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Consumir como se não houvesse amanhã é a melhor maneira de acabar com o capitalismo?

Conversámos com Steven Shaviro sobre "aceleracionismo", a teoria que defende que a melhor forma de acabar com o capitalismo é levá-lo ao limite.
26.3.15

Podes passar o tempo que quiseres a procrastinar no Tumblr ou a tagarelar na tua residência universitária, mas é certinho que em qualquer conversa que entres vão acabar por falar do fim do capitalismo. Discussões teóricas, claro – já muita gente pensou numa forma de mudar a nossa "economia de mercado" para algo mais igualitário e esclarecedor, mas não houve nada que colasse, e alguns dos esforços de maior escala foram também grandes desastres. Mas os anti-capitalistas continuam a aparecer com teorias acerca da queda do sistema. Uma dessas teorias, o aceleracionismo, consiste na ideia de que a hiper-estimulação do mercado em grande escala terá apenas um fim: o colapso do capitalismo. Consome como se não houvesse amanhã, começa a beber (apenas) em copos descartáveis e atira ao mar todas as pilhas (velhas) que tiveres em casa, e, assim, o apocalipse iminente pode apressar as coisas e arrumar logo o assunto.

Esta ideia está enraizada na convicção de Marx de que o capitalismo não se pode auto-sustentar para sempre e pode perder o gás a qualquer momento. Como chegaremos aí? Pois, ainda não há grandes certezas. Há, sim, discussões intermináveis, e é precisamente deste aglomerado de ideias e argumentos que surge o aceleracionismo. Uma teoria que, basicamente, acredita que a melhor maneira de encurtar a vida do capitalismo é levá-lo ao extremo. Imaginemos que o capitalismo é o Mick Jagger, e o aceleracionismo, bem, talvez o Jim Morrison…

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Há umas semanas, Steven Shaviro, professor na Wayne State, em Detroit, que estuda o impacto do capitalismo tecnológico na cultura e na vida quotidiana, escreveu um ensaio sobre o aceleracionismo, numa linguagem simples, sem todos aqueles termos académicos pomposos. Esta teoria económica tem sido explorada por filósofos como Nick Land e Reza Negarestani, mas Shaviro ficou conhecido como uma espécie de especialista no assunto – provavelmente por conseguir articular as ideias filosóficas complexas de uma forma tão simples que nós, comuns mortais, possamos entender. Shapiro acaba de terminar o seu livro, No Speed Limit, portanto achei que seria um bom momento para conversarmos sobre a sua teoria e descobrir (finalmente) se a minha obsessão com a Amazon Prime está realmente a ajudar a sociedade.

VICE: O aceleracionismo deixa-me bastante confuso, mas do que consegui entender é bastante interessante. Podes falar-me um pouco mais sobre isso?
Steven Shaviro: De grosso modo, "aceleracionismo" sugere que a única forma de sair dele [capitalismo] é através dele próprio. Se quisermos ir para além da corrente social e da ordem económica actuais e alcançar um futuro pós-capitalista, temos que passar por todas as complicações do capitalismo em vez de "regredir" para algo supostamente mais antigo e puro.

O aceleracionismo rejeita algumas ideias, actualmente populares, de esquerda, como por exemplo "Quanto menos, melhor", e a inimizade ludita para com as novas tecnologias. Em vez disso, isso faz-nos acarinhar e re-aproveitar, ainda mais, as tecnologias mais modernas.

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Se as tecnologias digitais fazem desaparecer milhões de empregos, então a melhor resposta não é exigir o nosso trabalho de volta, mas partilhar a riqueza – devolver o que o tal 1% roubou de toda a gente, por exemplo – para que as pessoas possam ter vidas mais confortáveis sem terem que andar sempre preocupadas com o custo de vida ou com a conta bancária.

