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Política

Onde acaba o "populismo de direita" e começa o fascismo?

Tendo em conta os recentes acontecimentos políticos no Brasil e nos EUA, é difícil não concluir que se está a formar uma tempestade perfeita na democracia ocidental.

Por Drew Brown
05 Novembro 2018, 6:47pm

O presidente norte-americano, Donald Trump, e o presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Canadá.

Como podes ou não ter reparado, ultimamente temos visto bastantes governos democráticos mais ou menos a auto-canibalizarem-se. Com a recente eleição de Jair “Pinochet matou pouco” Bolsonaro no Brasil, provavelmente está na altura de reconhecermos que o “populismo de direita” não é uma anomalia ou um acidente no percurso da política democrática contemporânea, mas um dos principais veículos da sua expressão. E, tendo em conta que Bolsonaro é tipo um Donald Trump em esteróides - já que Trump, pelo menos até agora, ainda não lamentou os dias em que regimes autoritários mataram poucos opositores - parece um bom momento para começar a identificar em que ponto é que o “populismo de direita” acaba e o “fascismo” começa.

O populismo é parecido com a pornografia. Partilha algumas semelhanças e fronteiras com certos movimentos, no entanto, como cada manifestação concreta sua se manifesta para falar de um conjunto nacional e historicamente específico de fantasias sociais, a maioria das pessoas sabe o que é quando o vê. Se imaginas a democracia liberal como um conjunto de regras de auto-governação baseadas em soberania popular, o populismo pode ser melhor descrito como quando “o povo” atira a sua soberania pela janela por interesses de mudança, distorcendo ou destruindo essas regras segundo os seus interesses (quem é “o povo”, claro, depende de quem se está a oferecer para fazer essa destruição por eles).


Vê na íntegra o documentário da VICE Brasil, "O Mito de Bolsonaro"


Como não é possível evitar que se fundamente a democracia no conceito de auto-governação mais ou menos popular, o populismo será sempre uma característica permanente da nossa política. Como isso tende a ascender em momentos de crise política, económica, social ou cultural, o populismo pode ser entendido como um tipo de resposta auto-imune para a doença liberal.

Na introdução de Populism and the Mirror of Democracy, o cientista político Francisco Panizza destaca quatro circunstâncias que podem gerar movimentos populistas. O primeiro é um colapso (real ou imaginário) da ordem social e a perda de confiança na capacidade do sistema político de a restaurar. O segundo, que está mais ou menos relacionado com o primeiro, ocorre quando tradições políticas parecem fracas ou exaustas, ou quando os próprios partidos políticos se tornam desacreditados como veículos do interesse do público. Mudanças económicas, culturais e sociais dramáticas - particularmente mudanças demográficas entre classes sociais, regiões ou grupos étnicos - e a turbulência que isso pode gerar, são quase sempre combustível para o fogo populista. Por último, mas não menos importante: o populismo liga-se, geralmente, ao aparecimento de novas formas de representação fora das instituições políticas tradicionais (por exemplo, no começo do século XX, a invenção do rádio, em particular, permitiu que demagogos “falassem” directamente com as massas, sem muita mediação daqueles que estavam no poder).

O populismo culmina, então, num tipo de “política anti-política”. Define-SE como contra “a política de sempre” e sempre que um perfil verificado posta notícias no Twitter para apontar que “isto.não.é.normal”, um anjo ganha asas. Quanto mais longe do “normal” um líder populista parece estar, mais atraente se torna para “o povo” que quer representar. Para um exemplo canadiano, a recusa do político do Ontário Doug Ford de fazer qualquer promessa política concreta e só apoiar os piores impulsos libidinosos do conservadorismo suburbano, é o que o torna no líder populista ideal.

Também vale a pena realçar que quando um populista fala sobre “o povo”, tal não é necessariamente correspondente às ideias de esquerda do “povo” visto como os pobres e marginalizados. O populismo fala para qualquer um que se sinta “de fora”, o que significa que “o povo” geralmente consiste em pessoas que acham que o seu camião tem direitos humanos e não tanto nas massas que realmente sofrem para sobreviver.

