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análise

Como quatro rapazes de Londres se tornaram os "Beatles" do ISIS

A história dos quatro britânicos infamemente conhecidos por torturarem e decapitarem prisioneiros na Síria.

Por Adam Forrest; Traduzido por Madalena Maltez
26 Fevereiro 2018, 1:30pm

Da esquerda para direita: Aine Davis, Alexanda Kotey, El Shafee Elsheikh e Mohammed Emwazi. Ilustração: Dan Evans.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Eram britânicos, os quatro. Era inegável. Tapavam a cara e falavam sobre o seu ódio ao Ocidente, mas aquele sotaque inconfundível fez com que os reféns da prisão de Raqqa soubessem uma coisa sobre os seus captores do auto-proclamado Estado Islâmico. Eram britânicos e eram quatro, por isso chamavam-lhes "The Beatles".

Os reféns não sabiam, mas havia mais em comum entre os seus carcereiros do que apenas a maneira de falar. Cresceram os quatro na mesma área no oeste de Londres, andavam pelas mesmas ruas dentro e fora de Ladbroke Grove e iam alternando as visitas à mesquita com videojogos e futebol.

Os quatro deixar-se-iam encantar por ideias extremistas aos 20 e poucos anos. Por não encontrarem um papel satisfatório na vida adulta em Londres e, à falta de conseguirem conciliar as suas identidades - muçulmana e britânica -, decidiram partir para a batalha num país distante. Batalha essa que acabaria com toda e qualquer hipótese de regressar a uma vida normal, a casa. Na Síria, voltar-se-iam para a brutalidade e para a loucura. Segundo o governo norte-americano, este grupo foi o responsável pelos espancamentos, torturas (como falsas execuções, por exemplo) e decapitações de mais de 27 pessoas.


Vê: "O Estado Islâmico"


Mas, como é que quatro putos britânicos acabam envolvidos numa violência tão desprezível, a ponto de o seu país os rejeitar? E o que é que as suas histórias nos dizem sobre quais são os passos fatais, os passos para a radicalização?

As quatro identidades desta notória célula do ISIS foram finalmente divulgadas no início de Fevereiro, quando oficiais norte-americanos revelaram que as Forças Democráticas Sírias (FDS), apoiadas pelos EUA, tinham prendido os últimos dois membros dos "Beatles": Alexandra Kotey, de 34 anos, e El Shafee Elsheikh, de 29 anos.

Aine Davis, um dos membros anteriormente identificados, continua numa prisão turca. Foi condenado por ser membro de uma organização terrorista e sentenciado a sete anos e meio, em Novembro de 2015. Mohammad Emwazi, mais conhecido por "Jihadi John", foi morto nesse mesmo mês, atingido por um ataque de drones americanos. Tinha 27 anos.

Alexanda Kotey, que não foi criado como muçulmano, parecia o mais devoto à religião. Cresceu em Sheperds Bush com a mãe cipriota-grega, perdeu o pai quando era criança e os vizinhos lembram-se de o ver jogar futebol com o irmão mais velho - era grande fã dos Queen's Park Rangers.

Foi algures entre a adolescência e a faixa dos 20 anos que Kotey se converteu ao Islamismo. A mistura da recém-descoberta religião com a política simplista que via os muçulmanos como vítimas de uma opressão global às mãos dos não-crentes, acabou por se provar intoxicante. Não tardou até que Kotey se tornasse num elemento-chave no processo de influenciar muçulmanos mais novos, partilhando em voz alta a sua visão de "nós contra eles" a partir da sua banca de rua, montada perto da mesquita de Al-Manaar e da estação Westbourne Park.

Emwazi e Davis também frequentavam a mesquita de Al-Manaar, o que nos poderia preguiçosamente levar a supor que foi lá que se radicalizaram. Mas, a mesquita funciona como um centro onde a vasta comunidade muçulmana do oeste de Londres se junta, é frequentada por três mil pessoas por semana - não é sitio para um grupinho de jihadistas se radicalizar.

A mesquita tem feito esforços por se distanciar de acções individuais de algumas pessoas que a possam ter frequentado. "Não perfilamos os fieis com base na sua etnia, ou no tipo de ideias que lhe possa passar pela cabeça", garante um porta-voz. E acrescenta: "Isto é algo que não teríamos forma de saber ou de controlar".

El Shafee Elsheikh. Foto: Facebook

Tal como Kotey, El Shafee Elsheikh adorava futebol e torcia pelo Queen's Park Rangers. Também ele foi criado pela mãe - solteira e nascida no Sudão - e cresceu em White City, não muito longe do estádio Loftus Road, do QPR.

A mãe de Elsheilh já explicou publicamente a forma como ele mudou, repentinamente, em 2011, quando começou a ouvir CDs de sermões de Hani al-Sibai, um clérigo radical egípcio que vive no oeste de Londres e que continua nas listas de sanções da ONU, EUA e União Europeia, como suspeito de apoiar a Al Qaeda.

