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Saúde

Os piores efeitos das ameaças de morte na internet são aqueles que ninguém consegue ver

“Fiquei fechada em casa durante um mês. Perdi metade do meu cabelo e engordei nove quilos.”

Por Philip Eil; Traduzido por Marina Schnoor
09 Agosto 2019, 10:49am

Andrew Brookes/Getty Images

Este artigo foi publicado originalmente na VICE EUA.

Em Junho de 2014, o colunista da Reuters Jacks Shafer escreveu um artigo a dizer que a internet tinha criado uma “era de ouro das ameaças de morte”. Já não é preciso usar um telefone, máquina de escrever, bilhetes escritos à mão nem uma mensagem antiquada com palavras recortadas de jornais e revistas, dizia ele. Deu o exemplo de actrizes, escritores, executivos de tecnologia, atletas profissionais e designers de video-jogos que tinham recebido ameaças de morte e escreveu “A tecnologia avançada retirou a maior parte do trabalho e do perigo de mandar mensagens cobardes para assustar as pessoas”.

Cinco anos depois do texto ter sido publicado, as coisas não melhoraram. Em certos dias da era Trump, parece que as ameaças de morte se tornaram na forma preferida dos americanos comunicarem uns com os outros. Jornalistas recebem ameaças de morte. Assim como juízes, presidentes da câmara, professores de economia, apresentadores de talk shows, actores, socorristas, estudantes de administração, atletas, mulheres que acusaram o presidente dos EUA e juízes nomeados para o Supremo Tribunal de Justiça Corte de abuso sexual, frequentadores de festivais de música e até um repórter de previsão metereológica que interrompeu um grande torneio de golfe para dar um alerta de tornado.

As ameaças são tão comuns aos membros do Congresso que os noticiários, agora, descrevem-nas com uma “coisa da vida”. E na Fox News, os apresentadores parecem abraçar esse facto, como vimos em Maio quando o apresentador Jesse Watters desprezou as ameaças de morte contra a política americana Ilhan Omar porque, nas palavras dele, “Toda a gente recebe ameaças de morte”. Se 2014 foi a Era de Ouro, agora estamos na Era de Platina.

Toda a gente que já sofreu ataques de pânico, medo de voar ou hipocondria intensa sabe como é estar convencido de que se está prestes a morrer - um sentimento que a maioria das pessoas não desejaria a ninguém. E ainda assim, é isso que uma ameaça de morte faz: usar a ansiedade como arma. É como lançar uma bomba à mente de outra pessoa.

Quando essas ameaças acontecem, a cobertura dos media não tende a pairar muito sobre a destruição psicológica. Mas o que é que acontece, exactamente, com a mente e o corpo de uma pessoa quando ela recebe uma ameaça de morte? E o que é que uma pessoa deve fazer quando se vê nessa posição infeliz, mas cada vez mais comum?

Bandy Lee é uma psicóloga forense da Escola de Medicina de Yale que recebeu ameaças de morte depois de dizer, publicamente, que Donald Trump era um perigo para o país. “Imagino que cada um lida com isso de maneira diferente mas, no meu caso, fechei-me em casa durante quase um mês, incapaz de ir para o escritório. (Publicaram na internet onde eu trabalhava, com fotos, endereços e direcções)”, contou-me ela. “Perdi metade do meu cabelo e engordei 9 quilos.”

Lisa Warren, académica e psicóloga forense da Austrália que escreveu muito sobre ameaças, diz que parte do impacto da ameaça depende da pessoa que a faz. Uma ameaça de, digamos, um namorado violento, tem um potencial tangível e conhecido de perigo, mas uma ameaça de um estranho na internet pode desencadear todo o tipo de pensamentos “E se?” tóxicos, como “E se a pessoa me encontrar?” ou “E se encontrar os meus filhos?” Nenhum dos casos é agradável, mas são tóxicos por razões diferentes.

