De Rolê no Mercado Ilegal La Candonga, em Havana
Foto: Gabriel Uchida

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Até Cubanos

De Rolê no Mercado Ilegal La Candonga, em Havana

A vendedora disse que qualquer coisa que eu estivesse procurando era só falar porque se não estivesse naquela casa, estaria em outra então pensei rapidamente no que de pior poderia escolher e pedi armas. "Também tem arma aqui, mas é melhor você não se...
2.9.15

Ruas de terra e esburacadas, becos e vielas, casa construídas claramente sem padrão ou organização, portões improvisados e remendados com todo tipo de material possível e muito lixo jogado em qualquer lugar. Poderia ser uma favela brasileira, mas é parte do bairro San Miguel del Padrón, em Havana. Depois de fazer um rolê meio deprê de compras na capital cubana e descobrir que os preços são equivalentes a meses de salário de um trabalhador normal, fui buscar uma alternativa mais econômica e encontrei o mercado ilegal conhecido como La Candonga.

Foto: Gabriel Uchida

Pesquisando sobre o local, todos me diziam o mesmo: lá se pode comprar de tudo, mas é preciso ir com algum morador do bairro porque é perigoso - afinal, é ilegal. Encontrei um amigo que tinha um conhecido na região e topou nos acompanhar. De fato, forasteiros são vistos com desconfiança. Recebíamos olhares de estranhamento de todos os lados e dava para perceber as pessoas comentando nossa presença. Eu evitava falar ou apenas resmungava baixo para não ouvirem meu sotaque de gringo. Fotografar ali era bem difícil. Estava usando uma camiseta preta, uma bolsa na altura da cintura e uma câmera pequena, ambas também da mesma cor - tudo para tentar camuflar um pouco. Uma senhora nos viu como possíveis compradores e disse que teria várias roupas que deveriam nos interessar, mas quando notou as fotos, fechou o portão da viela na nossa cara e disse que ali não tinha nada.

Foto: Gabriel Uchida

Resolvi então guardar a câmera um pouco para dar um rolê mais tranquilo e ver melhor como eram as vendas. Muitos produtos, como ouro, roupas e óculos eram vendidos na rua mesmo, direto da mão dos vendedores. Mas o comércio também continuava dentro das casas, com camisas, bolsas e calças penduradas em todos os lugares de quartos e salas. O banheiro ou qualquer outro cômodo servia como provador e geralmente havia duas entradas, uma pela frente e outra pelos fundos. Nas casas um pouco mais espaçosas tinham várias mesas de diferentes tipos de produtos, era material de limpeza em um canto, pulseiras em outro e panelas um pouco mais adiante. Tudo bastante movimentado e muita gente se espremendo.

Foto: Gabriel Uchida

Em uma das casas a dona pareceu um pouco mais amigável e não só explicou um pouco o rolê como também deixou tirar algumas fotos - sem mostrar ninguém, obviamente. Ela contou que o mais procurado na Candonga eram as roupas e suas peças variavam de R$ 7,00 a cueca a R$ 90,00 a calça jeans, tudo trazido de Miami - mas segundo meus amigos, grande parte daquela mercadoria de cara duvidosa vinha mesmo do Panamá ou do México. A vendedora ainda disse que qualquer coisa que eu estivesse procurando era só falar porque se não estivesse naquela casa, estaria em outra e ela saberia dizer onde. Meus guias também reforçaram a tese e então pensei rapidamente no que de pior poderia escolher e pedi armas. "Também tem arma aqui, mas é melhor você não se meter nisso", foi o sábio conselho que ouvi. Então, já que Raúl Castro havia declarado publicamente que Cuba estava livre de drogas e que na ilha só existia "um pouquinho de marijuana", fui atrás de entorpecentes.

Foto: Gabriel Uchida

Contrariando as palavras do presidente, as opções na Candonga eram maconha, cocaína e algumas pastilhas de medicamentos. Saquei dez dólares e disse que queria um pouco de cada remédio. Recebi quatro comprimidos de Parkisonil, que é usado no tratamento de mal de Parkinson, e três de Ritalin, que é receitado para pessoas com déficit de atenção. Segundo rápida explicação, o primeiro te deixa um pouco lento e confuso e o segundo te acelera, algo semelhante à cocaína. Preferi ficar mais ligadão, tomei o Ritalin e dei os outros para meus amigos. Já no táxi de volta, explicaram que muito raramente se encontra LSD em Cuba, mesmo na Candonga onde se vende de tudo, e que o mais próximo que se pode chegar do efeito do "doce" é tomando três ou mais comprimidos do que eu tinha experimentado. A princípio, fiquei feliz pela escolha e ansioso pelo efeito. Mas, passado algum tempo, senti como se tivesse tomado outro medicamento, algo talvez como aspirina, porque não senti absolutamente nada.

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