no funk paulistano com "Olha quem Chegou", Tha participou recentemente da coletânea Rasteirinha Vol.3 pelo selo Funk na Caixa, do Renato Martins, lançada em dezembro do ano passado, com a canção "Pra Você" produzida pelo DJ Tide. "Eu já tinha a música, mostrei pro Tide, ele curtiu e iniciamos os processos". A parceria foi certeira e a faixa ganhou um videoclipe. "Gostei tanto da minha parceria com o Tide que eu quis fazer um vídeo pra dar uma valorizada a mais", conta a cantora. "Conversei com Jaloo que é meu orientador musical pessoal (haha)". Desse papo, surgiu o videoclipe de "Pra você", dirigido por Jaloo, no quarto do cantor, "Peguei uma colcha na casa da minha mãe e um maiô que paguei R$ 1, juntamos tudo nesse vídeo. Tive que beber um pouco para me soltar", conta MC Tha, em meio a risos. Despida de vergonhas, a MC aparece no vídeo dançando para seu amado na cama, na rede e na cozinha, no maior estilo amador e faz de "Pra Você" uma bela composição voyeur.

Quando pergunto sobre sua relação com Jaloo, ela explica : "Fui fazer faculdade de jornalismo e comecei a trabalhar nas Fábricas de Cultura, um projeto cultural voltado pra galera da periferia. Comecei como monitora nos centros, onde são disponíveis espaços para captação e produção musical. Vinha gente de todo lado, cantavam de gospel a funk e o Jaloo dava uma força no projeto, e foi assim que nos conhecemos e hoje moramos juntos". Depois de duas horas, chegamos ao terminal Cidade Tiradentes cujas proporções acusa o tamanho gigante do bairro. Passamos por uma barraca e comemos um churrasco, enquanto esperamos a chuva dar uma trégua. "Aqui o churrasco custa R$ 1,50, R$ 2 no máximo, o mesmo espetinho lá no centro ia custar R$ 8, no mínimo", compara Tha.

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Animados para a noite que passaríamos no fluxo, fomos diretamente para casa da Mc Tha para começarmos as montações enquanto o videoclipe de "Pra Você" era apresentado à mãe da cantora, que ainda não tinha visto o trabalho finalizado. Era nítido o orgulho. "Às vezes minha mãe chamava as irmãs da igreja e mostrava minhas músicas, era bem engraçado ver a reação delas", conta.

Leia: Quão legal é o fluxo legal?

Começava assim nosso rolê, naquela noite que ameaçava chover. "Aqui tem fluxo acontecendo em diversos pontos, parece até um carnaval fora de época. Só procurar que tem", conta Mc Tha, enquanto andamos pelas ruas da Cidade Tiradentes, acompanhados por Rafaela Andrade, DJ e produtora (Bad$ista), responsável pelo o novo single, "Avisa Lá", de Mc Tha, ainda sem previsão de lançamento. "Estou com outro clipe pronto desde o ano passado da música "Avisa Lá". Perdi o time e acabou surgindo a ideia de fazer o clipe de "Pra Você".

Seu último trampo audiovisual marcou reencontro de MC Tha com as câmeras, "Lancei 'Olha Quem Chegou' em novembro de 2014, foi a música "abre caminhos" já que estava parada a algum tempo", conta ela. "No ano seguinte, não lancei nada porque fiquei vendo qual que era, fiz muitas parcerias e conheci muita gente legal, inclusive minha parceirona aqui, também da ZL", diz Tha apontando para Bad$ista.

Descendo as ladeiras, sem medo, e anunciando a chegada a cada passo, essa é Mc Tha.

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Após algumas investidas em alguns pontos do bairro, como o Setor G e 65, decidimos parar em qualquer lugar, já que a chuva não era mais uma intenção e sim uma realidade. Passamos por alguns bares, karaokês, toldos de salão de cabeleireiros e igrejas evangélicas até que encontramos um bar de Nigerianos. Jeffrey, o dono do lugar, nos ofereceu uma mesa, juntou algumas cadeiras, abriu as primeiras garrafas de cerveja e aumentou o som, que tocava um reggaeton originalmente africano.

Uma decoração cheia de memórias e cacarecos.

Algum tempo depois, nos encontramos com os suecos da StayCore, que vinham em busca de um autentico fluxo paulistano, mas que acabaram ganhando em troca uma noite em um bar nigeriano, regado à um drink de raiz forte e uma seleção musical invejável — contando até com um remix de kuduro de "Bitch Better Have My Money" da Rihanna. A noite tomou rumos inimagináveis. Rodadas de bilhar, acapelas soladas em garrafas de cerveja e, o mais importante, a conquista de novos irmãos na Cidade Tiradentes.

Mc Tha, posando com a decoração mais étnica bar que já vi.

StayCore Gang <3

DJ de soundsystem e dono do bar, Chukwuemeka Egbu manja de artes.

SNAPCHATTING

Ghazal Irandoost posando seu corte novo <3

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