cinema

O impacto de Larry Clark na cultura jovem

O realizador de "Kids" chegou recentemente aos 74 anos. Fizemos uma lista que prova porque é que o norte-americano é, e sempre será, um oráculo da juventude.

Por Colin Crummy
27 Janeiro 2017, 2:40pm

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma iD-US .

1. Kids

Óbvio, claro. Clark deu-nos Kids, um filme considerado tão polémico na altura do seu lançamento, em 1995, que um crítico o apelidou de "pornografia limítrofe". 

Mas, a longevidade da obra - celebrada no ano passado com uma série de eventos de reunião para marcar o 20º aniversário - ilustra bem como a sua narrativa destruidora de tabus, de sexo explícito, drogas e skate se tornou um retrato definitivo da juventude dos anos 90.


2. A influência sobre uma geração de cineastas

Muito antes do burburinho com Kids, Clark era já um fotógrafo celebrado, cujo trabalho documentava as actividades sexuais e de consumo de drogas entre adolescentes. Começou em 1959, a fotografar amigos que injectavam anfetaminas. Essas fotos dariam origem ao seu primeiro livro, Tulsa, lançado em 1971. 

O seu trabalho evoluiu depois para uma reflexão sobre o efeito dos media na cultura adolescente. Não é, por isso, surpresa descobrir que, por exemplo, um realizador como Gus Van Sant tenha sido influenciado pelas primeiras fotos de Clark. Uma estética muito perceptível no seu filme de 2003 Elephant.

3. E sobre um outro cineasta em particular

Harmony Korine era um skater de 19 anos, a rolar no Washington Square Park, em Nova Iorque, quando reparou em Clark a tirar fotos. Conversaram e Clark sugeriu que Harmony escrevesse um guião sobre as suas experiências. 

Harmony demorou três semanas a escrever Kids. Desde então, ganhou uma notoriedade parecida com a de Clark, assente em filmes controversos como Gummo, Trash Humpers, ou Spring Breakers.

4. Apresentou Chloë Sevigny ao Mundo

Harmony conheceu Chloë Sevigny no Washington Square Park, em 1993, no último ano dela no secundário. Ficaram amigos e, por isso, ela foi escolhida para Kids. Sevigny estava longe de ser desconhecida na época (uma presença forte na cena de Nova Iorque, inspirou um artigo de 1994 da revista The New Yorker, que a declarava "a rapariga mais espectacular do Planeta"). 

Mas foi o filme de Clark que colocou Sevigny no mapa do mainstream e o título de "rapariga mais espectacular do Planeta" pegou. Entrou, entre outros, em Dogville, Psicopata Americano e Boys Don't Cry, além de ser uma verdadeira musa fashion.

5. Deu-nos uma lição de anti-estilo...

Vinte anos depois, Kids continua a fazer parte da cartilha da contracultura da moda, pela sua promoção casual a marcas - Converse, York, Ralph Lauren - e absoluto desdém por regras de estilo.

6. ... que a American Apparel seguiu

Vê o filme, depois compra o look. As peças, estilo e campanhas igualmente explícitas da American Apparel vieram directamente da cidade de Larry.

7. Introduziu os skaters na equação

Hoje, podes achar que os skaters são cool, mas nem sempre foi assim. O filme trouxe a cultura do skate para um público maior, enquanto marcas como a Supreme começavam a ganhar impulso. A Supreme tinha acabado de abrir a sua primeira loja quando Kids foi lançado e a empresa contratou Gio Estevez, que recentemente disse ao Guardian: "O skate nem sempre foi fixe. Aparecíamos numa festa e toda a gente fazia cara feia, do tipo 'quem é que convidou os skaters? Merda. Escondam a cerveja'". 

No entanto, levar a cultura do skate para o mainstream também quer dizer que Larry é responsável por "Sk8er Boi", a ode aos putos da cena, criada por Avril Lavigne em 2002. Não dá para ter tudo na vida.

8. Também teve alguma responsabilidade por Skins

A miudagem dos anos 2000 da série dramática, transportou as drogas e o sexo inconsequente de Manhattan para Bristol. Surpreendentemente, funcionou.

9. E, depois, temos Bully

Com todo o barulho à volta de Kids e Ken Park, outro filme notório de Clark que apresentava miúdos a praticarem asfixia auto-erótica e a ejacularem, o resto da obra do realizador pode passar despercebida. 

Bully, baseado na história real de amigos que decidem assassinar um rapaz do seu grupo, depois de ele os abusar física e sexualmente, apresenta todos os chocantes padrões da obra de Clark, mas também é cru e frio. É, talvez, o seu trabalho mais sério. O filme também mostra a principal intenção de Clark, ser real sobre o tema, de uma forma que o lendário crítico de cinema Roger Ebert descreveu como "desmascarando o bluff dos filmes que fingem ser sobre homicídio, mas são sobre entretenimento... Clark não é um adulto objetificador, mas um artista que mergulhou na sua paisagem mental adolescente".

10. Um dos maiores documentaristas da vida adolescente

Numa entrevista ao Guardian, Clark disse que o melhor elogio que já recebeu foi de um jovem sobre Kids: "Aquilo não é um filme. Aquilo é a vida real".