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Vlad Sokhin: Tudo começou no início do século XX, quando os ocidentais começaram a chegar nas ilhas malásias, como Papua-Nova Guiné, Vanuatu e Ilhas Salomão. Quer dizer, imagina ver aviões e barcos pela primeira vez na vida. Para eles, era literalmente um milagre vindo do céu — seres estrangeiros apareceram nessas coisas enormes e barulhentas e deram rifles, roupas e comida aos locais.

Sim, eles explicaram, mas profetas locais passaram a dizer que os ilhéus eram aqueles que realmente mereciam toda a carga — que isso tinha sido dedicado a eles pelos deuses — mas que os ocidentais tinham sido espertos e tomado posse de tudo injustamente. As pessoas começaram a acreditar que, se eles imitassem os ocidentais, receberiam as mesmas coisas. Aí os ilhéus construíram carcaças de aviões de madeira, fizeram pistas de pouso no meio da selva e esperavam nessas pistas o dia inteiro com bandeiras, tentando guiar um avião pra lá.
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Não. E isso só aconteceu em Tanna. Depois que o culto fracassou em todas as outras ilhas, eles pararam de fazer isso aqui também, já que aviões trazendo turistas e dinheiro continuaram chegando à ilha toda semana, do mesmo jeito. No entanto, algumas pessoas mais velhas continuam indo para o aeroporto todo dia pra esperar os aviões, na esperança que John Frum esteja em algum deles.

Acredito que ele tenha sido um homem de verdade. Vanuatu era uma colônia britânica e francesa nos anos 30 e, em 1937, um homem chamado John Frum aparentemente chegou em Tanna. Ele era um soldado negro, provavelmente da América, mas não sei se o nome dele de verdade era John Frum. Acho que ele deve ter dito: “I am John from America”, e os locais entenderam “John Frum”.Mas o que o transformou nessa divindade dos ilhéus? Eles tinham visto muitos outros soldados antes, não?
Sim, mas ele era o soldado de mais alta patente na ilha, então os ilhéus viram soldados brancos engraxando os sapatos de um homem com a mesma cor de pele deles e acharam que isso era uma prova do plano original de Deus — que eles eram os donos da carga por direito.

Sim, aparentemente ele disse aos ilhéus pra parar de usar todas as coisas que os ocidentais davam pra eles — parar de tomar o vinho e fumar cigarros —, assim a carga voltaria pra eles. Toda noite de sexta-feira é a noite de John Frum, os seguidores se reúnem e tocam música com violões. Parece um pouco com música country americana, e as letras falam sobre os apóstolos de John Frum, Jerry Cowboy e Jimmy Cowboy, dois personagens de filmes norte-americanos antigos de bangue-bangue.
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Sim, todo ano, no dia 15 de fevereiro, todos eles se vestem com uniformes da marinha norte-americana, marcham ao estilo norte-americano, com bandeiras de estrelas e listras, e pintam a ponta de suas lanças de bambu de vermelho pra que pareçam rifles norte-americanos. Alguns esculpem armas mais elaboradas, como AKs-47 de madeira. A ideia é que John Frum vai retornar no dia 15 de fevereiro com um suprimento infinito de carga, significando que Tanna será o paraíso na Terra, enquanto o resto do mundo vai desaparecer. Mas eles não sabem em que ano isso deve acontecer, então fazem a comemoração todos os anos.

É, Isaac Wan, o homem mais velho da vila, é o líder do culto a John Frum, então é ele quem faz as orações em todos os eventos. Ele sempre fica um pouco chateado, mas depois dá de ombros e diz que espera que John Frum volte no ano que vem.Curti o otimismo. Então, você estava dizendo que o culto a John Frum rejeita a cultura norte-americana, mas eles continuam se apropriando disso nos uniformes, bandeiras e armas.
Eles acreditam que os símbolos norte-americanos são significados universais de carga, então os usam, mas não aderiram ao estilo de vida, se é que isso faz sentido. Todas as roupas que eles usam são de segunda mão, então parece que aceitaram a cultura ocidental superficialmente, mas as roupas são praticamente a única coisa similar à nossa cultura. Só duas pessoas na vila têm painéis solares, para carregar celulares, mas não há TVs, nenhuma outra forma de eletricidade, nenhuma mídia e definitivamente nada de internet.
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Pra ser honesto, não tenho certeza. Sei que a Rainha e o Príncipe Philip fizeram uma visita oficial a Vanuatu nos anos 70, o que com certeza fortaleceu o movimento. Mas sei que o culto começou pelo menos uma década antes. É bem menor que o movimento de John Frum, mas você tem razão, isso ainda não explica como começou.Estranho. No que eles acreditam?
Eles acreditam que o Príncipe Philip é irmão de John Frum e que ele nasceu em Tanna, mas acabou indo para o ocidente e casando com uma mulher muito poderosa. Eles acreditam que quando morrer, ele retornará para Tanna em forma espiritual e trará toda a fortuna da coroa britânica com ele.Eles realmente adoram o Príncipe como um deus?
Bom, eles têm retratos dele e oram pra esses retratos, mas como alguns membros da vila foram levados para Londres por um programa de televisão para se encontrar com o Príncipe, acho que hoje em dia eles o respeitam mais como um ancião.

Eles realizam uma grande festa todo ano no dia 10 de junho — o aniversário do Príncipe —, do mesmo jeito que acontece com o culto de John Frum. Mas não há insígnias norte-americanas, só a bandeira do Reino Unido e muita dança. E eles fazem a adoração em Nakamal, o lugar sagrado deles, ou no túmulo do fundador do culto. Ele morreu alguns anos atrás, agora o filho dele é o líder do movimento.Os dois cultos se dão bem?
Sim. Quer dizer, não há animosidade, porque o Movimento do Príncipe Philip acredita que ele é irmão de John Frum, mas eles não se visitam nem nada assim.

É uma coisa interessante, na verdade. Há uma igreja chamada Unity of John in Christ, que é basicamente uma igreja que tentou converter os seguidores de John Frum ao cristianismo, mas falhou, então eles simplesmente misturaram as duas crenças.E como isso funciona?
Eles basicamente adicionaram John Frum à Bíblia e dizem que ele é um apóstolo, mas ainda tentam de todo jeito converter todo mundo ao cristianismo. Sem muita sorte, devo dizer.