Apesar de estas características parecerem mais ou menos salientes no actual momento histórico, são os novos media que merecem especial atenção. Nem todos os momentos de crise produzem um movimento populista em resposta; o que eu diria que o populismo realmente exige para descolar é uma crise de representação política. E, 10 anos depois da adopção em massa do Facebook, Twitter e seus derivados, parece que os novos media podem ser a chave.

Isto vai além de, simplesmente, reconhecer que Donald Trump é para o Twitter o que “Bible Bill” Aberhart foi para a rádio. Podemos até argumentar que as redes sociais criaram as condições para uma total crise epistemológica na sociedade democrática.

Vamos chamar a isto de anarquia epistemológica. Redes sociais que visam lucro (e enfaticamente não-neutras) preencheram o vácuo das fontes tradicionais de comunicação social e perdemos o elemento de “massa” dos media de massas. Se antes isso deveria libertar as nossas mentes e permitir um tipo de iluminação tecnológica, a forma como as coisas aconteceram foi bastante diferente. As redes sociais podem ser melhor compreendidas como a corda com a qual nos enforcámos.

Tem em conta os relatórios que realçam a péssima interpretação de texto entre adultos (como o estudo que revela que um terço dos millennials e quase 4/5 dos baby boomers não conseguem separar factos de opinião), ou a indicação de que as guerras culturais online são, literalmente, intratáveis (como o estudo que sugere que ser exposto a diferentes opiniões políticas na Internet na verdade aumenta a polarização). Há cada vez mais evidências de que o uso exagerado de Internet está literalmente a foder-nos os cérebros. Além de serem plataformas maravilhosas para a proliferação de pensamento mágico, desinformação e jogos de marketing algorítimicos para subverter a democracia, elas também funcionam como mecanismos para organizar actos de violência real (parabéns ao Facebook e WhatsApp por ajudarem nos massacres em Myanmar, linchamentos na Índia e o caos geral na política brasileira).

Embora saibamos que os seres humanos não precisam de ficar muito tempo online para se tornarem monstros, a ênfase nos novos media é importante para entender porque é que, actualmente, a democracia parece estar a engolir-se a si mesma. Jornais e revistas, rádio e televisão já foram novos meios usados por líderes para unir grupos disparatados numa única comunhão de interesses, apelidados de “o povo”, mas o ecossistema das redes sociais estica esses mecanismos até ao extremo atómico. O Líder está fora do Sistema e move-se entre os guardiões dos portões da elite do status quo para falar directamente com os seus seguidores online. Graças à natureza descentralizada dos media, o trabalho organizacional pesado é, geralmente, feito por comunidades (autorizadas por si mesmas), que surgem na esteira da intervenção política do líder. Isto é Fuhrerprinzip.

O populismo é uma característica estrutural das democracias liberais. Em momentos de crise - real, imaginária ou fabricada - ele faz curto-circuito às práticas democráticas, baseando a sua “anti-política” na ideia de soberania popular contra “tudo o que está aí”. Para pender mais para o lado do fascismo, há duas coisas que se reforçam mutualmente que têm de acontecer: cultura niilista e uma crise intratável.

Niilismo, simplificando, é a afirmação militante de que nada importa e que se foda quem se importa. Garret Keizer, num artigo para o The New Republic, deu uma óptima e útil definição: “Eu definiria niilismo como uma combinação de três elementos básicos: recusa em esperar qualquer coisa excepto a reivindicação definitiva do desespero; uma rejeição de todos os valores, especialmente valores considerados amplamente sacrossantos (igualdade, posteridade e legalidade); e a glorificação da destruição, incluindo a auto-destruição - ou como Walter Benjamin coloca, uma 'auto-alienação' tão extrema que a humanidade 'pode experimentar a sua própria destruição como um prazer estético'. ...Um niilista é alguém totalmente dedicado a estar pouco se lixando, que acha que todos os significados são uma merda e que deseja de todo o coração e por 'prazer estético' ver a merda bater no ventilador”.

