Walk & Talk, os Açores como uma enorme galeria comunitária

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Walk & Talk, os Açores como uma enorme galeria comunitária

Potenciar a relação entre artistas no meio das ilhas.
1.8.13

Nos Açores, há um festival que contempla as intervenções de artistas nacionais e internacionais e que está a recriar o espaço público de Ponta Delgada, atribuindo-lhe uma roupagem tão nova e diversificada quanto as expressões dos diferentes artistas presentes no evento. O que, efectivamente, salta à vista neste Walk & Talk, para além da qualidade e variedade da peças e das expressões artísticas, é o contributo da comunidade local. De facto, é esta teimosia em fazer do público local parte fundamental das expressões artísticas (comunitárias?) que torna este festival ímpar no panorama nacional.

O Jesse na galeria do W&T.

No fundo, falar deste festival é falar de um ecossistema de acupuntura urbana, de participação activa que resulta em obra e património vivos, em metamorfose permanente, como se pode documentar pelas figuras em betão cobertas de plástico de Mark Jenkins, pelo mural de Liqen na Calheta, entretanto escondido através de um estendal improvisado na própria parede, ou pela relação dos habitantes da freguesia de Rabo de Peixe com os rostos de habitantes locais (nem sempre figuras consensuais) criados por Vhils ou as pinturas de Eme.

VhilsArco 8W&T 2011

A terceira edição do festival, recentemente finalizada, trouxe mais de 80 artistas até à ilha — com destaque para os portugueses Vhils, João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira e para os internacionais Clemens Behr, Eltono, ou o colectivo Cyrcle. Resumindo, o Walk & Talk deste ano abriu espaço para outras formas de manifestação artística, como a dança, a música, o cinema (não muito visíveis nas edições anteriores) e integrou projectos paralelos, como o de Duarte Santo, arquitecto que idealizou a criação de uma ciclovia colorida que pretende ligar o Parque Urbano e a cidade e que, a médio-prazo, poderá ser “um canal que dê prioridade às bicicletas”. De notar ainda o apelo aos jovens criadores, através das bolsas para criação artística destinas a alunos do secundário.

Jesse James e Diana Sousa são os dois elementos responsáveis pela criação do festival. Decidimos falar com o Jesse na oficina/galeria do W&T (onde está exposta a nossa amiga Neves Estrela) para perceber o quão importante é rechear uma cidade periférica como Ponta Delgada com manifestações tipicamente urbanas e fazer um balanço a esta terceira edição do festival.

Porto de Vila Franca do Campo

VICE: Li algures que, no ano passado, passaram cerca de 1300 pessoas pela galeria do Walk & Talk. Este ano parece-me que esse número foi ultrapassado só nos três dias em que cá estive.
Jesse James: Completamente. Nós não temos uma ideia ou uma forma efectiva de contabilizar quantas pessoas é que entram lá. Nós conseguimos ter uma noção pelas conversas, pelas projecções dos filmes e este ano temos mesmo uma pessoa encarregue da gestão da galeria que é a Sofia e que, também através dos serviços educativos, consegue ver quantas pessoas visitam a galeria. Mas esse número já foi largamente ultrapassado, sem dúvida. Acho que toda a ideia da galeria, principalmente em Ponta Delgada, mudou um bocado a percepção que as pessoas tinham de uma galeria de arte, a ideia institucional, de sacralização da arte numa parede branca que, no fundo, afasta.

Isso tem sido conseguido?
Num contexto que é tão pequeno e onde faltam tantas referências, onde também as pessoas não se sentem confortáveis com uma série de coisas, independentemente de terem ou não curiosidade sobre elas, só o facto de termos uma galeria e a quantidade de pessoas que vão lá, já mostra que há uma alteração. As pessoas já não olham para a galeria como uma coisa que assusta.

EltonoPorto de Ponta Delgada

É sempre difícil ter toda a cidade envolvida, mas uma das principais características deste festival é a forma espontânea como os locais se disponibilizam a cooperar com os artistas e com a própria organização do festival.
Sim, é algo que temos promovido. Não fazia sentido ser o primeiro festival de arte no contexto dos Açores e ser algo restrito e apenas para um núcleo. Era exactamente isso que queríamos combater. Para aqueles que, como eu, vivem a maior parte do ano fora dos Açores, notas que em grandes cidades tens acesso a uma série de espaços, pessoas e expressões e depois vens cá e tens uma programação cultural um bocado bipolar. Normalmente, tens acontecimentos profundamente elitistas, para um núcleo muito fechado e completamente institucionalizado — e aquilo é que bom — e depois tens outros festivais com o Quim Barreiros. Podia ir-se um pouco mais além.