Ainda assim, há boas razões para acreditar que a radicalização de Elsheikh não se deu da noite para o dia. Foram decepções acumuladas. Tinha-se casado no Canadá, em 2010, mas a sua mulher não conseguiu o visto para ir para o Reino Unido. Não conseguiu ser promovido no seu emprego na oficina local, mesmo depois de ter estudado engenharia na faculdade e o seu irmão mais velho foi preso por posse de armas depois de uma luta de gangs.


Vê: "Um espanhol contra o Estado Islâmico"


"A radicalização pode parecer um processo rápido - mesmo aos olhos das famílias, parece que aconteceu de um dia para o outro. Mas, a crise psicológica tende a demorar muito mais tempo a desenvolver-se", explica Afzal Ashraf, especialista em terrorismo e ideologia extrema na Universidade de Nottingham. E sublinha: "A frustração vai crescendo ao longo do tempo, até que, de repente, aparece um grupo a oferecer uma visão do Mundo mais preto no branco, que vem dar um novo sentido a tudo".

Mohammed Emwazi também teria sido influenciado pelos discursos inflamados de Hani al-Sibai e viria a abraçar uma forma crua do Islão político, sem nenhum período prolongado de estudo religioso.

Criado por imigrantes do Kuwait em várias casas de North Kesington, pupilo da Quintin Kynaston Academy, não era conhecido por ser particularmente devoto na adolescência. Fã do Manchester United e de musica rap, usava bonés de basebol e dizia aos amigos da escola o quanto odiava Tony Blair e George Bush. Tinha algumas dificuldades em controlar a raiva, problema com o qual os professores o ajudavam.

Enwazi tornou-se amigo de Bilai al Berjawi e Mohammed Sakr, dois gajos ligeiramente mais velhos de North Kensington, que foram lutar ao lado do grupo islâmico al-Shabaab na Somália. Acabariam por ser mortos, ainda na Somália, por um ataque de drones em 2012.

"Enwazi vem de uma rede de jovens islâmicos do oeste de Londres", explica Raffaello Pantuci, autor de We Love Death as You Love Life: Britain's suburban Terrorists. E acrescenta: "Al-Berjwain e Sakr destacavam-se entre as pessoas que iam e vinham da Somália e Emwazi frequentava esse círculo. Havia uma sobreposição de pequenos gangs, com pessoas que se voltavam para o jihadismo".

Em 2009, com apenas 21 anos, Emwazi viajou para a Tanzânia usando o pretexto de querer fazer um safari. Lá, foi interrogado por agentes do M15, acusado de ter tentado entrar em contacto com locais para lutar ao lado do al-Shabaab. Depois passou uns tempos entre o Kuwait e Londres, até ser proibido pelos oficiais de imigração de regressar ao Kuwait. No inicio de 2013, Emwazi conseguiu sair do país, dizendo aos pais que ia para a Turquia ajudar refugiados.

Aine Davis. Photo: Metropolitan Police

Aine Davis cresceu em Hammersmith com a mãe e um pai ausente - mas, pouco se sabe sobre a sua infância. Como jovem adulto foi varias vezes condenado por tráfico de droga e chegou a ser preso em 2006 por posse de arma. Acredita-se que se converteu ao islamismo na prisão, ou logo depois de ser libertado.

Se Davis era o criminoso mais experiente dos "Beatles", parece que a decisão de ir para a Síria foi para seguir, de forma perversa, o "caminho dos justos". A mulher, Amal El-Wahabi, disse no seu julgamento em 2014 (ela foi condenada por tentar mandar dinheiro a Davis quando ele estava na Síria) que deixar Londres era suposto ter sido algo bom para o "corpo e alma" do marido. Mas, a razão pela qual deixou o Reino Unido em 2013 foi bastante mais perturbadora que o tráfico de drogas.

Cada um dos quatro homens seguiu diferentes caminhos que acabariam, eventualmente, por se unir no Norte de Raqqa. De Kotey só se sabe que terá viajado para lá depois de ter fugido de um comboio de ajuda humanitária em Gaza, em 2009. Elsheikh terá seguido para a Síria algures em 2012, juntando-se aos afiliados da Al-Qaeda antes de se juntar ao auto-proclamado Estado Islâmico. Emwazi e Davis chegaram à Síria em 2013, o ano em que o Daesh - inicialmente estabelecido no Iraque - começou a dominar territórios importantes dentro do país.

Será que é possível que algum deles tenha viajado não com intenções violentas, mas sim atraído apenas pela ideia de ajudar vítimas do regime de Bashar al-Assad? "Quem começou a ir em 2011 e 2012, até consigo acreditar que se pudesse julgar o próximo Che Guevara, a fazer o bem e a ajudar os oprimidos", diz Raffaello. E realça: "Mas, quando a causa se estabelece e se assume como um califado do ISIS e nada te faz parar de seguir essa causa, então é claro que se tornou algo muito diferente".