Nacionalismo branco, misoginia e homofobia não são necessariamente marcas distintas do fascismo; intolerâncias paroquiais elevadas a virtudes nacionais são uma marca registada do populismo de direita. Fascismo - ou proto-fascismo, se a palavra com F te deixa desconfortável - ascende na intersecção onde sentimentos realmente niilistas encontram as dinâmicas ultrajadas, mas vazias, da reacção populista à crise política. Quanto mais a crise se prolongar, for intratável ou de carácter existencial, maior será o crescimento das tendências fascistas - especialmente enquanto o sentimento niilista se espalha. A dívida do fascismo para com o niilismo é mais clara pela forma como este abraça a violência; violência é a virtude suprema que impõe ordem num mundo sem sentido e destroçado.


Vê o primeiro episódio de "Odiarás o Teu Vizinho"


Longe de querer alarmar alguém com um longo ensaio sobre o colapso das políticas democráticas, é, no entanto, difícil evitar a conclusão de que se está a formar uma tempestade perfeita. A anarquia epistemológica criada pela sobrecarga de informação das redes sociais é tipo um campo de desova do niilismo. Assim como a sociedade capitalista, com o seu preceito tácito de que não há valores além dos caprichos do seu consumo. Novamente citando Keizer: a premissa básica de uma sociedade mercantilizada é que “o que queres é o que deves ter e quanto mais rápido tiveres, melhor. Pela sua própria forma de operar, o mercado desvia-nos dos princípios de contenção e na direção do abandono niilista."

Isso já seria suficientemente mau sem a ameaça de uma catástrofe ecológica completa a pairar sobre a civilização. Não é possível subestimar a magnitude da crise climática, que já está em andamento e vai piorar exponencialmente sem algum tipo de intervenção internacional drástica. Essas são exactamente o tipo de políticas impossibilitada por populismos “nacionalistas”. Se os primeiros dias da "Terra Estufa" são uma indicação, não vamos lidar bem com isto.

Podes ver como tudo isto funciona na forma de uma espiral da morte niilista. Quando o Planeta cruzar o limiar dos 2 graus Celsius, em certo ponto a degeneração da democracia provavelmente vai cair num ciclo de feedback autoritário do qual não vai conseguir sair. Isso é mais claro em lugares como a Turquia, Hungria e Brasil, mas claro que a América de Trump já deu passos largos na estrada da ruína. Encarceramento de crianças, polícia secreta e mobilizações do exército enquanto política de imigração, não são um bom sinal para um futuro definido por milhões de refugiados climáticos (acrescente a isto o facto de que a administração de Trump pretende entrar numa orgia final apocalíptica de super-exploração industrial e tens muitas razões para te preocupares).

Sob o risco de simplificar demasiado as coisas, aqui vai uma curta ilustração de como esse processo funciona. Os truques do populismo de direita minam as normas e funções da democracia liberal, basicamente pondo-lhe fim. Enquanto a crise se aprofunda, geralmente resultado das politiquices do próprio populista, a ferocidade cívica aumenta e a democracia continua a degenerar. O niilismo engendrado por tecnologia, capitalismo e crise climática torna-se mais e mais aparente, até que seja politicamente permitido para os populistas de direita reconhecerem que a única forma de assegurar a existência do “povo”, diante do colapso ambiental e escassez de recursos iminentes, é através de segregação e violência. Esse é o ponto onde populistas reacionários se transformam em completos fascistas do século XXI.

O populismo é como um espelho através do qual as democracias se podem examinar a si próprias. O reflexo que vemos agora não é meramente feio - é o rosto de um monstro, o rosto do bicho-papão fascista que assombra o nosso futuro. Não estamos condenados a usar esse rosto fascista, mas só lhe podemos escapar se tivermos estômago para olhar para o espelho agora, estudar toda a sua monstruosidade e aprender como discerni-lo, mesmo quando ele se esconde no escuro.


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