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Fotos

Os postais litorâneos que Portugal não mostra aos seus turistas

"O principal objetivo deste trabalho é documentar a mudança da paisagem costeira nos últimos 50 anos", resume o fotógrafo português Diogo Andrade
15.6.16

Matéria originalmente publicada pela VICE Portugal.

Todas as imagens cortesia de Diogo Andrade.

Entre abril e maio de 2015, Diogo Andrade, 30 anos, percorreu a costa portuguesa de Norte a Sul. Objetivo: "Averiguar e registar em imagens o impacto visual que a ação humana inflige na paisagem do nosso litoral". Documentarista e fotógrafo freelancer, Andrade é de Sintra, mas há vários anos está sediado em Milão, Itália, onde estudou Design de Comunicação no Politecnico di Milano e Edição de Fotografia e Investigação Iconográfica na CFP Bauer.

"Ainda que me considere um fotógrafo de paisagens, o meu principal interesse passa por documentar os locais onde a atividade humana e o ambiente natural colidem e criam uma espécie de habitat híbrido", descreve Diogo, naquele que é um resumo perfeito do projeto "O Jardim". Resultado do périplo por um Portugal de que, por vezes, os portugueses parecem esquecer, este conjunto de imagens é o espelho perfeito da intervenção desregrada de décadas de autênticos crimes ambientais levados a cabo por todo o país. Em nome do progresso, dizia-se antigamente.

Hoje, aquilo que há 20 ou 30 anos era tema de destaque e preocupação dos mais atentos e ativistas, parece ter desaparecido na espuma midiática do Portugal destino turístico do Mundo. A desolação e o ambiente quase surreal do projeto fotográfico de Diogo Andrade mostra um país que não aparece nos postais ilustrados e nas selfies que milhares de turistas levam para casa todos os anos. E a verdade é que o cantinho à beira-mar plantado, pleno de sol e férias baratas, também é isto. Chaminés, muros de pedra, complexos industriais, decadência e esquecimento.

Falamos com o fotógrafo sobre este "Jardim".

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VICE: Quando vi esta tua série de fotos fiquei bastante impressionado com a desolação que transmite. Foi uma coisa que você quis transmitir deliberadamente, ou acabou por ser uma consequência do que encontrou?
Diogo Andrade: Digamos que não fui exatamente à procura dos recantos idílicos dos quais todos já ouvimos falar. Neste trabalho quis mostrar, sobretudo, as zonas nas quais coexistem o elemento natural e o elemento "humanizado" da paisagem. A desolação, mais do que um "mood" deliberado, é, de facto, uma consequência do que fui encontrando. E o facto de ter feito este projecto na chamada época baixa talvez também ajude um bocado.

As fotos acabam por passar uma imagem da costa portuguesa que todos sabemos que existe, mas que, nos últimos anos, de certa forma acreditamos que era uma coisa do passado. Concorda?
Acho que as pessoas tendem a esquecer-se daquilo que não vêem nos media. Sim, já todos ouvimos falar na antropização do território costeiro, mas como não há muita divulgação desta realidade, facilmente nos esquecemos dela. Uma das motivações quando comecei a documentar-me sobre este assunto foi a vontade de mostrar algo sobre o qual, hoje em dia, praticamente não se fala. Ouvimos e lemos muita coisa sobre a Costa, mas só quando há inundações, ou quando chega o Verão e é preciso fazer o milésimo roteiro das praias mais bonitas e dos melhores restaurantes…

Outra coisa que me parece clara é que você quis contar uma história. Qual é essa história e porque você quis contá-la?}
O principal objectivo deste trabalho é documentar a mudança da paisagem costeira nos últimos 50 anos. Procurei investigar os efeitos que certas mudanças na sociedade portuguesa, desde os anos 60 (melhoria das condições gerais de vida, férias pagas, ordenados suficientes para comprar/alugar uma casa à beira-mar, massificação do uso do automóvel) tiveram na alteração da paisagem, sobretudo a nível visual.

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Esta é, portanto, a história de um país onde se constrói primeiro e se pensa depois. Um país para o qual é mais importante o dinheiro que se ganha com a atribuição de licenças de construção do que o dinheiro que se gasta anualmente para proteger as zonas em risco de inundação e erosão. É uma história de falta de pensamento estratégico e tutela do território, de promiscuidade entre interesses econômicos de uns quantos e o poder de outros, sobretudo a nível autárquico.

Você mora na Itália e certamente tem a sensação de que Portugal como destino turístico é cada vez mais uma realidade. As praias são o nosso cartão de visita. Qual é a reação dos teu amigos estrangeiros, por exemplo, quando lhes mostra esta outra realidade?
A maioria dos estrangeiros a quem mostro este trabalho não fazem ideia de que existe esta realidade. Portugal é ainda, e felizmente, visto como um dos santuários europeus a nível paisagístico. No entanto, falando especificamente dos italianos, sabem bem que no melhor pano cai a nódoa e que nem sempre são as pessoas mais capazes, ou diligentes, a gerir o desenvolvimento sustentável do território. Este é um país no qual também se cometem graves erros a nível de "cimentificação", com a agravante de existirem infiltrações mais ou menos mafiosas em todos os sectores econômicos/políticos.

Tinha um plano delineado de viagem, já sabia o que querias fotografar, ou simplesmente desceu a Costa e ficou surpreendido com o que viu?
Sabia quase na totalidade o que ia fotografar. Antes de partir para Portugal, passei quase seis meses a ler tudo o que conseguia encontrar, desde arquivos online de jornais e revistas, até teses de doutoramento. Por outro lado, a nível visual, aproveitei as facilidades da Internet para criar uma espécie de diário gráfico com imagens dos sítos mais importantes.

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Não obstante toda a preparação, há sempre uma percentagem de improvisação e de descoberta que acrescenta um valor - para mim inestimável - a este tipo de trabalho.

Você planeja outros trabalhos em Portugal?
Sim, sem dúvida. Já estou a preparar um novo trabalho, desta vez relacionado com as periferias das cidades portuguesas.

Abaixo você pode ver mais imagens da série "O Jardim". Siga o Diogo Andrade no Instagram e veja outros trabalhos no seu site.

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