Ibulay dentro de sua caverna
Todas as fotos por Felipe Passolas.
Viagem

Fotos cruas dos moradores das cavernas de Granada

Por décadas, as cavernas são o lar de pessoas que buscam um modo de vida alternativo.
MS
Traduzido por Marina Schnoor
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
4.12.18

Matéria originalmente publicada pela VICE Espanha.

Os montes de Granada são cheios de pessoas que decidiram que, em vez envenenar suas almas e pulmões com a vida na cidade grande, preferiam se mudar para uma caverna no sul da Espanha. A maioria dessas cavernas podem ser encontradas nos distritos de Albaicín e Sacromonte – áreas protegidas pelo status de Patrimônio Mundial da Humanidade [áreas selecionadas pela ONU como marcos nacionais].

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Em 1963, os então habitantes dessas cavernas foram despejados pelo governo Franco, depois que chuvas pesadas causaram deslizamentos de terra e inundações pela cidade. Mas, nas últimas décadas, essas cavernas abandonadas foram reocupadas. Algumas famílias conseguiram licenças de habitação, mas muitas outras nem se preocuparam com isso.

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Uma caverna no distrito de Albaicín.

A comunidade das cavernas de Albaicín é formada principalmente por imigrantes e pessoas buscando um modo alternativo de vida – todos recebendo bem forasteiros procurando por um lugar de curto prazo para ficar.

Sacromonte, enquanto isso, é dividido em duas comunidades – uma é lar de famílias que moram aqui há gerações, e a outra formada por viajantes e espíritos livres. Mas independentemente de onde você mora, o lugar tem uma das melhores vistas de Granada, e de lá você pode ver alguns dos marcos mais populares da Espanha.

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A comunidade das cavernas de Sacromonte.

Enrique Carmona é roma e dançarino de flamenco profissional. Ele é dono do María La Canastera, um tradicional bar de flamenco em Sacromonte que atrai espanhóis e turistas há meio século. Enrique aprendeu seus primeiros passos de dança com a mãe, María – uma figura famosa na cultura flamenca. A caverna de Canastra, batizada com o nome de sua mãe, é um dos pontos mais populares da área.

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Enrique Carmona.

Carmona visa preservar o sabor e a autenticidade do flamenco de Sacromonte – ele evita instalar holofotes e usar microfones para amplificar os sons de seus artistas, e prefere que os dançarinos se apresentem direto no chão da caverna sem uma plataforma, sempre perto do público.

O cantor Curro Albaicín roda as cavernas de Albaicín desde que era criança nos anos 1950. Na época, a comunidade recebia atores de Hollywood e celebridades para seus famosos shows de flamenco.

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Uma apresentação no María La Canastera.

“Foi assim que aprendemos”, me disse Curro, “vendo, ouvindo e cantando”. O jeito como a comunidade combinava sua paixão pela cultura com a vida cotidiana, acrescenta Curro, foi o que tornou o lugar especial.

Hoje, Curro ensina as tradições da comunidade e da cena do flamenco para vários jovens, transformando sua caverna num museu vivo de memória e arte. “Mesmo se os jovens deixam suas pegadas modernas, a coisa mais importante é que eles não se esqueçam da tradição, porque não há muitos de nós vivos ainda. Quando morrermos, a tradição vai se perder para sempre, a menos que a passemos a diante”, Curro explica.

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Curro Albaicín.

Ibulay é da pequena cidade de Passi, no Senegal. O homem de 46 anos mora na Espanha há 17 e agora trabalha como motorista. “A vida é mais calma nas cavernas”, ele me diz. “Sofro menos racismo que na cidade e aqui vivo numa comunidade onde há pessoas do meu país.”

Ele fica triste com a falta de integração no resto do país e confessa que quando chegou na Europa, ele nunca imaginou que a vida na Espanha seria assim. Mas aqui em Albaicín, Ibulay adora o fato que cada caverna conta uma história diferente com orgulho.

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A caverna de Curro Albaicín é um templo da tradição.

Mbacke, 34 anos, é de Touba, uma cidade a 193 quilômetros de Dakar. Ele chegou a Espanha ilegalmente em 2015 e ainda está esperando ter sua estadia legalizada. Seus amigos me contam que ele teve uma vida difícil nos últimos anos, se mudando entre Bilbau, Madri e Almeria, mas que sempre o apoiaram e que agora ele se sente parte da comunidade. “Nos protegemos e fazemos companhia uns aos outros”, Mbacke explica.

Ainda assim, os moradores vivem com medo de serem despejados. “Alguns despejos aconteceram em 2013”, diz Lola Boloix, representante da Associação de Bairro de Albaicín. A comunidade, acrescenta Boloix, está determinada a encontrar uma solução de longo prazo. “Entendemos que devido à natureza das pessoas que as cavernas atraem, é importante para as autoridades saber quem mora aqui e por quê.”

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Ibulay em sua casa.

Ano passado, Miguel Angel Fernandez – o conselheiro local de planejamento urbano – disse que a área tinha sido designada para uso polivalente, mas como é tradição na política da Andaluzia, nada foi feito para explicar aos moradores o que isso significa para o futuro deles. Mesmo o governo já argumentou que devido ao status protegido do local, é difícil fazer qualquer plano de construir na área.

Enquanto isso, os moradores das famosas cavernas de Granada vão continuar lutando contra as acusações de que sua comunidade é cheia de viciados, violência e cães raivosos. Eles querem que as pessoas saibam que apesar de cada pessoa cuidar de sua caverna de seu próprio jeito, há um sentimento forte e amplo de comunidade que faz a vida aqui valer a pena, e ser digna de proteção.

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Saque mais fotos das cavernas de Alabaicín e Sacromonte abaixo.

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Mbacke.

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Tradução do inglês por Marina Schnoor.