O impacto de uma ameaça também pode depender da pessoa que a recebe. Algumas pessoas que receberam ameaças de morte no passado podem ter-se tornado mais resistentes, diz J. Reid Meloy, psicólogo forense, consultor do FBI de longa data e professor de psiquiatria da Universidade da Califórnia em San Diego. (Psicologia forense é onde a psicologia encontra a lei e a justiça criminal. Como ameaças de morte podem gerar investigações criminais, muitos dos melhores especialistas no tema são dessa área.) “Como seres humanos, podemos habituar-nos ou desinteressar-nos pelo estímulo nocivo”, disse-me ele. E no caso de figuras públicas, como políticos e celebridades, podem ler um tweet ou um e-mail desses sem se deixarem perturbar.

Essa tranquilidade, ou falta dela, também pode ser resultado do temperamento e experiências passadas de uma pessoa. Algumas pessoas, simplesmente, nascem mais sensíveis a estímulos externo do que outras, explica Megan Eliot, psicóloga e directora do programa de trauma integrado do National Institute of Psychotherapy. Ou talvez tenham crescido com pais que as ajudaram a recuperar a calma enquanto crianças, espelhando as suas emoções perturbadas, ou encorajando-as a procurar apoio em momentos de crise. Eliot acrescentou que pessoas que já experimentaram traumas são mais vulneráveis a trauma repetido. Num ponto relacionado, Meloy apontou ainda que qualquer tipo de diagnóstico anterior de ansiedade, depressão ou qualquer outra coisa vai tornar uma pessoa mais susceptível a transtornos de stresse pós-traumático (TEPT).

Além disso, pesquisa recente sobre trolls da internet (que pode incluir, entre muitas outras coisas, ameaças violentas) no Reino Unido sugere que homens e mulheres podem responder a ameaças de maneira diferente. Catriona Morrison, professora de psicologia experimental da Universidade de Bradford, falou recentemente com 181 membros do Parlamento britânico que tinham sofrido online trolling para tentar entender os seus efeitos. tanto homens e mulheres tinham sido sujeitos a trolls mas, segundo ela, os efeitos nas mulheres eram “muito mais variados e de maior impacto... com uma variedade maior de comportamentos, tanto no foro pessoal como no profissional”. Essas mulheres estavam mais inclinadas do que os homens a fazerem mudanças de vida, como sair menos para jantar e aumentar a segurança pessoal.

Bessel van de Kolk, professor de psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade de Boston e autor de The Body Keeps the Score: Brain, Mind, and Body in the Healing of Trauma, sugere que até o clima político geral pode afectar como uma pessoa entende uma ameaça. Nos EUA, o presidente ameaça pessoas o tempo inteiro e, frequentemente, indica de outras maneiras que está confortável com ameaças, diz Van der Kolk. E ter uma pessoa assim a liderar o governo permite que outros lhe sigam o exemplo. Então, quando membros do partido do presidente e outros oficiais públicos não se pronunciam quando o presidente faz ou subscreve ameaças (e os republicamos em grande parte não se têm pronunciado), um novo normal é estabelecido.

“Essas ameaças serem feitas e as pessoas fingirem que não está a acontecer, essa é a parte assustadora e é isso que envenena o poço social”, disse ele. “A questão da autoridade e protecção, saber quem estará lá para te proteger, é incrivelmente importante. E é isso que está a desmoronar na nossa cultura agora.”

Enquanto os efeitos das ameaças podem variar de pessoa para pessoa, está claro que para alguns segmentos da população, uma ameaça de morte pode ser devastadora. Uma experiência traumática pode vir de qualquer situação em que alguém sente que está prestes a morrer, ou quando vê algo aterrorizante, explica Eliot. E se uma ameaça de morte ultrapassa esse limiar – uma possibilidade forte – isso pode levar a todo tipo de problemas.

Por exemplo, o destinatário de uma ameaça pode tornar-se super-vigilante como resultado da mensagem, o que significa que a pessoa está sempre no seu limite, com a mente e o corpo tensos em alerta de perigo. Nesse estado, é difícil concentrar-se, pensar claramente e absorver informação de maneira correcta, continuou Eliot. A pessoa também pode ver pessoas que não são uma ameaça como perigosas, ou serem incapazes de aceitar que tipo de apoio têm disponível. “Pensar em estar de guarda, todos os seus músculos tensos, [e] o coração disparado”, diz. “Não é saudável estar nesse estado durante longos períodos de tempo e não é confortável.”

