Guerras e Conflitos

Como é viver em Raqqa, Síria, uma cidade controlada pelo ISIS

O jornalista Mike Thomson acabou de editar um livro com o diário de um jovem preso na capital do Estado Islâmico.
9.3.17

Ilustrações cortesia da Penguin.

A cidade de Raqqa, na Síria, se tornou um dos lugares mais isolados da Terra. A população vive sob o comando do autodenominado Estado Islâmico (EI), que tornou a cidade sua capital no começo de 2014. Desde então, o governo opressivo do EI está tornando a vida dos habitantes um inferno; eles não podem fumar ou assistir TV, e precisam seguir um código de vestimenta severo, que – se desobedecido – pode render de chicotadas a pena de morte.

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Raqqa Is Being Slaughtered Silently é um grupo documentando essas atrocidades, mas muitos de seus ativistas fugiram da cidade para salvar a própria vida. O IE monitora toda a informação saindo e entrando em Raqqa, e comunicação com jornalistas ocidentais é punida com morte. Por isso é tão incrível que o correspondente da BBC Mike Thomson tenha conseguido fazer contato com alguém que queria falar na cidade.

Samer (não seu nome verdadeiro) é um estudante de 24 anos de Raqqa que queria contar ao mundo sua história, enfrentando um risco enorme para fazer isso. No último ano, Mike vem recebendo os diários de Samer através de mensagens criptografadas enviadas através de um terceiro. Traduzidos por Nader Ibrahim, os diários descrevem uma situação desesperada e brutal.

Ilustração de uma área destruída de Raqqa.

Samer é parte do Al-Sharqiya 24, um pequeno grupo ativista de mídia. Ele participou do levante inicial contra o presidente Assad, antes que sua cidade natal caísse sob o Exército Livre da Síria e um grupo islâmico extremista em março de 2013. Logo depois, estranhos – como ele coloca – sob a bandeira do EI começaram a aparecer na cidade e tomaram o controle. Samer continuou em Raqqa mais tempo que a maioria dos moderados, mas recentemente conseguiu escapar. A publicação de seus diários, num livro editado por Thomson e publicado pela Penguin, The Raqqa Diaries: Escapre From 'Islamic State', o torna um alvo; mas o livro atualmente também é popular entre aqueles que ficaram na cidade. Falei com Thomson sobre Samer e sua vida sob o EI.

ASSISTA: Por dentro do Estado Islâmico

VICE: Como você entrou em contato com Samer?
Mike Thomson: Passei alguns dias nas redes sociais tentando encontrar alguém de Raqqa com quem pudesse falar. Entrei em contato com um grupo importante de ativistas chamado Raqqa Is Being Slaughtered Silently. Expliquei que queria falar com alguém que estivesse em Raqqa, mas todos que eles conheciam tinham fugido. Eventualmente me deram uma dica, um número de WhatsApp. Depois de alguns dias, recebi uma mensagem perguntando: "O que você quer fazer?". Então fui apresentado a Samer.

Inicialmente, gravamos entrevistas em áudio para rádio, mas Samer e seus amigos acharam que o risco era grande demais. Toda vez que conversávamos, eles tinham que montar um equipamento incriminador de áudio e tomar precauções especiais para não serem rastreados na internet. Eles também tinham medo que o EI, que diz ter tecnologia de reconhecimento de voz, pudesse descobri-los. Eles não sabiam se isso era verdade, mas, compreensivelmente, já era o suficiente para que eles se preocupassem. Então Samer começou a me mandar seus diários.

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O que o diário dele revela sobre a vida dentro do EI?
Eu esperava violência, mas o que li era chocante. Tudo, desde olhar para o outro lado numa execução pública ao comprimento das suas calças, é um ato de dissidência. As pessoas não saem de casa e poucas lojas estão abrindo por causa de aulas obrigatórias de charia. Apesar disso, ainda há humor. Em um dos dias, Samer faz piada sobre o risco de levar chicotadas por chegar atrasado na aula de charia, tudo porque precisava lavar a louça para a mãe. Os diários dele permitem que você imagine o lugar. Fiquei pasmo em ver quão determinadas são pessoas como Samer.

Samer arriscou a vida escrevendo esse diário. Ele explicou por que sentiu a necessidade de enviá-los?
Lembro de Samer me contando sobre um massacre que aconteceu em 1982. Na cidade de Hamer, a 210 quilômetros ao norte da capital, Damasco, as forças de Hafez al-Assad mataram entre 2 mil e 40 mil pessoas. Não havia jornalistas ali, então o número real é desconhecido. As histórias daqueles que sofreram nunca foram contadas. Samer não queria que o mesmo acontecesse em Raqqa. Ele sentia que escrevendo o diário – detalhando os atos horríveis de crucificação e tortura – o que aconteceu não será esquecido. Ele também me disse que escrever os diários foi catártico: "Quando você tem uma grande preocupação, não é melhor quando você pode compartilhá-la com o mundo?".

Como você via sua responsabilidade sobre ele?
Quando Samer concordou em me mandar seus diários, ele disse: "Minha vida está em suas mãos". Tive que ter muito cuidado para não revelar nada que pudesse entregar quem ele é. Ano passado, às vezes eu não tinha notícias dele por semanas. Em certo momento, ouvi falar sobre dois ativistas que tinham fugido de Raqqa e foram mortos na Turquia. Samer não me mandavam mensagem há duas semanas e eu não sabia o nome daqueles que foram mortos. Fiquei muito preocupado.

As pessoas de Raqqa sabem sobre o The Raqqa Diaries ?
Falei com Samer algumas semanas atrás, e ele disse que as partes dos diários que estão na internet são muito populares entre os ativistas em Raqqa. O livro causou uma grande reação. Ele até acabou fazendo o EI lançar sua própria versão chamada "Um Jovem de Raqqa", sobre como tudo é maravilhoso lá.

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Samer conseguiu sair de Raqqa – para onde ele quer ir no futuro?
Em seus diários ele fala sobre quanto ama a cidade. Ele quer voltar e reconstruí-la. Ele acredita que depende de pessoas como ele, que frequentaram a universidade, colocar o país em pé de novo. Também perguntei se ele gostaria de viajar para a Europa. E não, ele não quer. Ele ouviu histórias de refugiados sendo destratados e não quer deixar sua família. Samer também não quer pensar muito no futuro. Ele odeia o regime Assad tanto quanto o EI, e teme que Raqqa seja retomada pelas forças do governo depois que o EI for derrotado. Às vezes Samer questiona se tudo isso valeu a pena mesmo. Ele escreveu sobre visitar amigos mais velhos para pedir conselhos sobre como lidar com essa vida presente terrível. Seus amigos disseram: "Imagine que você está andando sobre uma corda entre duas montanhas. O presente é o chão lá embaixo. Ande reto e só olhe para frente, se foque em cruzar até a outra montanha. Não olhe para baixo".

Obrigado, Mike.

The Raqqa Diaries: Escape From 'Islamic State' já está disponível aqui .

Tradução: Marina Schnoor

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