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Ambiente

Fogos sem precedentes estão a arder no Árctico desde Junho

Mais de 100 incêndios no Círculo Polar Árctico libertaram 50 megatoneladas de dióxido de carbono na atmosfera só num mês.

Por Madeleine Gregory; Traduzido por Madalena Maltez
08 Julho 2019, 5:50pm

Imagem: Flickr/Denis Simonet.

Este artigo foi originalmente publicado na Motherboard - Tech by VICE.

Em várias zonas do Árctico, mais de 100 incêndios florestais estão a libertar nuvens de dióxido de carbono e outras emissões nocivas para a atmosfera. Os incêndios estão a lavrar no Círculo Polar Árctico na Sibéria e no Alasca há semanas. Embora o fogo seja uma parte natural de alguns ecossistemas do Árctico, os cientistas consideram estes incêndios "sem precedentes" durante o mês de Junho, pelo seu tamanho e quantidade de emissões de dióxido de carbono.

"Estes são alguns dos maiores incêndios do Planeta, há alguns que aparentam abranger mais de 100 mil hectares", explica Thomas Smith, professor de geografia da London School of Economics, à Motherboard por e-mail. E acrescenta: “A quantidade de CO2 emitida pelos incêndios do Círculo Árctico em Junho de 2019 é maior do que todo o CO2 libertado nos incêndios do Círculo Polar Ártico no mesmo mês de 2010 até 2018 juntos”.

Só no Alasca, já ocorreram 369 incêndios florestais este ano, queimando 648.489 acres. Há novas ignições todos os dias, contribuindo para os 115 que continuam a arder desde terça-feira da última semana. Com condições climatéricas quentes e secas, o Alasca espera mais incêndios florestais ao longo deste mês. Na esperança de evitar novas ocorrências o Alasca instituiu uma proibição de fogos de artifício em grande parte do estado e criou um mapa interactivo dos incêndios florestais actuais.

Mark Parrington, cientista que trabalha na investigação de emissões de incêndios florestais no Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, salienta num e-mail enviado à Motherboard que em Junho de 2019 os incêndios florestais do Árctico libertaram 50 megatoneladas de dióxido de carbono. E, só nos primeiros dois dias de Julho, acrescenta, o Círculo Ártico já libertou entre 4,5 e 5 megatoneladas de CO2. "Os dados do [Sistema Global de Assimilação de Incêndios] mostram que, tipicamente, os incêndios no Círculo Polar Ártico ocorrem em Julho e Agosto, não sendo comum ver incêndios desta escala e duração naquela parte do Mundo no mês de Junho", revela Parrington.

Com a crise climática a continuar a agravar eventos climáticos extremos e desastres naturais, seria "natural" esperarmos notícias de grandes incêndios no oeste americano, por exemplo. Portanto, parece contra-intuitivo que incêndios massivos atinjam paisagens geladas. Alguns incêndios florestais no Árctico são normais, mas as temperaturas extremas e o rápido aquecimento estão a criar chamas descontroladas.

"Não só os combustíveis estão a ficar mais secos e mais inflamáveis nestas novas condições mais quentes, como em muitos lugares o aumento da cobertura arbustiva tem o potencial de aumentar a actividade do fogo", justifica Merritt Turetsky, professor da Universidade de Guelph. E acrescenta: “Esses ecossistemas têm o potencial de libertar carbono de [centenas] ou muitos [milhares] de anos de idade, sob estas condições extremas”.


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Com verões mais quentes e secos, estes incêndios têm a vida facilitada para começar - a iluminação ou as faíscas de uma fogueira podem inflamar facilmente a vegetação seca. No Alasca, alguns desses incêndios podem ser combatidos por equipas de bombeiros. No entanto, outros estão muito longe da civilização para serem combatidos. Isso significa que não atingirão as comunidades, mas também significa que irão continuar a crescer sem restrições, alerta Smith.

No entanto, incêndios florestais não precisam de devastar comunidades para afectar os humanos. O fumo não fica parado - os cientistas do ECMWF rastrearam o fumo dos incêndios florestais canadianos que se movem por todo o Atlântico, por exemplo. Os incêndios no Árctico queimam através do solo de turfa rico em carbono, libertando carbono armazenado e contribuindo para um efeito de loop que o torna mais e mais quente.

Este efeito de aquecimento global faz com que os incêndios florestais no Árctico sejam cada vez mais prováveis, diz Smith, já que o Árctico está a aquecer mais rapidamente do que o resto do Planeta. Junho de 2019 foi o mais quente já registado, segundo anunciaram os cientistas esta semana e as alterações climáticas faz com que a enorme e mortal onda de calor que atingiu a Europa passe a ter entre cinco a 100 vezes mais probabilidades de ocorrer. "Nesta parte remota do Planeta, os incêndios são muito mais o resultado das alterações climáticas do que de alterações no manuseamento da terra, já que a densidade populacional é muito baixa no Círculo Ártico", salienta Smith.


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