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Ambiente

O que a esquerda pode aprender com o Extinction Rebellion

Há muitas críticas que podem ser apontadas ao XR, mas como é que a esquerda mais alargada se pode basear nos sucessos do movimento?

Por Chris Saltmarsh; Traduzido por Madalena Maltez
02 Maio 2019, 2:51pm

Activistas do Extinction Rebellion. Foto: Jake Lewis.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Mais de mil activistas do Extinction Rebellion (XR) foram presos durante a última grande acção do movimento em terras britânicas. Apesar de agora os seus membros terem recuado, depois de bloquearem estradas e pontes de Londres durante a primeira fase da rebelião, o debate online continua intenso e centra-se na escolha de alvos, tácticas e relacionamento do grupo com a polícia.

Por alturas do lançamento do XR em Novembro último, questionei a eficácia de uma estratégia baseada em detenções em massa e na perturbação dos habitantes de Londres utilizadores dos transportes públicos. Outros têm criticado a insipidez política do XR: além de uma ambiciosa meta de "descarbonização" até 2025, as exigências do movimento não vão muito além de pedirem ao governo que "diga a verdade" e da instituição de uma Assembleia de Cidadãos para descobrir o resto.


Vê: "Este rapaz de 15 anos está a processar o Governo americano por causa das alterações climáticas"


Dito isto, o XR mobilizou, sem dúvida, uma quantidade impressionante de gente em apenas seis meses de existência. Com uma digressão de palestras de apresentação pelo Reino Unido e um claro apelo à acção, conseguiram rapidamente ter seis mil pessoas no seu primeiro dia de protesto, em Novembro, encerrando as principais pontes de Londres. Já em Abril, milhares de pessoas compareceram na capital britânica para se juntarem à onda de protestos. Crucial para a história do XR tem sido o seu sucesso em chamar a atenção de novas pessoas para o ambientalismo. Muitos activistas, jovens e mais velhos, estão pela primeira vez a participar em acções directas em nome da justiça climática - e, quanto maior é um movimento, melhor certamente será.

O XR pode alegar ter empurrado as alterações climática para o topo da agenda mediática, já que tanto a imprensa escrita mainstream como as televisões cobrem as suas manifestações regularmente. O movimento continua a receber cobertura proeminente por parte da BBC, do Guardian e da Sky News, além de receber um bem-vindo escárnio do Daily Mail e do Sun. O aquecimento global podia estar já a subir nas agendas editoriais nos meses anteriores, mas o XR, sem dúvida, preencheu e expandiu o espaço principal nos seus próprios termos.

Há agora apelos à discussão sobre como os sucessos do movimento - ou seja, a escala e a forma que ganhou - poderiam ser replicados por aqueles com políticas mais coerentes. Mas, antes de considerarmos como é que movimentos mais alargados poderiam replicar a impressionante mobilização do XR, há uma questão mais profunda que necessita de resposta: é realmente possível que um grupo com políticas ideológicas mais substanciais e exigências mais específicas repita o que o XR fez?

O XR mobilizou tantas pessoas tão rapidamente baseado nos mais vagos princípios unificadores: há uma emergência climática. Vai ser mau. É urgente. Os governos precisam de agir. Quem é que poderia discordar? A falta de uma análise política substancial das causas profundas da crise ecológica por parte do XR é precisamente a razão pela qual conseguiu colocar tanta gente nas ruas tão depressa.

Sem uma história ideológica explícita sobre as causas e soluções do colapso climático, pessoas de todo o espectro político sentiram-se à vontade para se juntarem. O XR mostrou que muitas pessoas podem participar na causa que exige que algo seja feito sobre o aquecimento global - e, com esse algo pouco claro, há pouco potencial de que essas pessoas discordem ao ponto de se recusarem a participar.

A contradição que nasce disto é importante. A proposição de políticas específicas fragmentaria, inevitavelmente, a união por essa crença partilhada no que toca à crise e à urgência de agir. Por outro lado, sem exigências fortes, o XR é politicamente "desdentado" e tem pouco mais que uma consciencialização aprimorada.

A lição para aqueles com políticas climáticas radicais não é que devemos abandonar uma visão transformacional para nos mobilizarmos em massa. Nem é que devemos abandonar as mobilizações em massa na defesa rígida da nossa análise política. O modelo do XR de ir até onde as pessoas estão - reuniões locais em centros comunitários e locais públicos - para defender proactivamente a avaliação da crise, serviu-lhes bem ao produzir grandes números.

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Activistas do Extinction Rebellion. Foto por Jake Lewis

Não há dúvida de que é uma tarefa maior construir um sentido comum em torno de soluções anti-capitalistas contra o colapso climático. Temos uma geração de suposições profundamente enraizadas sobre como a economia deve trabalhar para solucionar o problema, mas o modelo inicial de mobilização do XR oferece um forte ponto de partida.

Mobilizações grandes e rápidas como as do XR - ou do Occupy antes dele - não são as únicas a conseguir essas soluções. No entanto, o XR mostrou que a mobilização nesses termos pode envolver e activar as pessoas. O nosso trabalho é trazê-los para um movimento mais alargado. Tal como um ponto de entrada para novos activistas, um movimento ao estilo XR pode efectivamente mostrar o poder do movimento ambiental. Nós, simplesmente, não devemos confundir essas tácticas com efectivo exercício de poder.

Há um renascer da organização esquerdista em torno do clima que poderia complementar um movimento ao estilo XR. Os membros do Labour for a Green New Deal assumiram a tarefa de agitar os ânimos dentro do Partido Trabalhista em prol de um programa transformativo que "casa" o clima com a justiça económica. A dinâmica juntou-se à People & Planet tendo como alvo o Barclays e exigindo que o banco pare de financiar combustíveis fósseis globalmente.

Juntar-se a esses movimentos e outros que estão por vir, poderia fornecer uma ampla estrutura política atrás da qual os apoiantes do XR se possam abrigar sem necessariamente venderem as suas almas à política partidária. As greves de jovens são um exemplo recente de mobilizações de rua a adoptar o Green New Deal como uma exigência global. O Green New Deal é suficientemente amplo para manter unido o espectro politicamente diversificado do apoio ao XR, ao mesmo tempo que concentra a energia numa visão proposicional para o futuro. Investimento em serviços públicos, empregos verdes, renováveis e entrega de energia às pessoas. Quem poderia discordar?

Enquanto as acções de rua aumentam o perfil do Green New Deal através dos media e fazem crescer a pressão pública sobre o governo para o reconhecer, outras alas do movimento podem construir poder e organizar-se através do Partido Trabalhista, sindicatos e comunidades para construí-lo a partir das bases. À medida que essa organização cria apoio através das instituições para difundir e desmantelar a indústria de combustíveis fósseis, acções como as do XR devem redireccionar os esforços para longe da ruptura generalizada e para priorizar bancos-alvo e empresas responsáveis pela crise ambiental.

O que quer que penses em relação ao XR e independentemente das suas perspectivas de reforma, todos nós devemos aproveitar este momento como um incentivo para entrar no movimento climático. Mais produtiva, porém, seria a organização através dos nossos partidos políticos, sindicatos, locais de trabalho, grupos religiosos, escolas e universidades, exigindo um futuro de prosperidade para todos, sustentado pela estabilidade ambiental.

Chris Saltmarsh é co-fundador do Labor for Green New Deal.


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