Brutal. Sempre pensei que o aceleracionismo dissesse, basicamente, que o anti-capitalista com maior impacto era o big boss da indústria. Realmente, acelerar os sistema e aumentar, ainda mais, a desigualdade acabará por destruir tudo isto. Ou talvez não. Como é que redistribuir a riqueza pode ser considerado um movimento aceleracionista?
Há diferentes graus de aceleracionismo. Num extremo, o aceleracionismo pode abraçar a ideia de que, quanto mais horríveis e insuportáveis estiverem as coisas, melhores são as perspectivas de revolução para "destruir" tudo. Parece-me uma ideia bastante estúpida, como é óbvio, e não acho que isso seja realmente defendido por muitos aceleracionistas.

De maneira muito mais subtil, Marx disse que as contradições que preocupam o capitalismo acabariam por gerar um confronto entre trabalhadores e capitalistas. Marx esperava que essa luta pudesse terminar com o comunismo, mas sabia também, e inclusive alertou, que isso poderia resultar na "destruição mútua das partes em conflito".

Estás a querer dizer que o fim está próximo?
Marx dizia isso: devido às suas tensões inerentes, o capitalismo conduzir-nos-á à catástrofe se não for, de alguma forma, superado. Esta é uma visão aceleracionista na medida em que vê possibilidades de superar o capitalismo através do seu desenvolvimento como sistema mundial. Mas isto não acontece assim automaticamente, nem de forma pré-determinada.

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Perguntas-me também como é que a redistribuição da riqueza pode estar relacionada com o aceleracionismo… Bem, quando alguém como Thomas Piketty defende impostos globais para forçar a redistribuição da renda, ele está, na verdade, a tentar salvar o sistema capitalista de seus próprios excessos auto-destrutivos. Mas, como Slavoj Zizek observou, os ricos nunca vão pagar esses impostos voluntariamente; portanto, aprovar esses impostos envolveria outras mudanças, muito provavelmente radicais, que mudariam o capitalismo substancialmente.

Isso é bastante interessante, especialmente para alguém que aprendeu um marxismo demasiado simplificado na faculdade. Que outras leituras recomendas sobre o assunto?
Accelerate – The Accelerationist Reader, editado por Robin Mackay e Armen Avenassian, que contém ensaios importantes sobre o aceleracionismo, e Malign Velocities, de Benjamin Noys, para uma crítica ao aceleracionismo. O meu pequeno livro sobre o assunto, No Speed Limit: Three Essays on Accelerationism, foi agora publicado pela University of Minnesota Press.

Fixe. E podes também explicar-me o teu outro livro, The Universe of Things?
Esse livro é sobre realismo especulativo: um movimento filosófico recente que tenta perceber o que seria realmente se considerássemos o universo em si e por si mesmo, à parte de nós. Alguns psicólogos já mostraram que a nossa percepção do mundo nunca é objetiva: é moldada pelas nossas próprias necessidades e interesses, tanto a nível individual como em termos evolutivos no geral. Geralmente, apenas absorvemos e entendemos o que nos importa, o que é importante para nós, e não percebemos tão bem o que não achamos importante, o que não nos convém.

O realismo especulativo questiona como seria possível perceber as coisas no mundo, fora dos sentidos e das classificações que lhes impusemos. Se fôssemos realmente capazes de fazer isso, o que encontraríamos?

Parece um bom exercício de humildade em termos de humanidade. Como chegaste até aí?
"Realismo especulativo" só se tornou um termo em 2007, quando realizaram uma conferência de psicologia utilizando esse título. Os pensadores que se associam a este termo são muito diferentes uns dos outros e, frequentemente, têm desavenças entre si. Mas todos questionam a ideia de que "o homem é a medida de todas as coisas".

Os defensores do realismo especulativo sugerem que prestemos mais atenção às entidades e organismos não humanos, à natureza-morta, e consideremos todas essas entidades não apenas como ferramentas que usámos, ou objectos que limitam as nossas ações, mas como "actuantes" – como o sociólogo francês Bruno Latour as intitula – como é o seu próprio direito. Estas entidades têm as suas próprias tendências, desejos e necessidades.

Isso é especialmente importante neste ponto da história.
Exactamente! Num tempo de catástrofe ecológica iminente, é importante reconhecer a presença das entidades que compartilham o mundo connosco.