Seja por que razão for, os quatro londrinos ficaram e prosperaram. Muito tem sido escrito sobre a cultura de martírio entre jihadistas, o desejo de procurar a morte, mas Asaf Ashraf acredita que temos subestimado o quão moralizados muitos destes jovens jihadstas se sentiram por fazerem parte de algo que estava "a ganhar". Enquanto o auto-proclamado Estado Islâmico estava a ganhar terreno, estes jovens, que foram atraídos pela promessa de sucesso, cansados de viverem uma narrativa de perda, descobriram a euforia de fazer parte de algo que estava a prosperar".

Enquanto alguns recrutas estrangeiros acabaram por se desiludir ao serem usados como carne para canhão por comandantes do Daesh no Iraque, os quatro londrinos encontraram um novo papel em Raqqa: ficaram incumbidos de guardar os reféns ocidentais num sitio a que os cativos chamavam "A Pedreira". “Eles podiam não ser combatentes úteis, já que não tinham muita experiência no campo de batalha, mas seriam uma unidade natural, capaz de trabalhar junta”, diz Pantucci. E sublinha: “Falantes de inglês... que melhor maneira de enviar a mensagem ao resto do Mundo? Tornaram-se úteis para propósitos de propaganda”.

Alexanda Kotey, depois da sua captura, em Janeiro, pelas Forças Democráticas Sírias. Foto via FDS

O grupo fazia mais do que simplesmente manter as pessoas ali. Reféns sobreviventes descrevem o talento dos quatro britânicos para os atormentar. O jornalista espanhol Javier Espinosa refere-se a eles como personagens "psicopatas", relembrando como Emwazi lhe sussurrou ao ouvido exactamente o que aconteceria se lhe cortasse a garganta: "Primeiro a faca vai cortar as tuas veias. Depois, o sangue mistura-se com a saliva".

O refém holandês Daniel Ottosen descreveu como os carcereiros britânicos brincavam com eles, obrigando-os a cantar musicas sobre Kenneth Bigley, o refém da Al-Qaeda decapitado no Iraque. "Não recebiam ordens para nos bater, faziam-no porque queriam. Porque gostavam", garante Ottosen. No seu livro de memórias, o holandês descreve “George” como aquele que dava as ordens e também o mais imprevisível. “Ringo” filmava quando era preciso. Mas, era “Jihadi John” que assumia o papel principal, tornando-se infame em todo o Mundo.

Em Agosto de 2014, o ISIS divulgou um vídeo em que uma figura vestida de preto - Emwazi - decapitava o fotojornalista americano James Foley. Em Setembro, voltou a aparecer noutro video - a decapitação do jornalista americano Steven Sofloff. Seguiram-se mais assassinatos: as mortes dos trabalhadores humanitários britânicos, David Haines e Alan Henning, do trabalhador humanitário norte-americano Peter Kassig e dos jornalistas japoneses Haruna Yukawa e Kenji Goto. O governo americano afirma que a célula decapitou 27 reféns no total. Acredita-se que, entre as vitimas do grupo, estavam combatentes sírios, capturados no campo de batalha.

Com Emwazi morto, ainda não é claro quem dos londrinos sobreviventes era "George", "Ringo" e "Paul". O jornalista francês Nicolas Henin, refém sobrevivente, diz-me que não me pode esclarecer a identidade deles, citando o processo legal que ainda se pode desenrolar contra Kotey e Elsheikh. Apesar de, supostamente, o Reino Unido lhes ter tirado a cidadania, oficiais norte-americanos e ingleses ainda estão a debater onde é que eles devem ser mantidos e julgados. Recentemente, a secretária do interior Amber Rudd insinuou que pode ser que eles voltem ao Reino Unido, apesar de o secretário de defesa, Gavin Williamson, ter dito anteriormente: "Acho que nunca mais deveriam poder pôr um pé neste país. Viraram as costas a Inglaterra, a todos os nossos valores e a tudo aquilo que defendemos - são o pior do pior".

Mesmo agora, com tudo o que sabemos, é estranhamente tentador pensar que, pelo menos um dos membros do grupo, teria alguma réstia de decência, que nem todos eram igual e inteiramente maus. Mas, há poucas provas de decência a que nos possamos agarrar. O Departamento de Estado dos EUA diz que Kotey "esteve provavelmente envolvido nas execuções do grupo e em métodos excepcionalmente cruéis de tortura". Elsheikh "ganhou reputação por levar a cabo torturas como waterboarding, execuções a fingir e crucificações".

Podemos falar destes quatro como sendo excepcionalmente maus, mas nunca como casos isolados - a sua jornada pela escuridão não foi assim tão fora do normal. Os serviços de segurança acreditam que 800 cidadãos britânicos fugiram para se juntar ao ISIS. Haverá assim, provavelmente, lições a retirar destas 800 histórias. É preciso tentar compreender melhor o porquê de tantos muçulmanos de segunda e terceira geração se sentirem inseguros quanto àquele que é o seu lugar e porque é que esta versão adulterada e politizada do islamismo lhes traz claridade e propósito.

Em última instância, o Reino Unido terá de pensar em estratégias mais convincentes para que estes quatro jihadistas londrinos se transformem numa nota de rodapé na História e não num sinal do que ainda está para vir.


@adamtomforrest / @dan_draws

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