Ires para a rua é uma forma de levar aquilo que consideras válido até às pessoas?
Há outros projectos incríveis nos Açores. Tens, por exemplo, o Bululus, um projecto mais pequeno, que acontece em Setembro. Nós assumimos desde o início que, havendo uma desconfiança por parte do público, nós deveríamos fazer esse trabalho na criação e vocação dos públicos, como um trabalho pedagógico. Daí a questão de nós ocuparmos o espaço público, irmos para a rua, de forma a mostrarmos referências às pessoas de forma directa e espontânea.

Nas primeiras edições do Walk & Talk, vocês estavam muito limitados ao muralismo. Neste edição vocês abriram o leque para outras formas de expressões artísticas — dança, cinema, música, instalações, conversas, etc. Esta inclusão também teve também origem na ideia de chegar cada vez a mais pessoas, certo?
A questão é: nós no primeiro ano queríamos uma forma rápida de criar awareness em torno do Walk & Talk e em torno das expressões artísticas, isto é, tirá-las da parede branca. Nós trouxemos isso para a rua e o muralismo era, talvez, a forma mais directa e óbvia de conseguir fazer. Chamava à atenção, sobretudo pela dimensão. Como eram artistas tão diferentes uns dos outros, em termos expressões conceptuais e gráficas, conseguias atrair vários públicos. No segundo ano, já tivemos outro género de expressões — já introduzimos alguma performance, alguma música e com outro tipo de artistas, não só o muralismo. Este ano assumimos isso completamente. Mantém-se o muralismo, é como a génese do festival. É uma coisa que ainda faz sentido porque, lá está, o público ainda nos pede isso.

Panda do TranseEstúpidoPorto de Ponta Delgada

Sim, segundo sei, recebem imensas mensagens pelo Facebook com residentes locais que oferecerem paredes…
No primeiro ano, víamo-nos à rasca para arranjar paredes. Nos últimos dois anos, as pessoas têm ligado para oferecer paredes. Já é algo que os locais querem. Não tem a ver com uma questão egocêntrica de “agora quero ter a minha casa com um mural”. Não é tanto por aí. Tem a ver com a noção de criarmos um museu. O que as pessoas dizem muitas vezes é: “Gostava de ter um mural ou uma intervenção na minha zona da cidade, ou na minha zona da ilha.” Acho que toda esta conversa que temos tido desde o início sobre a criação de um museu de arte pública foi muito bem assimilada pelas pessoas. E é por isso que elas se tornaram muito participativas no processo. Apesar de neste momento, contabilizando os três anos, termos cerca de 80, 90 intervenções, as coisas foram sendo feitas de uma forma muito ordenada e os locais apreciam isso e sentem-se pares.

Ninguém diria. Quando dás uma volta pela cidade vês que há intervenções a acontecerem em simultâneo, em pontos distintos da cidade. Neste momento parece um festival em piloto-automático.
Nós somos só cinco na organização — que é muito pouco para a quantidade de pessoas que vêm cá. E por isso é que é o caos às vezes mas isso tem a sua piada. Aqui não há níveis, não há hierarquias. Organização e artistas, estamos todos no mesmo nível. E a comunidade também. Ou seja, é através dessa trilogia que se fazem as intervenções. Nós procuramos as paredes, mas quem faz a selecção das paredes é a comunidade e os artistas. A Lucy [McLauchlan] chegou aqui e perguntou directamente se podia intervir na praia. O Eltono curtiu logo o senhor Américo e, se reparares, o verde da intervenção é o verde dos portões do armazém. Nós promovemos esse diálogo. Às vezes, até temos um papel muito secundário.

Isso tem implicações na própria concepção das peças?
Nós tivemos reuniões de condomínios para explicar o projecto. Algumas pessoas diziam, por exemplo, “o que eu mais gostei foi este ou aquele”, por ser mais realista ou mais orgânico. Eles já conseguem falar e classificar os estilos e isso tudo. Mesmo que seja de uma forma mais…

Um dos Estúpidos do Panda do TranseOficina do W&T

Implícita.
Exactamente, implícita. Mas já conseguem comparar e os muros já não são estranhos e ganham um respeito pelo artista plástico. Antigamente, falavam do pintor ou do escritor. Agora não, é o artista plástico que fez isto ou aquilo. É bom quando tens artistas como o Stephen Hurrel do Clipperton Project que chegou cá e abriu completamente o processo criativo a nós próprios. Eu não sou artista, mas também tenho a minha criação. E é óptimo quando tens artistas que se permitem a isto. Demonstra muita segurança em relação ao trabalho deles. Já tinha sentido isso no ano passado em relação ao Mark Jenkins. Ele só trabalhava com plástico, só tinha usado betão para os pés. Ele queria fazer isso ao pé do mar e eu disse-lhe que quando fazia mau tempo, fazia mesmo mau tempo e, portanto, o plástico nunca seria uma opção a menos que fosse algo mesmo muito efémero. Como ele queria que as estátuas fossem muito presentes, eu perguntei-lhe, por que não fazermos isso com betão? Apesar de ser completamente diferente do plástico, ele aceitou. Mas chegámos aqui a um meio termo entre o que eu sugeri para que a peça se prolongasse no tempo, mas com aquilo que ele trabalha, uma vez que não tirámos o plástico depois da peça estar pronta.

