Como as artistas porno contornam as regras de nudez das redes sociais
Ilustração por Joel Benjamin
Sexo

Como as artistas porno contornam as regras de nudez das redes sociais

Apesar de alguns serviços terem oficialmente proibido a veiculação de conteúdos adultos, é relativamente fácil encontrar pornografia no Twitter e no Snapchat e essa tendência parece estar para ficar.
03 August 2016, 10:00am

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Só precisas de dar uma vista de olhos rápida pela conta do Twitter de Meana Wolf para tropeçares num vídeo em autoplay que mostra um pénis enorme. Wolf é uma atriz porno especializada em fetiches, portanto não será uma surpresa por aí além. O que pode parecer estranho é que as pessoas continuem a cruzar-se com conteúdo adulto em redes sociais que não foram criadas primariamente para pornografia. Do Twitter ao Snapchat, Whatsapp, Tumblr, Instagram - e até no LinkedIn - consegues encontrar pornografia em todas as plataformas sem restrição de idade.

Wolf diz que embora o Twitter seja útil para publicitar o seu trabalho, usa a rede "principalmente para networking". "O Twitter é, muitas vezes, o principal ponto de contacto entre artistas e produtores e já conheci muita gente da indústria [no Canadá] depois de as seguir e por mensagem privada", salienta.

À actriz porno amadora Curious Clover, a plataforma também pareceu um bom sítio para começar. "Há uns anos, a PlumperPass abordou-me pelo Twitter e pouco depois já estava em Miami para a minha primeira cena. Vou voltar em Agosto e já estou a falar com outras companhias através do Twitter, portanto, definitivamente, esta é uma boa forma de fazer com que as pessoas reparem em ti". Resumindo, o Twitter é uma grande ferramenta de marketing, mesmo não gerando dinheiro directamente.

O site em si não paga aos artistas, mas age como uma alavanca para que os consumidores conheçam e paguem por conteúdo noutros sites. Tanto Meana Wolf como Curious Clover "tuitam" um gif ou teaser de fotos assim que lançam um novo conteúdo, juntamente com um link. E tal como o editor de redes sociais de qualquer publicação online, tiram depois vantagem dos números.


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"Desde que comecei a monitorizar as minhas publicações com uma aplicação que mostra de onde vêm os cliques, notei um aumento considerável de visualizações", diz Clover. "O Twitter trouxe-me mais tráfego". Também é comum que camgirls tuitem a alertar para as próximas actuações online, convidando os seguidores para clicarem num link e, assim, terem uma gratificação instantânea. Clover diz que numa actuação online normal teria sorte se fizesse entre 20 a 50 dólares, mas se tuitar sobre o evento, consegue um retorno muito maior. Mais de 100 dólares por actuação.

Nos últimos anos, Clover diz que o Twitter tornou-se "a principal plataforma para que as camgirls consigam postar conteúdo adulto e fotos explícitas sem problemas". Em comparação com plataformas como o Facebook e o Tumblr, o Twitter tem a reputação de ser tolerante com conteúdo pornográfico. Nos Termos de Serviço, o site diz não permitir imagens pornográficas no perfil, ou na imagem de avatar, mas permite certas formas de conteúdo forte nos tuites marcados como "conteúdo sensível".

Clover conta: "Essa definição normalmente é colocada em quase todas as minhas publicações, mas nem sempre". Mesmo se um post recebe a classificação de material sensível, todos os utilizadores podem ainda clicar em "visualizar" e ter acesso ao conteúdo. Clover diz que, por isso, "a censura do Twitter não é realmente censura", e que, na verdade, ela gostaria que houvesse uma forma mais eficiente de bloquear este tipo de material, porque "o Twitter está a ficar mais popular entre crianças agora. Quando penso na minha irmã que tem apenas 12 anos...".

O Twitter não respondeu aos meus pedidos de comentário, mas uma olhadadela rápida ao histórico da empresa mostra que a censura não é o seu forte. Em 2009, sofreram críticas por publicarem anúncios ao lado de perfis porno, que depois foram atacados por um hacker que espalhou um Cavalo de Tróia nos computadores dos utilizadores. Na verdade, num memorando conhecido em 2015, o CEO da plataforma, Dick Costolo, declarava a sua incompetência em censurar trolls e similares. "Há anos que somos péssimos nisso", escreveu.

"Os meus fãs gostam de ver o que acontece nos bastidores. Querem sentir que és como a vizinha deles e não apenas alguém de quem compram pornografia; isso conseguem de graça" — Curious Clove

Isto acontece provavelmente porque, fora alguns sistemas de censura automatizados, o Twitter confia em crowd sourcing para denunciar a maioria do material sensível. O ónus de denunciar conteúdo forte recai no público. Com o Twitter a crescer de forma exponencial, aplicar regras de maneira uniforme parece menos fiável. Tipo, quem é que se vai importar com flashes de rabos e mamas? Um pouco como acontece com as drogas legais, uma conta porno pode mudar ligeiramente a sua fórmula e passar pela rede.

É assim também no Snapchat, em que centenas de artistas porno e até empresas como o RedTube e o Brazzers já têm contas. Clover é uma das muitas actrizes porno que cobra pelo acesso ao seu Snapchat, seja uma taxa mensal, anual ou vitalícia. Nos Termos de Serviço, o Snapchat proíbe especificamente a venda de snaps sem a permissão escrita deles, o que, todavia, não parece ter muita força.

"Eu costumava cobrar 10 dólares por mês e 50 dólares por uma assinatura anual. Mesmo se as pessoas te encontram sem pagar, podes bloqueá-las." Muitos artistas também têm listas de desejos e alguns só permitem o acesso ao seu Snapchat para quem comprar algo dessas listas. Listas de desejo podem conter desde lingerie até um carro. Clover diz: "A maior doação que recebi foi de um homem que me enviou um cheque de cinco mil dólares para que eu pudesse comprar um carro".

Mas muitos artistas, incluindo Clover, decidiram entretanto deixar o acesso aos seus Snapchats gratuito. "É uma boa ferramenta de marketing", considera. "Tento equilibrar coisas da indústria porno com coisas do meu dia-a-dia, porque os meus fãs também gostam de ver o que acontece nos bastidores. Querem sentir que és a vizinha deles, não só alguém de quem compram pornografia; isso conseguem de graça em qualquer sítio".

Essa parece ser a chave para fazer dinheiro na indústria porno. Wolf concorda. "As maiores empresas de porno querem ver o artista a ligar-se aos fãs, que é algo grande hoje em dia. Porquê? Porque as pessoas não querem só masturbar-se a ver as tuas actuações. Também querem ver as tuas fotos no Instagram e conhecer-te através dos teus tuites e snaps".

Wolf diz que muitos fãs estão a tentar criar um contexto emocional para o seu desejo, que também se sentem atraídos pelos seus caprichos quando ela não está a actuar. A actriz conclui que "quanto mais gostam de um artista, mais da sua presença nas redes sociais e vídeos vão querer consumir, e isso é extremamente vantajoso para as empresas porno que vendem assinaturas. No final de contas, é uma situação em que todos ganham".

Os artistas porno estão sempre a inovar e enquanto as redes sociais se desenvolvem, a indústria do sexo está a encontrar mais e mais maneiras de tirar vantagem delas. Com os sites pornográficos a representarem 52 por cento de todas as visualizações de Internet no Reino Unido, por exemplo, está claro que a indústria do entretenimento adulto vai passar por todas as barreiras, mesmo com a restrição de idade online no caminho. Esta é uma erecção muito difícil de mandar abaixo.

@amberroberts6