Mossless In America: Curran Hatleberg

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Mossless In America: Curran Hatleberg

Mossless in America é uma nova coluna que apresenta entrevistas com fotógrafos documentais. A série é produzida em parceria com a revista Mossless, uma publicação fotográfica experimental comandada por Romke Hoogwaerts e Grace Leigh.

Mossless in America é uma nova coluna que apresenta entrevistas com fotógrafos documentais. A série é produzida em parceria com a revista Mossless, uma publicação fotográfica experimental comandada por Romke Hoogwaerts e Grace Leigh. Romke começou a Mossless em 2009 como um blog onde ele entrevistava um fotógrafo diferente a cada dois dias. Desde 2012, a Mossless já teve duas edições impressas, cada uma lidando com um tipo diferente de fotografia. A Mossless foi destaque na exposição de 2012 Millemmium Magazine, no Museu de Arte Moderna de Nova York, e conta com o apoio da Printed Matter, Inc. A terceira edição, um volume dedicado à foto documental norte-americana dos últimos dez anos, é intitulada The United States (2003 – 2013), e será lançada em breve.

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Riverfront, 2012.

Curran Hatleberg foi um dos primeiros fotógrafos que nos inspiraram a pesquisar fotos no estilo documental para a terceira edição da revista. Suas fotos, tiradas em viagens de carro pelos Estados Unidos, são honestas e naturalmente ambíguas. Seja uma mulher com o olho roxo ou um memorial pendurado numa árvore, as imagens de Curran fazem o espectador questionar as circunstâncias invisíveis ao redor das fotos.

Nesta coluna, vamos entrevistar vários fotógrafos da terceira edição de nossa revista, a Mossless. Como Curran, os outros artistas que escolhemos fotografam a América moderna, capturando a essência do que é viver nesse país durante essa década particularmente difícil.

Mossless: Conte uma história memorável de suas viagens pela América.

Curran Hatleberg: Um tempo atrás, eu estava sentado num bar vazio olhando para a entrada, que dava para uma rua suja. A porta estava aberta, enquadrando uma visão perfeita das pessoas e dos carros que passavam naquela noite. Estudei milhares de insetos rodeando e se chocando com a lâmpada de um poste. Vi uma mulher nervosa e magra mostrar seus dentes de ouro de relance, depois soltar uma casca de laranja na calçada. Aí vi um sedan dar de cara com um pilar de concreto a 80 km/h. O carro subiu o poste com uma velocidade incrível, ficando completamente na vertical antes de pousar de cabeça para baixo. O evento me pareceu lento, gracioso e muito distante. Fiquei olhando, imóvel, pelo que pareceu ser muito tempo, tentando decidir se o que eu tinha visto realmente aconteceu ou não. Antes que eu desse por mim, eu estava de joelhos, ofegando, ao lado da janela do motorista. Tudo cheirava a gasolina. Vidro e detritos estavam espalhados por toda parte como confete. Lá dentro, o motorista tinha sangue escorrendo pelo rosto e ria incontrolavelmente. Com ajuda de outro homem, arrastei ele para fora da janela pelos braços. O motorista começou a se contorcer no chão em convulsões espasmódicas. Uma multidão se reuniu em torno dele sem saber o que fazer. Tudo aconteceu muito rápido, mas lembro claramente de ficar olhando para os pneus do carro, girando propositalmente, como se a estrada ainda estivesse embaixo deles.

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Quanto tempo você viajou fotografando?

Uns 31 anos.

Seu trabalho é dividido em dois corpos: Dogwood e The Crowded Edge. O que separa essas séries?

Ambos são subconjuntos de um trabalho inacabado maior, ligado a uma viagem sem rota. Talvez eles possam ser pensados como capítulos diferentes de uma mesma história; os dois examinam a mesma ideia, mas de perspectivas separadas. A maior diferença é que The Crowded Edge é organizado ao redor de um único evento, enquanto Dogwood é mais relaxado, revolvendo mais ao redor da maneira como a vida avança, e como somos varridos e deslocados de nossas próprias vidas.

Laurie, 2010.

A ambiguidade é um elemento poderoso em muitas de suas fotos. Em sua entrevista com o Great Leap Sideways, você elaborou sobre uma fotografia chamada “Denver, Tear”, fornecendo muito contexto emocional. Eu gostaria de ouvir a história por trás de “Laurie”, a garota ruiva com um curativo na testa. Você pode contar? Ou é melhor não sabermos?

Em última análise, fornecer a história de uma foto é problemático, porque isso pode dominar os saltos de imaginação que o espectador daria sozinho. Uma das coisas de que gosto na fotografia é que ela é silenciosa, então, a invenção e interpretação pessoais do espectador são convidadas a governar o significado da imagem. Por essa razão, não quero que minhas imagens afirmem o que está acontecendo, mas sim, que sugiram o que pode estar acontecendo. As melhores fotos retratam um momento que é interessante precisamente por causa de sua falta de clareza narrativa. Elas nos tentam a acreditar numa estrutura narrativa, mas retendo deliberadamente a narrativa ao mesmo tempo, então, a única resposta do espectador é se maravilhar.

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O que mais te surpreende nas pessoas que você conheceu?

Provavelmente, a habilidade das pessoas de ser tanto previsíveis como inteiramente incalculáveis.

Curran Hatleberg é um fotografo que vive atualmente no Brooklyn, estudou na Universidade do Colorado e na Escola de Arte de Yale. Suas obras participam de exposições nacionais e internacionais e estão incluídas em diversas coleções. Atualmente, ele ensina fotografia no Centro Internacional de Fotografia de Nova York e no Norwalk Community College.

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Tear, 2011

Chill, 2009

Cigarettes, 2011

Adrian, 2011

Dog, 2009

Waiting, 2012

Alley, 2011

Black Eye, 2012