Não te preocupa que essa dimensão de trilogia influa excessivamente na obra dos autores. No fundo, que a mediação entre público e artistas não se faça com bom senso?
Sim, acho que essa preocupação de agradar não existe. No nosso line-up estão artistas completamente diferentes uns dos outros. Isso, em termos curatoriais, foi desde o início o nosso objectivo. A ideia era que todos os artistas explorassem áreas diferentes e que também visualmente se concretizassem formas diferentes. Tens artistas super-preocupados e tens outros que são muito mais imediatos.

Talvez seja cedo, ainda vamos a meio desta edição, mas já estão a pensar nas próximas edições?
Não, não. Estamos a fazer este, mas já a pensar no que está a funcionar muito bem e no que não está a funcionar assim tão bem. O crescimento de ano para ano tem sido sustentável. Obviamente que há aqui mais contactos, há um trabalho muito maior de curadoria e de convite de artistas, tentando trazê-los até cá. Mas acho que esse crescimento está a ser sustentável mas não é tão grande quanto parece. O que se passa é que como a galeria é mais visitada, tens mais artistas e um maior envolvimento do público, parece maior. Mas para o próximo ano devemos continuar e manter a transversalidade em termos de expressões e manter activa essa trilogia, que é aquilo que nos enche a alma. Não é ainda um festival que tenha os meios e as condições que outros têm.

EMEVolta para MimRabo de PeixeW&T 2012

Essas limitações fazem com que os artistas que participem neste festival não possam ser remunerados. Achas que artistas de renome como o Vhils continuarão a participar apenas pela envolvente que o festival proporciona, é isso?
É um passa a palavra…

Todos os anos têm aumentado o número de participações.
Sim, eles vão falando entre si e partilhando a experiência. É quase uma residência artística para falar verdade. Porque estão aqui à volta de 10, 12 dias e a partilha de ideias, valores e crenças entre eles é muito importante. O networking é incrível no meio do Atlântico. É isso que queremos cada vez mais. Potenciar essa relação entre artistas e tê-los cá o tempo que der. Também temos tido a participação da Sala 2 Arquitectos e da HDG Açores no projecto Rua + Criativa, é um projecto que é deles, não é do Walk & Talk. É inserido no contexto do Walk & Talk, porque somos nós que apoiamos em termos de materiais, mas é uma iniciativa que é promovida por eles. Acho que para o próximo é isso que vai acontecer com o festival. Quase como uma bienal que trabalha com uma série de associações que estão a trabalhar connosco em termos de programação nesse período.

Obrigado, Jesse!

Porto de Vila Franca do Campo

ARM Collective — W&T 2011 — Marginal de Ponta Delgada

Porto de Vila Franca do Campo

Eltono — Porto de Ponta Delgada

Eltono — Porto de Ponta Delgada

Eltono — Porto de Ponta Delgada

Eltono — Porto de Ponta Delgada

Panda do Transe — Estúpido — Porto de Ponta Delgada

Panda do Transe — Estúpido — Porto de Ponta Delgada

Fábrica de Chá Gorreana — Porto Formoso

Galeria Walk&Talk

INTERESNI KAZKI — São Roque — W&T 2011

Jesse James na galeria do W&T

Liqen — Calheta — W&T 2012

Mark Jenkins e Sandra Fernandez — Tétrapodes em Santa Clara — W&T 2012

Panda do Transe — Estúpido — Oficina do W&T

Oficina na Galeria W&T

PHLEGM — Porto de Ponta Delgada — W&T 2011

Vhils — Abraçar a Ruína — W&T 2012

Sala 2 Arquitectos e HDG Açores — Rua + Criativa

Topo — Rabo de Peixe — W&T 2012

Vhils — Rabo de Peixe — W&T 2011

Vhils — Arco 8 — W&T 2011

EME — Volta para Mim — Rabo de Peixe - W&T 2012

EME — Volta para Mim — Rabo de Peixe - W&T 2012

WOOZY & KEZ — Tétropodes em Santa Clara — W&T 2011