Van der Kolk contou que trabalhou com um político que ficou tão perturbado depois de receber ameaças de morte que se tornou depressivo e suicida. Os humanos têm uma necessidade básica de saberem que estão seguros, de saber que podem sair pela porta ou atender um telefone sem arriscar a sua segurança e queremos poder esperar coisas para o nosso futuro, explicou-me ele. “Quando estás com medo o tempo todo, isso prejudica a tua capacidade de cuidar dos filhos, ser espontâneo, ser criativo”. E continua “Quando começas realmente a preocupar-te com o que te pode vir a ferir, toda a tua vida se torna muito restrita.”

A severidade da linguagem que os especialistas usam para descrever os efeitos dessas ameaças contrasta com quão casual e superficial algumas notícias sobre ameaças de morte se tornaram. Lee chamou essas ameaças de “terrorismo”. Um artigo argumenta que ameaças de morte constituem uma forma de tortura. Warren descreveu as ameaças de morte como “uma das formas mais extremas de violência psicológica”. Nesta era de ameaças instantâneas, sem custos e entregues anonimamente, será que os media estão a utilizar uma linguagem própria que reflicta o quão sérios estes actos são?

E se não, será que estamos a contribuir para a dessensibilização geral da nossa cultura, ou mesmo apatia, com o “terrorismo” a acontecer nas nossas comunidades?

Mas o que é que fazes quando recebes uma ameaça de morte?

Primeiro, é importante lembrar o seguinte ponto colocado por J. Reid Meloy: “A maioria das ameaças de morte não são concretizadas”. Mas isso não significa que devam ser ignoradas. Lee diz que, como uma pessoa não pode viver sob o stresse de ameaças contantes por longos períodos de tempo, conseguir um espaço físico seguro deve ser uma prioridade.

Segundo, Meloy enfatiza que se receberes uma ameaça, deves contactar as autoridades e preservar qualquer prova. Faz um screenshot do texto ou tweet; guarda a carta, e-mail ou mensagem de voz. Enquanto as ameaças de morte estão sujeitas a debates de liberdade de expressão e os padrões de processo variam de sítio para sítio, são geralmente ilegais. (As palavras exactas de Meloy foram: “Não se pode andar por aí a ameaçar as pessoas de maneira homicida”.) Autoridades locais também te podem ajudar a entender qual o verdadeiro risco que uma ameaça carrega.

A outra parte da equação é retomares a tua vida – e a saúde mental também. O ódio de trolls online é tão frequente que uma jornalista que já levou com muito, Talia Lavin, produziu um guia que vale a pena ver para lidar com esse tipo de tempestade psicológica. Os especialistas também dizem que deves considerar procurar um profissional de saúde mental. Lee explicou-me que, como as ameaças de morte podem desencadear reacções dissociativas e levar a problemas insistentes de perda de memória, ansiedade e depressão, “Ter alguém com quem falar, de preferência um especialista em saúde mental, pode ajudar a colocar as coisas em perspectiva e detectar sinais de alerta a tempo”.

Warren diz que uma das chaves para voltar ao normal é planear e implementar precauções de segurança para controlar esses pensamentos venenosos de “E se?”. “É essa criação de incerteza que dá a quem fez a ameaça poder sobre ti. Porque quanto mais pensares 'E se a pessoa fizer isto? E se a pessoa fizer aquilo?', mais a ameaça está a funcionar”, disse ela.

Ela também enfatizou a importância de quem recebe ameaças se lembrar que o que aconteceu não é culpa dela. “Um acto de violência foi cometido contra ti e nunca, nunca é por teres feito algo errado, nem por mereceres, nem por 'estares a pedi-las”, diz. “É apenas e só como outra pessoa escolheu comunicar.”


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